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Um novo caminho para a ciência

Publicado por admin - Thursday, 18 November 2010

LANÇAMENTO

Revista Estudos Avançados publica o dossiê “Biotecnologia”, com análises sobre a aplicação dessa técnica no desenvolvimento sustentável, na saúde e na agricultura

Uma das mais admiráveis conquistas da ciência contemporânea é tema da edição número 70 da revista Estudos Avançados. A publicação traz um dossiê sobre o assunto, que destaca três vertentes fundamentais: a relação entre biotecnologia e desenvolvimento sustentável, as múltiplas interações com as práticas médicas, veterinárias e farmacológicas e as aplicações na agricultura.
Para refletir sobre biotecnologia, foram convidados renomados cientistas e pesquisadores. A edição contou com a orientação do biólogo Luiz Roberto Giorgetti de Britto, vice-diretor do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP. É aberta com o ensaio “Biotecnologia e desenvolvimento sustentável”, de Ana Clara Guerrini Schenberg, professora do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP. “Para atingir as metas de desenvolvimento sustentável, é indispensável o manejo racional dos recursos naturais, o que exigirá o emprego de novas tecnologias”, observa. Ana aponta a biotecnologia como uma das que têm maior potencial nos campos da produção de alimentos, geração de energia, prevenção da poluição ambiental e biorremediação.
“Biotecnologia aplicada ao desenvolvimento de vacinas” é a reflexão propiciada pelo artigo de Mariana de Oliveira Diniz e Luiz Carlos de Souza Ferreira, professores no Departamento de Microbiologia do ICB. Segundo os autores, as vacinas representam a estratégia de intervenção com a melhor relação de custo-benefício até hoje aplicada em saúde pública. “Avanços biotecnológicos em diversas áreas de pesquisa têm contribuído para o desenvolvimento de formulações mais seguras e eficazes”, esclarecem.
Interessante também é o artigo “Terapia gênica: o que é, o que não é e o que será”.  O autor, Rafael Linden, médico e professor titutar do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), expõe a importância da terapia gênica. “É o tratamento baseado na introdução de genes sadios com uso de técnicas de DNA recombinante. O primeiro teste clínico bem-sucedido dessa técnica foi divulgado em 1990. Embora ainda em estágio experimental, progressos recentes indicam oportunidades crescentes de investimento pela indústria, justificando a expectativa de que, em alguns casos, essa tecnologia poderá chegar à prática clínica dentro de alguns anos.”

Células-tronco – Alysson Renato Muotri, professor da Universidade da Califórnia, em San Diego, nos Estados Unidos, esclarece em seu artigo “Células-tronco pluripotentes e doenças neurológicas” sobre os experimentos originais de reprogramação celular, liderados pelo pesquisador japonês Shinya Yamanaga, que surpreenderam a comunidade científica por quebrar o dogma de que células especializadas do corpo humano teriam uma identidade vitalícia. “De forma concisa, a reprogramação genética consiste no retorno a uma forma mais plástica e potente a partir de uma célula já diferenciada ou especializada. Por exemplo, pode-se usar a célula da pele de indivíduo adulto e transformá-la numa célula não especializada, indiferenciada e com a capacidade de se dividir indefinidamente. Essa célula indiferenciada e imortal teria o potencial de se especializar novamente na mesma célula da pele ou em outro tipo celular qualquer, mesmo num neurônio.” Muotri observa que se consegue obter células-tronco embrionárias sob encomenda, usando o mesmo material genético do paciente e evitando uma eventual rejeição em caso de transplante.
Três cientistas e professores do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP – Rafael Guido, Adriano Andricopulo e Glaucius Oliva – se reuniram para escrever o artigo “Planejamento de fármacos, biotecnologia e química medicinal: aplicações em doenças infecciosas”. Esclarecem que os avanços científicos e tecnológicos nas interfaces entre a química e a biologia têm proporcionado oportunidades e desafios notáveis na área de pesquisa e desenvolvimento de fármacos, com amplo destaque para dois componentes fundamentais: inovação e integração, que traduzem muito bem o papel central da química medicinal moderna.
“A nova grande promessa de inovação em fármacos: RNA interferência saindo do laboratório para a clínica”, artigo de Carlos Frederico Martins Menck, professor do Departamento de Microbiologia do ICB, explica que, com a recente descoberta de que as células humanas dispõem de um mecanismo de silenciamento gênico empregando RNA, a investigação científica vem alcançando um progresso surpreendente. E que, muito em breve, esse conhecimento será aplicado para fins terapêuticos.
Emer Suavinho Ferro, também professor do ICB, lembra que a biotecnologia é uma prática antiga, sendo utilizada desde o antigo Egito para a produção de pão e cerveja. No artigo “Biotecnologia translacional: hemopressina e outros peptídeos intracelulares”, destaca a história da biotecnologia. “No universo acadêmico, tem contribuído de forma decisiva para a descoberta de novas moléculas bioativas, como no caso da hemopressina e de diversos outros peptídeos intracelulares.”
O artigo “Biotecnologia animal”, assinado pelo professor Luiz Lehmann Coutinho e pelo pós-doutorando Millor Fernandes do Rosario, ambos do Laboratório de Biotecnologia Animal do Departamento de Zootecnia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, também resgata a importância da biotecnologia há milhares de anos na produção de alimentos fermentados. “Porém, foi só a partir da descoberta da estrutura do DNA por Watson e Crick, em 1953, e da tecnologia do DNA recombinante, na década de 1970, que a biotecnologia moderna tem sido empregada para designar o uso da informação genética obtida diretamente do DNA.”
“Biotecnologia na agricultura” – assinado por Helaine Carrier, Daniel Alves Ramiro e André Luiz Barbosa – destaca que a expectativa do crescimento populacional no planeta deverá atingir 9 bilhões de habitantes em 2050. Em adição às questões da sustentabilidade e do aquecimento global, isso é um desafio para aumentar a oferta de alimentos. “Uma metodologia alternativa que contribua para a redução do impacto desse cenário envolve a biotecnologia, que, nas últimas décadas, trouxe marcantes oportunidades tecnológicas na agricultura, resultando em relevante desenvolvimento na obtenção de novas variedades de plantas, na melhoria da qualidade de diversos alimentos e atualmente também na bioenergia.”

Revista Estudos Avançados, número 70, dossiê “Biotecnologia”, publicação do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP (telefone 11 3091-3919), 300 páginas, R$ 30,00.