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A ciência contra as doenças no mundo

Publicado por admin - Sunday, 7 December 2008
Simbolo mundial da luta contra a Aids
Simbolo mundial da luta contra a Aids

LANÇAMENTO

Nova edição da revista Estudos Avançados, que será lançada no próximo dia 16, traz ensaios de especialistas sobre as epidemias que têm assolado o Brasil e o planeta nos últimos anos – e propostas para combatê-las

PAULO HEBMÜLLER

Dez artigos de especialistas compõem o dossiê da edição nº 64 da revista Estudos Avançados sobre as epidemias que têm assolado diversas regiões do planeta. Os textos não se limitam a apontar problemas, dificuldades e realidades que vão requerer cada vez mais a atenção de governos e autoridades de saúde, mas também retratam programas bem-sucedidos, como os desenvolvidos pelo Instituto Butantan, e o sucesso da ciência brasileira na luta contra males como a doença de Chagas. A nova edição do periódico do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP será lançada no próximo dia 16.
José da Rocha Carvalheiro, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP e vice-presidente de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), ressalta que as epidemias devem ser consideradas não como um tipo especial de doenças, mas como parte de um complexo processo de distribuição de patologias no tempo e no espaço. O médico chama a atenção para o fato de que nos países desenvolvidos vive-se uma “transição epidemiológica”, na qual as doenças transmissíveis se reduziram substancialmente. Elas foram substituídas “por uma maior freqüência das crônicas não-transmissíveis, predominando as doenças cardiovasculares e o câncer”, registra Carvalheiro, que orientou a preparação do dossiê.

Criança de oito anos, com ratos brancos bairro Brasilia Teimosa, em Recife (Pe)
Criança de oito anos, com ratos brancos bairro Brasilia Teimosa, em Recife (Pe)

“A maioria dos países em desenvolvimento paga duplo tributo a uma agenda inconclusa”, afirma, pois neles persiste uma alta freqüência de doenças transmissíveis que convivem “com aumento acelerado das crônicas não-transmissíveis”. “A violência e o trauma, por distintas razões sociais, crescem em ambos os mundos”, completa. Carvalheiro ainda levanta a questão das “doenças negligenciadas”, que não merecem “a atenção da indústria farmacêutica (a ‘big pharma’) em sua maneira enviesada de encarar as necessidades humanas na área da saúde pelos óculos do lucro e do mercado”. “É surpreendente como o Terceiro Mundo é discriminado pelo lamentável quadro epidemiológico de suas populações e pelo nunca esquecido viés de atribuir essas doenças ao clima tropical”, salienta.
Erney Plessmann de Camargo, Professor Emérito da Faculdade de Medicina e do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, retoma o assunto ao traçar um perfil histórico e geográfico das doenças tropicais – ou, num sentido mais amplo, negligenciadas. Para o professor, há sim uma “fatalidade tropical” associada à incidência desses males nas proximidades da linha do Equador e entre os trópicos de Câncer e de Capricórnio. “Porém, a perpetuação das doenças tropicais em países aí situados depende fundamentalmente da precária situação econômica vigente e é conseqüência direta do subdesenvolvimento”, ressalta.

Médico tira amostra de sangue de criança com suspeita de dengue no Rio de Janeiro
Médico tira amostra de sangue de criança com suspeita de dengue no Rio de Janeiro

Estruturação – “As novas estratégias de enfrentamento das emergências de saúde pública vão requerer contínua avaliação dos seus resultados, com vistas a acompanhar as mudanças na dinâmica de transmissão e propagação de agentes e doenças, bem como adequá-las aos sistemas de saúde em todos os níveis de organização”, defendem Eduardo Hage Carmo, Gerson Penna e Wanderson Kleber de Oliveira, integrantes da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde. O sucesso dessa tarefa – que deve ter como objetivo “a estruturação desde o nível local, para que tenha capacidade de detectar, analisar, investigar e responder de forma rápida e eficiente a uma emergência de saúde pública” – dependerá “da adoção de medidas que sejam sustentáveis e favoreçam o fortalecimento do Sistema Único de Saúde”, apontam.
O caso da dengue também é analisado no dossiê. O médico cubano Eric Martínez Torres, membro do grupo de especialistas em dengue da Organização Pan-Americana da Saúde e da Organização Mundial da Saúde, aponta que uma das razões para que ainda não exista uma vacina eficaz, segura e de baixo custo para a doença é o fato de que desenvolvê-la é muito complexo: são quatro diferentes vírus a atacar. Já Tony Hiroshi Katsuragawa, Luiz Herman Soares Gil e Luiz Hildebrando Pereira da Silva, do Instituto de Pesquisas em Patologias Tropicais de Rondônia (Ipepatro), e Mauro Shugiro Tada, diretor do Centro de Pesquisa em Medicina Tropical da Secretaria da Saúde de Rondônia, analisam as endemias e epidemias na Amazônia e o impacto da construção de usinas hidrelétricas na ocorrência de malária entre as populações atingidas, especialmente nas áreas ribeirinhas.
Isaias Raw, Professor Emérito da Faculdade de Medicina da USP e presidente da Fundação Butantan, e Hisako Higashi, diretora da Divisão Bioindustrial do Instituto Butantan, defendem que o Brasil “tem grande potencial para se tornar avançado se dermos atenção às nossas prioridades e mantivermos, em equilíbrio com a pesquisa científica, uma atitude pragmática responsável”. “É isso que guia o programa de imunobiológicos do Butantan”, afirmam.
Dirceu Greco, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, faz uma análise dos impactos sociais, científicos e econômicos da epidemia da Aids e as perspectivas futuras em relação à doença. Para ele, a maneira como vem se dando e se dará o enfrentamento nos próximos anos “será fundamental para a discussão geral sobre saúde pública, ética e direitos humanos”. Greco cita Tucídides (465-395 a.C.), para quem a justiça ocorreria somente quando os não injustiçados se tornassem tão indignados quanto aqueles que o são. “Ouso afirmar que a justiça só prevalecerá quando aqueles afetados pela injustiça tomarem consciência de seus direitos e lutarem por eles”, defende.

O coquetel de lançamento de Estudos Avançados 64 (364 páginas, R$ 30,00) será no dia 16 de dezembro, terça-feira, às 16h, na sede do IEA (avenida Professor Luciano Gualberto, travessa J, 374, Edifício da Antiga Reitoria, na Cidade Universitária, em São Paulo). O coquetel será aberto com a apresentação do dossiê Epidemias, com a participação de José da Rocha Carvalheiro (USP e Fiocruz), Hisako Higashi (Instituto Butantan) e Luiz Hildebrando Pereira da Silva (Ipepatro). Às 17h, lançamento da revista, com Alfredo Bosi. Informações no site www.iea.usp.br/iea, telefone (11) 3091-1675.

Comemorações literárias

Além do dossiê sobre epidemias, a revista Estudos Avançados 64 traz, na seção “Textos”, artigos de Rubens Ricupero, Luiz Carlos Bresser-Pereira, José Antonio Ocampo e Luís Nassif sobre a crise financeira internacional e seu impacto no Brasil. Entre as resenhas de lançamentos, registro para a José Olympio – O editor e sua Casa.
Grandes escritores também são celebrados na primeira parte de um dossiê que terá seu complemento na próxima edição. Afinal, 2008 marca o centenário da morte de Machado de Assis, o de nascimento de Guimarães Rosa e os quatrocentos anos de nascimento do padre Antônio Vieira – o “imperador da língua portuguesa”, no dizer de Fernando Pessoa.
Ao escrever sobre Vieira, Alfredo Bosi, professor titular de Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e membro da Academia Brasileira de Letras, chama a atenção para o fato de que “a envergadura excepcional desse homem de ação, de imaginação e de expressão exige constantes releituras”. A obra missionária de Vieira revela, por exemplo, um agudo contraste entre a luta pela liberdade dos índios do Maranhão e a aceitação do trabalho escravo dos negros africanos.
Adélia Bezerra de Meneses, professora de Teoria Literária e Literatura Comparada na USP e na Unicamp, escreve sobre a novela “Dãolalalão”, publicada em Noites do sertão, de Guimarães Rosa, traçando seu paralelo com o texto bíblico do Cântico dos cânticos. Na novela, são os personagens desvalidos e marginalizados – um ex-matador de jagunços e uma ex-prostituta –, e não heróis de alta estirpe e elitizados, que vivem as questões fundamentais do ser humano. “Guimarães Rosa dá estatuto de dignidade ao ‘homem do povo’, com direito à tragédia; com direto ao páthos – o que é um fundamental traço de radicalidade de sua ficção”, diz a professora. Já Marcus Mazzari, professor de Teoria Literária e Literatura Comparada na USP, escreve sobre as figurações do “mal” e do “maligno” em Grande sertão: veredas.
Pedro Meira Monteiro, professor de Literatura Brasileira na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, discute fidelidade e dúvida no Memorial de Aires, o último romance de Machado de Assis. Monteiro investiga o papel desempenhado pela ópera Fidelio, de Beethoven, na construção do romance – no qual o narrador centra o foco nas ações da jovem viúva Fidélia. “Aires, pouco mais ou menos como o Bento de Dom Casmurro, tece sua própria rede de suspeitas, que enreda a todos, embora pareça poupar o narrador. Verdade que Machado não deixa a pena de seu conselheiro guiar-se pelo mesmo ciúme doentio que guiara Bentinho, mas, ainda assim, a escrita de Aires é uma geradora perpétua de suspeitas, tão mais poderosa quanto mais nos esquecemos dos interesses nem sempre virtuosos – sempre inconfessos, em todo caso – do narrador.”