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O mundo explicado pela teoria dos jogos

Publicado por admin - Tuesday, 10 August 2010

Aumann: romanos foram "campeões da paz"

IDEIAS

PAULO HEBMÜLLER

FEA recebe a visita de quatro ganhadores do Prêmio Nobel de Economia – John Nash, Robert Aumann, Eric Maskin e Roger Myerson –, que, em entrevistas com jornalistas, abordaram temas como ascensão da China, guerras, métodos eleitorais e crise financeira

A USP recebeu na semana passada a visita de quatro ganhadores do Prêmio Nobel de Economia, que participaram do 2º Workshop Brasileiro da Game Theory Society, realizado na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP. O evento celebrou o 60º aniversário do conceito conhecido como “equilíbrio de Nash”, que John Nash apresentou numa tese aos 21 anos de idade. Decano do grupo, o professor de 82 anos tornou-se mundialmente conhecido ao ser interpretado no cinema por Russel Crowe em Uma mente brilhante, adaptação da biografia escrita por Sylvia Nasar.
A produção ganhou o Oscar de melhor filme em 2002, mas na entrevista coletiva que concedeu a um pequeno grupo de jornalistas na FEA, no dia 3, Nash afirmou que vários episódios foram retratados no filme como fruto da “arte de Hollywood”. “O roteirista ganhou o Oscar”, resumiu.
Além de Nash, laureado em 1994, conversaram com os jornalistas os professores Robert Aumann (Nobel de Economia em 2005), Eric Maskin (2007) e Roger Myerson (2007). Ascensão da China no cenário internacional, guerra, métodos eleitorais, crise financeira e outros temas estiveram na pauta das entrevistas, demonstrando a diversidade de perfil desses pesquisadores que se ocupam da teoria dos jogos.
A seguir, trechos da rodada de entrevistas, da qual o Jornal da USP foi um dos veículos participantes.

Nash: com Nobel, ele retomou a carreira

De volta à carreira – Para John Nash, que segue lecionando no Departamento de Matemática da Universidade de Princeton, de acordo com a teoria dos jogos não faz sentido que alguns países assumam metas de redução de emissões de carbono sem ter a certeza de que os demais farão o mesmo. Nash argumenta também que os efeitos das emissões ainda não estão corretamente compreendidos nem suficientemente provados. Em sua opinião, o investimento em programas de redução pode ser comparado a atos de caridade ou a contribuições que um fiel faz à sua igreja. “Uma pessoa pode achar que isso é bom, mas outras pessoas com o mesmo dinheiro não contribuem.”
O professor comentou ainda que as análises sobre ações de governos na área econômica são muito influenciadas pela política e por linhas partidárias. Nash considera Paul Krugman, Nobel de Economia em 2008, “um economista brilhante”, mas cujas análises revelam uma inclinação à esquerda e um alinhamento com o Partido Democrata.
John Nash encerrou a entrevista afirmando que ter ganho o Nobel o fez retomar a carreira. “Eu estava recuperado da doença mental, mas estava desempregado, e para mim realmente o prêmio reacendeu a possibilidade de reassumir uma carreira e ter outros benefícios”, concluiu.

Guerra e paz – Professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, em Israel, Robert Aumann, nascido em 1930 numa família de judeus ortodoxos em Frankfurt, Alemanha – de onde os pais conseguiram emigrar em 1938 para os Estados Unidos –, falou da relação entre a teoria dos jogos e a guerra. Segundo ele, para obter a paz não é necessário apenas desejá-la.
“As motivações para não fazer a guerra são dadas não pelas concessões feitas, mas, ao contrário, pela demonstração de preparo tanto físico como mental para se defender e ir à guerra”, disse. Para Aumann, os “campeões mundiais” da paz foram os romanos, que mantiveram por 400 anos a pax romana. Seu lema: se queres a paz, prepara-te para a guerra. “A Guerra Fria nunca se tornou quente pela certeza da destruição mútua, dada pela análise matemática. Não é uma coisa agradável, mas é a verdade”, afirmou.
O outro lado da moeda foi a Segunda Guerra Mundial, precedida por mais de uma década de conversas e negociações sobre a paz. Aumann citou o ex-primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain, que voltou da conferência de Munique, em 1938, anunciando aos parlamentares ingleses que trazia consigo “a paz em nossa era”.
Chamberlain havia feito enormes concessões a Hitler – “na Tchecoslováquia, não na Inglaterra”, acentuou Aumann –, mas mesmo assim a guerra estourou no ano seguinte, exatamente porque o primeiro-ministro deixou transparecer que seu país não estava preparado para a guerra. O mais velho dos cinco filhos do professor, Shlomo, soldado do exército de Israel, morreu em combate em 1982.

Maskin: "natureza humana é muito complicada"

Aumann disse ainda que a matemática é principalmente “uma ferramenta para clarear o pensamento”. “Com palavras, você pode convencer-se de quase qualquer coisa. Mas não pode fazer a matemática pender de acordo com a sua vontade”, disse. Ao mesmo tempo, continuou, a análise matemática sozinha não basta. “Algumas vezes a matemática oferece resultados surpreendentes e é preciso perguntar o que aconteceu. Se é uma conclusão matemática que você não sabe de onde veio nem sabe explicar em palavras, então ela não é muito confiável.”

Inovação – Eric Maskin, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Princeton, explicou que a teoria dos jogos ajuda a identificar comportamentos. “Não podemos nunca prever exatamente o que as pessoas vão fazer, porque a natureza humana é complicada demais para que se possa fazer isso com exatidão. Entretanto, particularmente quando há um grande número de pessoas envolvidas, torna-se mais fácil prever o que vai acontecer na média”, disse.
Perguntado sobre o futuro da China no cenário internacional, Maskin elogiou os investimentos do país em pesquisa e inovação em novas fontes de energia. “É um movimento muito inteligente, porque tem o potencial de aliviar a dependência de importação, por exemplo, de petróleo de outros países e porque a inovação nesse campo será um importante motor para o futuro desenvolvimento da economia”, afirmou. “Espero que essa lição seja aprendida pelos seus competidores ocidentais, como os Estados Unidos, que não estão fazendo investimentos comparáveis em energia alternativa, o que é um erro.”

Myerson: reforma regulatória do mercado

O professor disse que sempre partilhou da ideia de que o mercado financeiro não é uma instituição autorregulada e de que seus problemas não se resolveriam por si sós. “A teoria mostra muito claramente que a regulação pelo governo é essencial para reconciliar os objetivos de instituições como bancos e os da sociedade de forma geral. A crise financeira de 2008 certamente não mudou minhas crenças quanto a isso, mas as fortaleceu”, ressaltou.

Eleições – Professor da Universidade de Chicago, Roger Myerson também compartilha da opinião de que “a reforma regulatória no mercado financeiro é o remédio mais importante para restabelecer a confiança no sistema”.
Myerson defende que haveria mudanças importantes na política brasileira se o sistema eleitoral permitisse que o eleitor escolhesse mais de um candidato a deputado. No método atual, os candidatos têm redutos eleitorais muito específicos e determinados, enquanto os partidos são muito fracos. Se fosse possível votar, por exemplo, em três nomes, como ocorre na Itália, a base partidária se tornaria mais importante, porque obrigaria os candidatos a estar mais conectados com os interesses gerais da base de apoio do partido, e não com segmentos específicos.