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Idas e vindas sobre duas rodas

Publicado por admin - Friday, 27 August 2010

AMBIENTE

Programa incentiva alunos, professores e funcionários a propor iniciativas que contribuam para a sustentabilidade da Cidade Universitária – como o Pedalusp, ideia de estudantes da Escola Politécnica que promove o uso de bicicletas no campus

PAULO HEBMÜLLER
Se a busca por patrocínios vingar, a Cidade Universitária deve ganhar a partir do ano que vem um novo sistema de transporte baseado em bicicletas compartilhadas, a exemplo do que ocorre em vários países desenvolvidos. Na semana passada, alunos, funcionários e professores puderam participar das demonstrações das estações-protótipo do Pedalusp realizadas na Escola Politécnica, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), no Bandejão Central e no Centro de Práticas Esportivas da USP (Cepeusp). A iniciativa faz parte de um programa da Universidade que visa à sustentabilidade do campus (leia o texto ao lado).
O Pedalusp funciona com estações automatizadas. Para retirar uma bicicleta gratuitamente, o usuário se cadastra e, com a carteirinha USP e a senha, entra no sistema. A bicicleta é liberada e basta ao ciclista pegá-la e sair pedalando. A devolução pode ser feita em qualquer estação instalada no campus: é só encaixar a trava da bike numa baia vazia. A previsão inicial é de montar dez estações com dez bicicletas em cada uma.

Inscrições para o Pedalusp: mais mobilidade no campus

O sistema foi criado no ano passado como trabalho de formatura dos alunos Maurício Matsumoto e Maurício Villar, ambos de 25 anos, do curso de Engenharia Mecatrônica da Escola Politécnica, sob orientação do professor Marcos Barretto. Os alunos desenvolveram um protótipo de bancada e apresentaram o projeto à Coordenadoria do Campus da Capital (Cocesp). “Gostamos da ideia. A utilização das bicicletas vai diminuir os deslocamentos de carro e a emissão de gases no campus”, diz Eduardo Siqueira Barbosa, coordenador do Programa Campus Sustentável da Cocesp. O órgão financiou a construção das duas estações apresentadas na semana passada.

Complementar – Os criadores do Pedalusp estimam que a demanda do campus seria de 300 a 500 bicicletas, cada uma com dez a 15 usuários diferentes por dia. Para viabilizar a construção das estações e a compra das bikes, a dupla busca patrocínios de empresas privadas, enquanto a Cocesp tenta na área pública. As estações seriam instaladas nos pontos de maior movimento, como as grandes unidades, os bandejões e os portões.
O usuário teria de 30 a 60 minutos para devolver a bicicleta em qualquer estação. Quem “estourasse” o tempo sofreria uma punição, como multa em dinheiro ou suspensão do sistema – à semelhança do que ocorre nas bibliotecas. Nos horários de pico, pequenos caminhões transportariam as bicicletas para os locais com maior movimento. “O sistema é complementar ao dos ônibus circulares”, diz Maurício Matsumoto. Os moradores do Conjunto Residencial da USP (Crusp), por exemplo, teriam sua mobilidade muito facilitada especialmente aos finais de semana, quando os ônibus urbanos não entram no campus e os circulares têm horário reduzido.
Matsumoto reconhece que existe o risco de roubo ou vandalismo. “Se a pessoa pegar a bicicleta pelo sistema, sabemos quem é. Agora, se serrar da baia e levar, não temos como saber”, diz. A depredação e o roubo são uma realidade em praticamente todos os lugares do mundo que usam o sistema. Em Paris, estudos mostraram que em três anos 80% das bicicletas foram roubadas ou vandalizadas. “Ali era um caso extremo porque a segregação na cidade é muito forte, as estações são muito concentradas, longe das periferias, e o vandalismo era uma forma de protesto”, diz Matsumoto.
Em compensação, o engenheiro provocava olhares de espanto quando fazia perguntas a respeito do tema no Japão, onde passou três meses estudando o sistema. “Lá isso não existe”, diz. “É uma ideia de participação, de comunidade. Se as pessoas tiverem boa percepção de sua atitude cidadã, vão usar as bicicletas corretamente”, aposta Eduardo Barbosa, da Cocesp.

Laboratório – Matsumoto e Villar conviveram de perto com as bikes compartilhadas respectivamente em Lion e Marselha, na França, onde estudaram por dois anos e meio, como parte do programa de duplo diploma da Poli. “Eu vi o projeto ser instalado em Marselha. Um dia acordei e estavam construindo uma estação na frente de casa”, conta Villar. A experiência serviu como base para a ideia de usar o campus como laboratório e ao mesmo tempo gerar conhecimento para, no futuro, possivelmente, expandir o sistema numa cidade mergulhada no caos poluidor do trânsito e carente de opções mais civilizadas e sustentáveis.
“Gostei muito. É uma ideia muito prática, ajuda a ter mobilidade e até dá para fazer exercício”, diz Fernanda Nogueira, aluna do primeiro ano de Engenharia Química, que conheceu o sistema na demonstração da Poli. Num intervalo entre uma explicação e outra aos visitantes, Maurício Villar comentou com a reportagem que, se ganhasse R$1,00 para cada manifestação de apoio, principalmente dos alunos, a verba estaria garantida. Agora é torcer para que os empresários contatados concordem.

Comunidade é estimulada a participar

O Pedalusp é uma das iniciativas do Programa de Pesquisa e Experimentação para a Sustentabilidade do Campus (Propesc) da Coordenadoria do Campus da Capital (Cocesp). O programa estimula a comunidade a apontar ideias de sustentabilidade que possam ser aplicadas no campus. Outra iniciativa é a criação de um site de caronas para ajudar a combinar chegadas e saídas nos mesmos horários e compartilhar o carro.
A Cocesp também apoia uma pesquisa de embarque e desembarque dos passageiros dos ônibus circulares. A pesquisa foi organizada por um grupo de quatro formandos do curso de Engenharia Civil, sob orientação do professor Ettore Bottura, e realizada durante dois dias no mês de agosto por uma empresa contratada. Os usuários foram contabilizados por meio de entrega e devolução de senhas no embarque e desembarque. A tabulação dos resultados está sendo feita pela empresa.
O objetivo do trabalho, explica o aluno Rafael Stucchi, é propor melhorias para o sistema dos circulares. “A pesquisa fornece dados para a otimização de itinerários e da frota. A aplicação das propostas, no entanto, não depende do grupo”, ressalva. Também estão na organização do trabalho os estudantes Leandro Teixeira, Tom Buser e Iara Paiva.