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Fundamento e prática das “ciências do espírito”

Publicado por admin - Sunday, 27 March 2011

LIVRO

Edusp lança obra com textos do filósofo alemão Wilhelm Dilthey, pensador que associou a filosofia à “totalidade da vida humana”

ROBERTO C. G. CASTRO

Toda verdadeira filosofia deve desembocar numa pedagogia, ou seja, numa teoria da formação humana. Com essa ideia, o filósofo alemão Wilhelm Dilthey (1833-1911) já deixa implícita sua crítica a toda a metafísica e ao intelectualismo predominantes na filosofia desde suas origens gregas. Para ele, o pensar se dissociou de tal modo da vida que se tornou algo sem sentido, vão e inútil. A estrutura psíquica do homem não pode ser deduzida de elevados princípios ontológicos nem constituída a partir de alguns poucos dados empíricos significativos – como fazem os teóricos do conhecimento. Antes, deve ser explicada com base na “totalidade da vida psíquica”, que inclui não apenas o pensar, mas também o sentir e o desejar. “Nas veias do sujeito conhecedor construído por Locke, Hume e Kant não circula sangue de verdade, mas sim a seiva rarefeita da razão, na qualidade de mera atividade intelectual”, afirma Dilthey, criticando a teoria do conhecimento vigente em sua época.
Essa concepção de Dilthey – que contraria a tendência de boa parte da filosofia ocidental – está mais acessível ao público brasileiro graças a um livro recém-lançado pela Editora da USP (Edusp). Trata-se de Filosofia e Educação, que reúne textos do filósofo alemão selecionados pela professora Maria Nazaré de Camargo Pacheco Amaral, da Faculdade de Educação da USP. Nazaré assina a tradução dos textos, ao lado de Alfred Josef Keller, e a introdução. “As traduções disponíveis dos textos de Dilthey eram criticadas pelos nossos alunos”, lembra a professora. “Este livro vai ajudá-los a conhecer melhor o pensamento desse autor, que é tão complexo.”

Realidade histórico-social – O livro se divide em duas partes. Na primeira, são publicados textos com que Dilthey busca fundamentar filosoficamente as “ciências do espírito”, expressão que utiliza para designar o grupo de ciências que têm como objeto a realidade histórico-social – entre elas, história, economia, ciência do direito, ciência da religião, literatura, música e psicologia. Ele faz essa fundamentação sempre partindo do homem real e concreto, em sua totalidade. “Como, para Dilthey, a vida histórica concreta é muito mais rica e abrangente do que o mero pensar, o conceito de vivência passa a expressar essa relação complexa do homem com seu meio sociocultural”, escreve Nazaré. “Na relação conjunta entre ‘vivência, expressão e compreensão’, três pilares de sustentação do mundo histórico, a vida se objetiva e pode assim ser compreendida.”

Wilhelm Dilthey: vida histórica concreta é muito mais rica e abrangente do que o mero pensar

Os textos publicados nessa parte são, por exemplo, “Contribuições para a solução da questão da origem de nossa crença na realidade do mundo exterior e da razão de ser dessa crença”, “A formação do mundo histórico nas ciências do espírito” e “A compreensão de outras pessoas e de suas manifestações de vida”.
A segunda parte do livro apresenta exemplos da aplicação do programa diltheyano em diferentes campos da cultura. Um dos textos publicados nessa seção é “Goethe e a fantasia poética”, um ensaio em que o escritor alemão é visto como “expressão máxima da eterna identidade entre vida e ideal, vivência e humanidade”. Com isso, destaca Nazaré, Dilthey estabelece a ligação entre caracterização biográfica e teoria estética. Acrescenta a professora: “Todo esforço teórico de fundamentação das ciências do espírito tem para Dilthey uma motivação e fim práticos: extrair princípios e regras para orientação da conduta de seres individuais, assim como da sociedade como um todo”. Daí a ideia de que a filosofia deve resultar sempre numa pedagogia.

“A inteligência não se desenvolve isoladamente”

A seguir, um trecho do artigo “Pensamento fundamental de minha filosofia”, de Wilhelm Dilthey, publicado em Filosofia e Educação:
As proposições com as quais pretendo dar à filosofia da experiência o fundamento completo de que necessita são estas:
1.    A inteligência não se desenvolve isoladamente no indivíduo e não é compreensível a partir deste, trata-se antes de um processo inserido no desenvolvimento do gênero humano, e esse mesmo gênero humano é o sujeito no qual se encontra a vontade de conhecer.
2.    Apesar disso, a inteligência existe como realidade nos atos da vida dos seres humanos. Todos esses atos têm também os aspectos da vontade e dos sentimentos; como realidade a inteligência existe, portanto, apenas nessa totalidade da natureza humana.
3.    A proposição correlata a essa é: o pensamento abstrato, a cognição e o conhecimento formam-se apenas pelo processo histórico da abstração.
4.    A inteligência plena e real tem dentro de si também a religião ou metafísica ou o incondicionado como aspecto de sua realidade; sem estes ela nunca é real e nunca é efetiva.
Assim entendida, a filosofia é a ciência do real.
Toda ciência particular positiva lida com um conteúdo parcial dessa realidade. O objeto da jurisprudência, da ética, da economia não é o próprio agir humano de pontos de vista diferentes? Cada uma dessas teorias está trabalhando com uma parte, com determinado aspecto, relação do agir do homem e da sociedade.
É aí que se revela a importância renovadora da filosofia da realidade em relação às ciências positivas. Desenvolvendo as relações recíprocas dos fatos abstratos na realidade inteira, ela oferece as bases sobre as quais essas ciências, livres do isolamento da abstração, devem desenvolver-se.