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Diversidade e integração na Universidade

Publicado por admin - Sunday, 31 July 2011

ENSAIO

No texto a seguir, os diretores dos seis institutos especializados da USP analisam a importância e os desafios dessas unidades para a academia e a sociedade

ANTONIO VARGAS DE OLIVEIRA FIGUEIRA, CÉSAR ADES, CLAUDIO SERGIO PANNUTI, ILDO LUÍS SAUER, JOSÉ ROBERTO MACHADO CUNHA DA SILVA E MARIA ÂNGELA FAGGIN PEREIRA LEITE

A variedade de temas e procedimentos acadêmicos numa universidade do porte da USP se espraia em grande número de formatos e arranjos institucionais. A par de sua presença no trabalho realizado nas unidades de ensino e pesquisa, museus e núcleos de apoio, ela se apresenta também nos seis institutos especializados, definidos em 1988 pelo Estatuto da Universidade como “órgãos de integração, voltados para estudos intersetoriais”.
Depois de mais de 20 anos do estabelecimento dessa definição, ela continua válida, mas a denominação como “especializados”, uma forma encontrada pelos redatores do Estatuto para diferenciar esses institutos das unidades de ensino e pesquisa, não é a mais apropriada. Os seis institutos caracterizam-se pela multidisciplinaridade e variedade de propósitos, organização e atividades, que vão da pesquisa teórica e experimental ao ensino e à extensão, inclusive parcerias com a iniciativa privada. Essa variedade originou-se nas motivações para a criação de cada um deles e no seu desenvolvimento histórico.

Reconhecimento – A história, as atividades atuais e aquelas projetadas do Centro de Biologia Marinha (Cebimar), do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena), do Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE), do Instituto de Estudos Avançados (IEA), do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) e do Instituto de Medicina Tropical (IMT) justificam plenamente uma nova denominação e o reconhecimento pleno de seu papel na Universidade.
O mais antigo é o IEE, criado em 1921 na Escola Politécnica como Gabinete de Eletrotécnica. Em 1941 foi transformado em Instituto de Eletrotécnica e em 1989 tornou-se o atual IEE, com a criação do Programa de Pós-Graduação Interunidades em Energia (PPGE), em parceria com a Escola Politécnica, o Instituto de Física e a Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA).
Nas suas origens, o IEE tinha como principal atividade a prestação de serviços à indústria elétrica na avaliação do desempenho de equipamentos. O instituto continua a prestar serviços à indústria, realizando: ensaios; calibração de instrumentos elétricos; emissão de certificados, pareceres e laudos técnicos; e elaboração e implantação de projetos. Em 2010, o IEE incorporou o Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais (Procam). Outras atividades são o oferecimento de disciplinas eletivas para a graduação e a realização de cursos de especialização, aperfeiçoamento, atualização e difusão.
As metas do instituto são: integrar mais seus dois programas de pós-graduação; desenvolver projetos com unidades afins da USP; expandir a atuação em pesquisas ligadas a energia e eletricidade, como em formas mais eficientes de produção e uso de energia; intensificar as atividades ligadas a cursos de graduação, principalmente através de novas disciplinas e projetos que envolvam a participação de alunos; ampliação das atividades de extensão à sociedade através de cursos, projetos e prestação de serviços com novos laboratórios.
Outro instituto que surgiu vinculado a uma unidade de ensino e pesquisa é o IMT, criado em 1959 como instituição interdepartamental da Faculdade de Medicina. Com a extinção da figura do instituto interdepartamental em 1988, o IMT permaneceu vinculado à diretoria da Faculdade de Medicina durante um período de transição de dois anos, tornando-se um instituto especializado em dezembro de 1990.
A vocação do IMT é a pesquisa em doenças tropicais relevantes para a saúde pública no Brasil, incluindo diversas viroses, parasitoses, micoses e outras doenças infectocontagiosas. Sua atuação envolve diversos aspectos da ciência médica, tais como epidemiologia, patogenia, diagnóstico, tratamento e até prevenção. Parte considerável da pesquisa consiste no desenvolvimento de novas ferramentas diagnósticas, um dos instrumentos fundamentais para o controle das doenças tropicais. Seus trabalhos de padronização e incorporação de novos métodos são amplamente reconhecidos. Recentemente, o IMT passou a contribuir também na identificação e geração de novos marcadores e antígenos para utilização em metodologias avançadas com aplicação tanto no atendimento direto ao paciente quanto em nível populacional.
Até 1993, o IMT ministrava um Curso de Especialização em Medicina Tropical, responsável pela formação de centenas de especialistas do Brasil e de outros países latino-americanos. Atualmente, o instituto oferece cursos isolados e, desde 2008, um Programa de Pós-Graduação em Medicina Tropical e Saúde Internacional nos níveis de mestrado e doutorado.

Iniciativa de docentes – Dois institutos surgiram a partir de iniciativas de docentes de unidades de ensino e pesquisa da USP: o Cena, por ação de professores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), e o Cebimar, em empreendimento de professores do Instituto de Biociências (IB).
Fundado em 1966, o Cena funcionou inicialmente a partir de convênios com a Comissão Nacional de Energia Nuclear e apoio da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), até sua incorporação definitiva na estrutura da USP, em 1977. Pelas suas características (dimensão, estrutura, organograma, missão, regimento), o Cena assemelha-se a uma unidade plena de ensino e pesquisa.

Diretores dos institutos especializados reunidos no IEA, em março, para discutir o papel de suas unidades na Universidade: toda a comunidade USP é convidada a participar das atividades desenvolvidas por esses centros de estudos multidisciplinares

Durante sua trajetória, a utilização de técnicas nucleares foi suplantada em várias áreas de aplicação por abordagens complementares e/ou relacionadas que oferecem menos riscos, tais como o emprego de isótopos estáveis ou marcadores fluorescentes como traçadores biológicos, fontes de elétrons em substituição às fontes radioativas, desenvolvimento de técnicas espectroanalíticas com sensibilidade superior, dentre outras. Foi ampliado o foco na resolução de problemas ambientais e dada maior ênfase em biotecnologia, genômica, geoprocessamento, biorremediação e outras áreas.
As atividades de pós-graduação começaram em 1972, dentro de programa da Esalq. Em 1990, o Cena passou a responder pelo curso de pós-graduação na área de concentração Energia Nuclear na Agricultura. Em 2004, a área foi dividida em três: Energia Nuclear na Agricultura e no Ambiente, Biologia na Agricultura e no Ambiente e Química na Agricultura e no Ambiente. Desde 2001, o centro participa do Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ecologia Aplicada, em parceria com a Esalq. O centro oferece também disciplinas essenciais e eletivas para os cursos de graduação da Esalq.
O Cebimar é a mais antiga das poucas instituições brasileiras voltadas exclusivamente para o estudo da biologia marinha. Além dos projetos de pesquisa liderados por seus docentes e que tratam basicamente da biodiversidade de organismos marinhos, atualmente o centro desenvolve cerca de 60 projetos em zoologia, botânica, fisiologia, taxonomia, biologia celular e comparada, ecologia e outras áreas.
Com instalações à beira-mar, em São Sebastião (SP), o centro conta com laboratórios e equipamentos especializados, atraindo pesquisadores, professores e alunos de várias unidades da USP e de outras universidades brasileiras e estrangeiras. Seus docentes ministram disciplinas de pós-graduação e disciplinas eletivas de graduação para os cursos de Ciências Biológicas e Oceanografia, além de cursos de extensão.
A origem do centro é o Laboratório de Biologia Marinha, gerido por uma fundação criada por Paulo Sawaya e outros professores do IB em meados dos anos 50, sendo incorporado pela USP em 1962 como Instituto de Biologia Marinha (Ibmar). Com a reforma universitária da década de 70, o Ibmar deixou de ser um instituto, tornando-se um centro interunidades vinculado ao IB e ao Instituto Oceanográfico, transformado em instituto especializado no início da década de 80.
Com a ampliação e recuperação de sua infraestrutura, capacitação de seu corpo docente e captação de recursos externos, o Cebimar passou gradualmente a se concentrar em atividades próprias, mas sem descartar o apoio a outras instituições e pesquisadores.

Crítica da sociedade – Criado em 1962 pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, o IEB tem como premissa promover a reflexão crítica sobre a sociedade brasileira por meio da articulação de diferentes áreas das humanidades, como literatura, artes, música, história, geografia, economia, direito, arquitetura, antropologia e sociologia.
A biblioteca é considerada uma das mais ricas em assuntos brasileiros, com cerca de 180 mil volumes, entre livros, periódicos, teses, separatas e partituras. A Coleção de Artes Visuais iniciou-se em 1968, com a compra da coleção de Mário de Andrade, que inclui artes plásticas, religião, magia, música e dança, cotidiano e objetos relacionados com a Revolução de 1932. O arquivo também surgiu em 1968 e contém cerca de 450 mil documentos de renomados escritores, historiadores, pintores e músicos brasileiros, além de arquivos temáticos especiais. Os acervos estão disponíveis para pesquisa tanto por meio de consulta presencial quanto por acesso on-line.
Com mudança prevista para 2012 para o edifício que abrigará também a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, o IEB tem como projeto para os próximos anos a ampliação das atividades de pesquisa, cultura e extensão (cursos e exposições de curta e longa duração), dos trabalhos de seu Laboratório de Conservação e Restauro e seu Setor de Digitalização, bem como a criação do curso de doutorado no seu Programa de Pós-Graduação em Culturas e Identidades Brasileiras (iniciado em 2008 com o curso de mestrado) e a ampliação do número de disciplinas eletivas para a graduação.
O IEA é o mais jovem dos seis institutos especializados, mas já completará 25 anos neste ano. A ideia de sua criação surgiu na Associação dos Docentes da USP (Adusp) no final dos anos 70. O instituto foi projetado como um fórum de integração, propício a pesquisas interdisciplinares nas ciências naturais e humanidades, de interação entre a USP e a sociedade e de reflexão sobre políticas públicas essenciais ao desenvolvimento socioeconômico do País.
Suas características são sui generis: não ministra cursos de graduação nem de pós-graduação, não conta com corpo permanente de pesquisadores e não possui laboratórios. Esse perfil é considerado até hoje como o mais apropriado à função primordial do instituto: o debate de ideias em todas as áreas do saber, com constante renovação de temáticas e abertura à participação de acadêmicos e não acadêmicos do Brasil e do exterior.
O IEA abriga grupos de pesquisa e pesquisadores visitantes, que atuam na sede em São Paulo e nos polos de Ribeirão Preto e São Carlos. Os eventos acadêmicos abertos ao público (inclusive com transmissão ao vivo pela internet) são um dos destaques da atuação do instituto. Outra atividade de grande relevância é a produção da revista Estudos Avançados, publicação quadrimestral de debate científico e cultural publicada desde 1987 e já em sua edição nº 71.
As metas principais do instituto, no momento, são a busca de mecanismos para a contratação de pesquisadores visitantes brasileiros e estrangeiros e a construção de sua sede própria.

Universo – Um aspecto a destacar é que, embora não ministrem cursos completos de graduação, a existência desses seis institutos em muito enriquece a formação dos graduandos. Isso acontece graças às disciplinas eletivas oferecidas por alguns deles, à possibilidade de participação (via projetos de iniciação científica) em grupos de pesquisa, aos cursos de extensão e até mesmo à atuação de tantos docentes em pesquisas neles desenvolvidas, o que sem dúvida contribui para a constante atualização desses professores.
Uma das funções mais importantes desses institutos é ampliar a integração entre os órgãos e as pessoas da Universidade. Com isso, multiplicam-se os fóruns para discussões multi e interdisciplinares e as condições facilitadoras para o desenvolvimento de ideias e pesquisas inovadoras. Nem sempre presente em outras universidades, esse ambiente de efervescência do pensamento é, sem dúvida, um dos componentes essenciais do relevo acadêmico e institucional da USP.
As realizações desses institutos e sua inserção nas diretrizes que definem a missão da Universidade nos estimulam a reforçar o convite à participação de toda a comunidade uspiana nas inúmeras atividades neles desenvolvidas. A riqueza da Universidade é sua diversidade de temas, ideias e caminhos em busca do conhecimento, um universo onde o centro está em toda parte.

Antonio Vargas de Oliveira Figueira é diretor do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP
César Ades é diretor do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP
Claudio Sergio Pannuti é diretor do Instituto de Medicina Tropical (IMT) da USP
Ildo Luís Sauer é diretor do Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE) da USP
José Roberto Machado Cunha da Silva é diretor do Centro de Biologia Marinha (Cebimar) da USP
Maria Ângela Faggin Pereira Leite é diretora do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP