Home » Comunidade

Um trabalho pioneiro, duas décadas depois

Publicado por admin - Sunday, 3 July 2011

GRADUAÇÃO

Modelo de ensino superior visionário e multidisciplinar, Curso de Ciências Moleculares comemora 20 anos com altos índices de produtividade

SYLVIA MIGUEL

Um curso idealizado para ser paradigmático, modelar, inspirador de outras propostas que também enfrentassem o desafio de criar conhecimento para as reais necessidades do futuro. As ambições não eram pequenas quando uma comissão foi encarregada de criar uma nova proposta de ensino na Universidade. O trabalho pioneiro era dificultado pelas estruturas rígidas de cursos na USP. Há 20 anos, em meio a cursos disciplinares tradicionais nascia o então experimental Curso de Ciências Moleculares, ligado à Pró-Reitoria de Graduação. A experiência, hoje transformada em alta produtividade acadêmica, comemorou suas duas décadas de vida em cerimônia realizada no dia 29 de junho no Auditório Camargo Guarnieri.
“Leiam as ementas de todos os cursos da Universidade e criem algo totalmente diferente, capaz de abarcar todas elas”, foi o desafio lançado pelo então reitor Roberto Leal Lobo e Silva Filho para sua equipe. O resultado foi um currículo multidisciplinar com duração de quatro anos, em que o aluno convive nos dois anos iniciais com conceitos e práticas fundamentais de matemática, química, biologia, física e computação. Nos dois anos seguintes, dedicados ao Ciclo Avançado, o aluno mergulha num projeto de iniciação científica e escolhe com seu orientador os créditos restantes, o que pode ser feito em qualquer unidade da USP, inclusive em nível de pós-graduação.
“O aluno compõe seu currículo de forma totalmente personalizada, visando a atender seus objetivos de pesquisa. Ele tem a liberdade inclusive de escolher atividades e orientadores de fora da USP, se isso for uma necessidade para seu projeto”, afirma a professora Lucile Maria Floeter-Winter, professora do Curso de Ciências Moleculares e do Instituto de Biociências da USP.
O “molecular” que nomeia o curso não significa que os trabalhos são necessariamente estudos voltados às moléculas. “O termo foi usado com a intenção de unificar conhecimentos. Essa é a ideia”, diz o ex-reitor.
Durante a cerimônia no Camargo Guarnieri, o físico Henrique Fleming, docente do Instituto de Física da USP e do Curso de Ciências Moleculares, foi chamado pelos colegas como o “símbolo” do curso. “Professor e pesquisador de excelente qualidade, ele é curioso e capaz de, ao mesmo tempo, conduzir e ser conduzido”, disse o professor Lobo.
“Talvez esse tenha sido o maior projeto de minha vida. Todas as minhas prioridades se redirecionaram e vi os resultados do trabalho através dessas pessoas que tiveram seus caminhos ‘facilitados’ pelo Curso de Ciências Moleculares”, declarou emocionado o professor Fleming.
Durante palestra de abertura do evento, a pró-reitora de Graduação, professora Telma Tenório Zorn, sinalizou o apoio a propostas do gênero. “Sinto muito que este modelo não tenha sido ampliado em toda a Universidade, mas acredito que ainda posso fazer algo nesta gestão. É necessário continuarmos a fazer propostas nessa direção”, disse.
Por outro lado, a pró-reitora comemorou o fato de que 20% dos alunos do Curso de Ciências Moleculares são egressos de escolas públicas. “É um índice semelhante aos dos outros cursos da USP”, disse a professora Telma.

O evento de comemoração dos 20 anos do curso: pioneirismo

O evento contou com exposições de pôsteres de trabalhos de alunos e palestras de ex-alunos do curso. Além da participação da pró-reitora Telma, do ex-reitor Lobo, do professor Fleming e da professora Lucile, participaram da mesa-redonda os professores Carlos Alberto Barbosa Dantas e Hernan Chaimovich Guralnik. No encerramento, o professor José Nelson Onuchic, do Center for Theoretical Biological Physics, na Califórnia, Estados Unidos, ministrou a conferência “Molecular machines of life: from proteins to large biomolecular machines”.

Resultados – Para a professora Lucile, os saldos alcançados até o momento demonstram que uma formação crítica e inclusiva resulta em profissionais destacados, quaisquer que sejam suas áreas de atuação.
Os indicadores não deixam a desejar. “Aproximadamente 90% dos formados seguem para cursos de pós-graduação e inserção na vida acadêmica. Cerca de 40% dos formados já têm doutorado completo; muitos deles se tornaram docentes de instituições de ensino e pesquisa, alguns fora do País. Utilizado o índice publicações, um dos mais significativos na produção acadêmica, chegou-se ao impressionante número de cerca de 450 publicações indexadas, o que gera um índice de 2,5 publicações por formado”, afirma a professora Lucile.
Os graduados pelo CCM que optaram por não seguir a área acadêmica se tornaram profissionais destacados em setores os mais distintos, como comunicação, gerenciamento de mercado e novos negócios como biotecnologia, afirma Lucile.
O professor Lobo comparou o estudante do Curso de Ciências Moleculares a um atleta olímpico. “Não sou obrigado a ser olímpico, mas, se esta é minha escolha, tenho que me dedicar. Ninguém se torna um César Cielo se não treinar dez horas por dia. O curso é voluntário porque é exigente, é para quem quer correr o risco de experimentar o desafio de estar na fronteira do conhecimento”, disse Lobo.
“É um curso muito puxado, em que o aluno talvez tenha que estudar muito mais intensamente, comparado com outras áreas da USP. Mas proporciona o contato com uma quantidade e qualidade muito interessantes de informações. O curso gera um ambiente muito estimulante à descoberta e foi decisivo para criar em mim o amor à pesquisa e ao conhecimento”, afirma o matemático Fábio Tal, bacharel pela 5ª turma do Curso de Ciências Moleculares e atualmente professor do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP.
Também formada pelo Curso de Ciências Moleculares, a professora Tie Koide, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, atesta: “De fato, é um curso intenso, mas isso já é um treinamento para a carreira científica”.
Para a professora, o currículo diferenciado do curso permitiu explorar a pesquisa sob uma perspectiva ampla. “A multidisciplinaridade como pilar do curso me permitiu pesquisar problemas biológicos que requerem a utilização intensiva de metodologias matemáticas e computacionais. A flexibilidade curricular e o ambiente acadêmico do curso permitem uma grande liberdade para a criatividade e anseios individuais”, afirma Tie.
A entrada no curso se dá por transferência de alunos já ingressados por vestibular em outras unidades da Universidade, após a aplicação de processo seletivo nos interessados. Há 25 vagas disponíveis para cada turma.
Segundo o presidente da comissão coordenadora do Curso de Ciências Moleculares, professor Saulo Barros, a prova para a seleção da 21ª turma estava marcada para o dia 3 de julho. O curso é divulgado em seus eventos anuais realizados com esse objetivo, e também através de cartas enviadas aos vestibulandos da Fuvest, segundo o professor Barros.
O formado no curso é bacharel em Ciências Moleculares. O aluno pode retornar à sua unidade de origem, se for de seu interesse, e lá completar o outro curso, ganhando então o diploma correspondente, afirma o professor.
Na seleção, buscam-se alunos motivados, com a curiosidade típica do pesquisador que passa toda a sua vida fazendo questionamentos sobre fatos da natureza. Ao optar pela transferência, o aluno escolhe o curso e assume o compromisso da dedicação. “Basicamente, essa é a maior característica dos alunos, são interessados e dedicados, com ímpeto para trabalhar em tempo integral”, afirma a professora Lucile. Mais informações sobre o Curso de Ciências Moleculares podem ser conferidas no site www.cecm.usp.br.