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Dogmas questionados

Publicado por admin - Friday, 20 August 2010

MEDICINA

Estudos indicam que o processo de envelhecimento não está obrigatoriamente associado à diminuição no número de neurônios, que pode se manter estável ou até aumentar em indivíduos idosos

VALÉRIA DIAS

Agência USP de Notícias

O que de fato acontece com nossos neurônios quando envelhecemos? O envelhecimento está sempre associado à diminuição no número de células nervosas? Com intuito de responder a essas questões, um grupo de pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP vem conduzindo estudos, há nove anos, que trazem contribuições inéditas ligadas aos processos estruturais do envelhecimento no sistema nervoso periférico. As pesquisas são realizadas no Laboratório de Estereologia Estocástica e Anatomia Química (LSSCA) do Departamento de Cirurgia da FMVZ, sob a coordenação do professor Antonio Augusto Coppi.

De acordo com Coppi, 30 anos de pesquisas (de 1954 até 1984) foram gastos na tentativa de descobrir por que idosos perdiam neurônios do cérebro ao envelhecerem. Esses estudos eram baseados em métodos de quantificação em duas dimensões (contagem do número de perfis neuronais em uma área conhecida). “O uso desses métodos inadequados, levando-se em conta apenas comprimento e largura, conduziu os pesquisadores a acreditarem, por três décadas, que nosso cérebro perdia células nervosas ao envelhecermos”, afirma Coppi.

Porém, a partir de 1984, com a publicação de um método conhecido como estereológico do disector – que permite a quantificação das células e partículas em três dimensões (altura, largura e profundidade) –, os pesquisadores menos resistentes contestaram os resultados anteriores, iniciando o emprego da quantificação de neurônios por estereologia (3D) e não de perfis neuronais (2D) por morfometria. “A partir dos resultados dessas novas pesquisas, o paradigma do real destino dos nossos neurônios durante o envelhecimento está mudando”, destaca o professor.

A estereologia é uma ciência com um portfólio de ferramentas metodológicas, que permitem a análise não apenas em 2D, mas também levando em conta a profundidade (3D) e até mesmo o fator tempo (4D). Com isso é possível estimar o número total de objetos (e não apenas o número de perfis dos mesmos) e o verdadeiro tamanho (volume), além de outros parâmetros, com precisão e acurácia. O LSSCA é uma referência mundial na área e representante da América do Sul junto à Sociedade Internacional de Estereologia.

Cães e cavalos – Uma das várias linhas de investigação científica do LSSCA é exatamente pesquisar o que acontece com os neurônios do sistema nervoso central e periférico durante o processo de envelhecimento. Nos últimos nove anos, foram realizados no laboratório diversos estudos (nas modalidades de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado), abrangendo o sistema nervoso periférico de roedores como ratos, cobaias, preás, cutias, pacas e capivaras, assim como de cães e cavalos. Dentro de cada uma dessas espécies, os animais foram divididos em quatro grupos etários: neonatos (três dias), jovens (um mês), adultos (12 meses), senis (de dois a dez anos, dependendo da espécie animal estudada).

As análises foram feitas com neurônios do gânglio cervical superior e com neurônios do gânglio mesentérico inferior. Os gânglios cervical superior e mesentérico inferior pertencem ambos ao sistema nervoso simpático, sendo que o primeiro inerva os vasos cerebrais e o coração, entre outros, e o último inerva os intestinos delgado e grosso. “É importante notar que células nervosas (neurônios) são encontradas não só no cérebro, mas também em gânglios do sistema nervoso periférico (fora do cérebro)”, aponta o professor.

Nesta série de experimentos, os pesquisadores estimaram o número total de neurônios, o tamanho deles e o seu processo de divisão celular. “Os animais estudados eram saudáveis e não apresentavam sinais clínicos de doenças no sistema nervoso, o que poderia claramente interferir nos resultados”, conta.

Entre as conclusões inéditas está o fato de que, na maioria das espécies, o envelhecimento ocasionou um aumento no tamanho (volume) dos neurônios, ou seja, uma hipertrofia. Em cães, os pesquisadores encontraram aumentos de até 100% no tamanho do neurônio. “Não se sabe ao certo por que isso ocorre. Estudos recentes têm sugerido que a hipertrofia seria um mecanismo para manter a quantidade de substâncias produzidas pelos neurônios, como neurotransmissores, no advento de alguma doença ou perda de células”, destaca.

Dúvida – O número de neurônios durante o envelhecimento foi extremamente variável nos animais estudados: nos cães, aumentou 1.700%, ao passo que roedores selvagens idosos apresentaram o mesmo número de neurônios dos neonatos e jovens, ou seja, não houve diminuição do número dessas células nervosas durante o envelhecimento. Já em cobaias houve diminuição de 21%. “Os resultados sugerem que não existe um padrão específico em relação ao número total de neurônios durante o envelhecimento, pois que nossos achados mostram três situações claras: diminuição, aumento ou estabilidade no número de células nervosas”, afirma Coppi.

Surpreendentemente, foram encontradas células nervosas se dividindo em roedores selvagens idosos (preás e cutias). “Essa constatação coloca em dúvida um dogma na neurociência, o de que os neurônios no sistema nervoso autônomo se dividem até o primeiro ou segundo mês de vida, e a partir daí a divisão celular é interrompida”, destaca o professor. E ele acrescenta: “A ótima notícia para todos nós é que o envelhecimento não está obrigatoriamente associado a uma diminuição do número de neurônios, podendo esse número se manter estável ou até mesmo aumentar nos indivíduos idosos”. As pesquisas tiveram financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).