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Bem-estar em quatro dimensões

Publicado por admin - Thursday, 4 November 2010

NUTRIÇÃO

Utilizando nova tecnologia, pesquisadores da USP conseguem anular os efeitos da desnutrição em animais através de suplementações de acetato de zinco e de injeções de glutamina

VALÉRIA DIAS________________
Agência USP de Notícias

A suplementação de acetato de zinco na água de beber de camundongos fêmeas e a injeção subcutânea de glutamina nos respectivos filhotes protege os animais dos efeitos da desnutrição. Os dados são de um estudo realizado por uma equipe multidisciplinar de pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP, da Universidade Federal do Ceará (UFCE) e do Centro de Saúde Global da Virgínia, nos Estados Unidos.
No Departamento de Fisiologia e Farmacologia da Escola de Medicina da UFCE, pesquisadores aplicaram um protocolo de desnutrição em camundongos fêmeas que precisavam alimentar muitos filhotes ao mesmo tempo. Esse protocolo simula uma situação comum na sociedade brasileira: mães que geram muitos filhos, mas que não têm condições de nutri-los adequadamente. As fêmeas receberam suplementação com acetato de zinco na água de beber e seus filhotes receberam injeções subcutâneas de glutamina por 12 dias. Por meio da amamentação, o acetato de zinco chegava até os organismos dos filhotes.
Após realizarem testes funcionais, comportamentais e bioquímicos com esses filhotes, o cérebro desses animais foi analisado tridimensionalmente pelo Laboratório de Estereologia Estocástica e Anatomia Química (LSSCA) do Departamento de Cirurgia da FMVZ.
A estereologia é uma ciência que permite a análise de partículas levando em conta as três dimensões (3D): comprimento, largura e profundidade, com a possibilidade da análise na quarta dimensão (4D): tempo. “Com a estereologia é possível estimar o tamanho e o número total de células. Geralmente, as contagens de células levam em conta apenas o comprimento e a largura (morfometria bidimensional, 2D), o que na maioria dos casos conduz o observador a interpretações equivocadas”, comenta o estereologista Antonio Augusto Coppi, professor da FMVZ.
Sob a coordenação do professor Coppi, os pesquisadores do LSSCA constataram que os filhotes desnutridos e suplementados com glutamina apresentaram um aumento da camada CA1 do hipocampo, quando comparados aos animais do grupo desnutrido não-tratado.

Cognição – “O hipocampo é uma parte importante do cérebro que concentra inúmeras funções, entre elas as de natureza cognitiva, especialmente relacionadas ao aprendizado. Dentre as várias regiões do hipocampo, uma das mais importantes é a camada CA1, pois é nessa região que se processam as informações cognitivas e a consolidação da memória”, explica Coppi. De acordo com o estereologista, o volume da região CA1 dos animais desnutridos e tratados com glutamina era igual ao do grupo nutrido, dado que comprova o efeito benéfico da glutamina para reverter os prejuízos causados pela desnutrição.
Outro dado interessante é que os filhotes desnutridos e tratados com glutamina possuíam maior quantidade de zinco no cérebro. A glutamina é um aminoácido que participa da renovação das células (anabolismo) e confere maior resistência ao organismo (imunidade). Já o zinco é um elemento químico essencial para o organismo, estando envolvido na síntese de lipídios, proteínas e carboidratos, entre outros.
Segundo o professor Coppi, a análise bioquímica do cérebro dos animais suplementados com glutamina também revelou um aumento nas concentrações do neurotransmissor conhecido como ácido gama-aminobutírico e também da sinaptofisina no hipocampo. A sinaptofisina indica as sinapses cerebrais ativas, resultado que foi validado pela análise estereológica realizada no LSSCA, que mostrou um aumento de volume na camada CA1 do hipocampo.

Pesquisa translacional – O artigo “Zinc and glutamine improve brain development in suckling mice subjected to early postnatal malnutrition” foi publicado na revista Nutrition no último mês de junho e pode ser acessado integralmente no endereço www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20371167. “Trata-se de um estudo chamado translacional: uma pesquisa que leva o conhecimento da bancada do laboratório para o leito do paciente”, destaca o professor Coppi.
Esse estudo foi financiado pelas seguintes agências de fomento: Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), NIH Fogarty International Center, e Eunice Kennedy Shriver National Institute of Child Health and Human Development (NICHD).
Além do professor Antonio Augusto Coppi, também participaram do trabalho os pesquisadores Fernando Ladd e Aliny Ladd, da FMVZ; Reinaldo Oriá, da Universidade Federal do Ceará, que é o responsável pela linha de pesquisa em desnutrição; e Richard Guerrant, do Centro de Saúde Global da Virgínia, ao conduzir as análises comportamentais, funcionais, bioquímicas e histoquantitativas (estereológicas).