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As utopias de Edgar Morin

Publicado por admin - Sunday, 14 August 2011

IDEIAS

Em palestra na Sala São Paulo, o pensador francês afirma que é preciso construir um novo caminho para a humanidade, que inclua a integração dos saberes e o equilíbrio entre unidade e diversidade

PAULO HEBMÜLLER

Para construir um novo caminho para a humanidade e evitar a catástrofe e a barbárie, é preciso, entre outras coisas, reintegrar saberes que foram separados e ter consciência das ambivalências presentes em todas as dimensões da vida. Fazendo a defesa do “bem-viver” em contraposição ao “bem-estar”, o sociólogo, historiador e filósofo – ou “humanista planetário”, como se define – Edgar Morin plantou suas sementes de utopia para a plateia que lotou a Sala São Paulo em mais uma conferência do ciclo Fronteiras do Pensamento, na noite do dia 9.
Morin abriu sua fala com a crítica ao fato de que uma agência privada “rebaixar” de três para dois “A” a classificação dos Estados Unidos seja capaz de desencadear uma tempestade mundial nas bolsas de valores. “A especulação financeira dominou os Estados, as nações e os povos”, dispara. “O século 21, que não conheceu o totalitarismo do século 20, viu o desenvolvimento de um novo polvo: o da especulação financeira, de um capitalismo mais forte que tudo.” Para o pensador, a impotência dos governos dos países desenvolvidos em relação a esse quadro é total. É preciso, portanto, implantar políticas capazes de dar respostas a ele.

Morin citou o filósofo espanhol Ortega y Gasset (“não sabemos o que acontece, e é isso que está acontecendo”) para registrar que 95% dos economistas não haviam previsto a crise global de 2008 nem a sua evolução. É mais um sintoma da separação dos saberes: “Separamos a ciência econômica, a psicologia, as ciências da religião, a sociologia, mas esses conjuntos estão ligados. O modo de conhecimento que nos ensinaram torna-nos incapazes de compreender os problemas nacionais e globais. Nossa inteligência está cega”, diz.
Essa situação faz com que exista hoje uma incapacidade de enxergar as relações entre a economia e suas complexas repercussões na sociedade. “O cálculo não pode entender o sofrimento, o amor, a felicidade, as coisas mais importantes de nossa vida”, afirma Morin. Os números que estão no PIB e nas pesquisas, continua, não podem saber tudo e constituem um saber limitado e cego.
Além da supremacia da especulação e dos números, há um outro “polvo” perigoso, diz o filósofo: o do maniqueísmo e do fanatismo, que se manifesta em visões fechadas, capazes de levar a conflitos étnicos, religiosos ou nacionalistas. “Tudo isso é antigo, mas foi retomado com vigor e poder extraordinário em nossa época”, lamenta. “Tivemos agora na Noruega um exemplo extremo, mas simbólico de alguma coisa nova.”

União e divisão – Um dos paradoxos – ou ambivalências – de nosso tempo é que o mundo está ao mesmo tempo cada vez mais unificado e cada vez mais dividido. Na esteira da queda da União Soviética e “dos países pretensamente socialistas”, na virada das décadas de 1980 e 90, houve a unificação técnica e econômica do globo. Paralelamente, surgiram formas de ruptura, com fechamento e isolamento de países ou povos. Entre os exemplos estão as guerras na antiga Iugoslávia, a divisão da Tchecoslováquia e os massacres étnicos no Iraque, cita o pensador.
Muitas comunidades incorporaram os aspectos técnicos da globalização, mas se fecharam no plano político e psicológico. “A unificação tende a destruir culturas singulares e ligadas a conceitos históricos específicos”, considera. Junto à globalização, o fim do século 20 trouxe o desmonte da crença de que o progresso era uma lei histórica e que a humanidade só poderia evoluir para o melhor – crença que vigorava de diferentes formas no Ocidente, nos países socialistas ou no mundo árabe. “Em todos esses lugares houve o desabamento da esperança e o crescimento do medo e da angústia. Em momentos de crise e medo do futuro, tendemos a nos refugiar no passado e nos fechar sobre nossa identidade”, descreve Morin.
Para construir um novo cenário, defende, é preciso procurar a unidade humana em sua diversidade. “A unificação não pode ser só técnica e econômica, mas sim de cultura, de pátria e de nações. Há uma unidade humana genética, fisiológica, cerebral. Todos os seres humanos riem, choram, sofrem, amam. Mas essa unidade se manifesta em diversidade extraordinária, porque cada indivíduo é diferente do outro. Precisamos de diversidade, mas ela precisa de unidade.” A mudança inclui uma política que não divinize a si mesmo e nem veja no outro o inimigo.
A crise econômica, aponta Morin, “é apenas um aspecto virulento de uma crise múltipla que a globalização desencadeou”. No mesmo pacote estão o aumento das diferenças e a redução da solidariedade em prol do individualismo e do egoísmo. As ameaças em nossos dias vão desde o poder cada vez maior das armas de destruição em massa até a possibilidade de degradação total da biosfera. Para o filósofo, as crises nunca são apenas econômicas. A Grande Depressão de 1929 começou com o crash da Bolsa de Nova York, mas seus efeitos fizeram com que o Partido Nazista chegasse ao poder pelas vias legais na Alemanha em 1933, além de deflagrar a Guerra Civil na Espanha, em 1936, integrando todo um contexto que levou à Segunda Guerra Mundial três anos depois. “Da economia, chegou-se a uma crise generalizada para toda a humanidade”, diz. “Todos os problemas estão interligados. Nos nossos dias, a proliferação de armas de destruição em massa no contexto dos tribalismos é grave.”

A Sala São Paulo durante a palestra de Morin: reintegração de saberes

Metamorfose – Para não se dizer que Morin não falou em flores, o humanista planetário considera que um dos lados positivos da globalização é permitir que toda a humanidade compreenda que a Terra é uma só pátria. “A globalização origina o melhor e o pior das coisas”, define. Como? Em muitas comunidades, explica, ela libertou as novas gerações do patriarcalismo, criou novas classes médias e gerou aumento do consumo, além de propiciar a incorporação de novas noções de direitos humanos. Ao mesmo tempo em que trouxe progresso, porém, a globalização levou à transformação da pobreza em miséria. O pequeno agricultor, ainda que tire da terra apenas o mínimo para seu sustento básico, consegue manter sua autonomia. Porém, se é expulso do campo, engrossa os cinturões de miséria presentes em praticamente todas as grandes cidades do mundo. “É preciso ter consciência da ambivalência”, repete Morin.
Mudar de caminho é necessário porque “a nave Terra está cada vez mais sendo levada sem que haja piloto ou ponto de controle da pilotagem”, diz. A nova via – que, Morin adverte, não está pronta e não se sabe ao certo como será – exigirá novas formas de política e de pensamento, mas deve incorporar elementos trazidos à tona pela globalização. “De um lado é preciso desglobalizar e salvaguardar as culturas regionais, e de outro globalizar o que colabora com a cultura planetária.” O Ocidente, exemplifica, precisa reencontrar a solidariedade das sociedades tradicionais e suas relações com a natureza, além de valorizar o que chamou de “pensamento do Sul”, que pode revitalizar o ressecado humanismo europeu.
Também se deve rever o conceito de desenvolvimento, que impõe uma fórmula padronizada a países e povos distintos. Ao mesmo tempo, é preciso envolver, ou seja, proteger o que nos situa numa comunidade específica. Novamente, Morin chama a atenção para a necessidade de considerar as ambivalências: precisaremos do individualismo e do comunitarismo; de condenação e de combinação; de desenvolvimento e redução.
Nas crises, os sistemas que mantêm o equilíbrio são bloqueados e os desvios se desenvolvem – porém, existe a capacidade da metamorfose, como ocorre com a lagarta que se encerra como crisálida e ressurge como borboleta. Um inseto que começa rastejando termina voando, mas para isso a lagarta precisa se autodestruir e dar origem à borboleta, aponta Morin. Essa possibilidade não se restringe aos insetos: cada ser humano nasceu de uma metamorfose, porque transformou-se de óvulo em embrião e passou nove meses em meio líquido “até chegar gritando ao mundo em que temos que respirar sozinhos”, compara.
Muitas vezes houve grandes mudanças que começaram com indivíduos. No campo religioso, os exemplos estão em Buda, Jesus Cristo e Maomé. O próprio capitalismo nasce dos parasitas da sociedade feudal, até que a burguesia se desenvolve e ganha poder. Os teóricos socialistas também eram ignorados quando escreveram, mas no final do século 19 suas ideias ganharam relevância e surgiram os partidos e revoluções socialistas e o que se seguiu a elas, “para o melhor e o pior”. Também para o melhor e o pior as sociedades se transformaram ao longo da história, criando classes sociais, cidades, governos etc. “A história é feita de momentos sublimes, por exemplo, na arte, e horríveis, como nas guerras e na barbárie”, lembra Morin.

Dimensão poética – Para traçar o novo caminho, que será feito no próprio caminhar, como diz o poeta espanhol Antonio Machado, citado pelo conferencista, será necessário reformular a educação, reintegrando os saberes hoje fragmentados, e levar em conta não só o aspecto quantitativo. “O quantitativo abafa o qualitativo. O viver é a qualidade poética da vida”, considera o pensador. “A vida é prosa e poesia. A prosa é a parte das obrigações, o que nos aborrece e que temos que fazer para nosso sustento. Na poesia estão a alegria, o amor, a liberdade.” Nessa perspectiva, Morin sugere que o conceito de bem-estar deve ser trocado pelo de bem-viver. “O bem-estar foi reduzido só ao conforto e aos recursos materiais e técnicos. O bem-viver inclui as outras dimensões que constituem o tecido da nossa vida”, diz.
Fácil não será, adverte, porque as relações humanas são complexas, assim como viver em proximidade e comunidade – a incompreensão reside em nós mesmos, na família, no trabalho, na universidade. “Tendemos a projetar no outro nossos defeitos, carências e culpas, e ao mesmo tempo nos inocentar”, ressalta. Porém, já há sinais dispersos de mudanças. Morin os enxerga nas medidas que muitas cidades europeias estão tomando para melhorar a alimentação, restringindo o comércio de produtos industrializados e com alto uso de agrotóxicos, e valorizando a produção local e orgânica. Em outras localidades, inclusive no Brasil, orquestras formadas nas periferias permitem que jovens reinventem sua vida com a arte. Essas pequenas experiências podem ser comparadas, em sua visão, à junção de pequenos rios que conformam um colosso como o Amazonas.
Morin diz que, ao longo de toda a sua vida, apostou no improvável – lutou, por exemplo, no movimento de resistência à ocupação nazista da França, num momento em que o avanço alemão era avassalador e a vitória das tropas de Hitler na Segunda Guerra parecia inevitável. “No improvável há a esperança. Não é certeza, mas a esperança pode ressuscitar nas novas gerações e mostrar que um novo caminho é possível”, diz. Ao responder a uma pergunta da plateia sobre o que espera da vida agora que chega aos 90 anos, esse parisiense, enfático, respondeu com firmeza e um sorriso no rosto: “Nunca tive planos. O que sou, continuo sendo. Vou continuar em minhas buscas com curiosidade, conhecimento e amor”.

Laços humanos são bênção e maldição, diz Bauman

Impossibilitado de comparecer ao Fronteiras do Pensamento por conta de uma doença na família, o polonês Zygmunt Bauman, autor de dezenas de obras em que aprofunda seu conceito de “modernidade líquida”, falou no evento por meio de uma entrevista gravada no final de julho em sua casa, em Londres, e apresentada antes da conferência de Morin.
Na entrevista, Bauman salientou que “uma das características de nosso tempo é a fragmentação da vida”. Se há algumas décadas muitos se impressionavam com a defesa de Sartre por um “projeto para a vida”, construído consistentemente e passo a passo, as gerações atuais têm grande dificuldade para pensar dessa forma: não se sabe o que vai acontecer no ano que vem, e muito menos é possível planejar a vida a longo prazo.
A fragmentação se expressa também na forma como as relações humanas se dão. Bauman referiu o caso de um jovem que lhe contou que tinha feito “500 amigos” no Facebook em poucos dias. “Eu tenho 86 anos e não tenho 500 amigos”, respondeu.

O pensador polonês Bauman: "Uma das características do nosso tempo é a fragmentação da vida"

“Está claro que a palavra significa coisas diferentes para diferentes gerações.”
Os laços humanos anteriormente se davam em comunidade, e a comunidade, com seus costumes, crenças e contextos, preexiste ao indivíduo. Hoje, esses laços se dão em rede. “A rede é mantida viva por duas atividades: conectar e desconectar. O atrativo da ‘amizade Facebook’ é que é fácil conectar, mas a grande atração é a facilidade de desconectar”, compara. Na relação frente a frente e olho no olho, quebrar as relações é traumático, porque é preciso ter razões ou inventar desculpas, mentir etc. Na internet a ruptura é fácil.
Os laços humanos são uma benção e uma maldição ao mesmo tempo, diz. Benção por ter confiança numa pessoa e se sentir capaz de fazer algo por ela, o que não existe na “amizade Facebook”. Bauman lamenta que muitos jovens não sabem a riqueza que perderam, porque não viveram esse tipo de amizade. A maldição vem porque, quando se cria um laço, faz-se uma espécie de juramento de estar sempre ao lado do outro. “Você empenha seu futuro”, diz. Hoje, porém, “vivemos como pessoas solitárias numa multidão de solitários”.
Das transformações correntes, não se sabe ainda o que será duradouro e o que é característico de uma fase de transição. Bauman aponta, porém, duas características que lhe parecem irreversíveis: a primeira é que a humanidade multiplicou suas conexões e interdependências. “Estamos numa posição em que todos dependem de todos. Estamos todos no mesmo barco. Pela primeira vez na história o globo é de fato um só mundo”, diz. A segunda é que acabou a ilusão de que os seres humanos podem submeter a natureza ao seu controle por meio da ciência e da tecnologia. “Chegamos muito próximo dos limites do que hoje sabemos ser a sustentabilidade do planeta.”
Para Bauman, a democracia está em risco, porque há muitas dúvidas sobre ela em muitos lugares do mundo. “O Estado-nação já não dá conta de atender às promessas que fez aos cidadãos há algumas décadas. Sozinho, o Estado-nação não pode defender o futuro da democracia. Em algum momento talvez tenhamos que inventar uma democracia global”, considera.
Permanecem dois valores essenciais para o estabelecimento de uma vida relativamente feliz: segurança e liberdade. “Segurança sem liberdade é escravidão. Liberdade sem segurança é o caos”, define. “O problema é que ninguém na história encontrou a fórmula dourada, a mistura perfeita entre elas. Sempre que se consegue mais segurança, entrega-se uma parcela da liberdade, e o contrário também é válido.”
Bauman citou Freud, que no livro O mal-estar na civilização já apontava que a civilização sempre inclui troca: dá-se algo de valor para receber algo de valor. “Se na época do livro, final da década de 1920, antes do crash e da Grande Depressão, o preço era entregar muita liberdade em nome da segurança, hoje talvez Freud dissesse que entregamos demais nossa segurança em nome de mais liberdade”, considera o sociólogo.
Na atualidade, Bauman identifica os primeiros movimentos de que o pêndulo está indo novamente na direção de mais segurança e de que as pessoas querem mais estabilidade e mais ação do Estado. “Mas nunca será encontrada a solução perfeita entre essas duas dimensões, e nunca vamos parar de procurar por essa mina de ouro”, adverte.