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De volta à Academia de Atenas

Publicado por admin - Sunday, 25 September 2011

FILOSOFIA

Objetivo da universidade é o conhecimento da essência das coisas – e não meramente a formação de profissionais –, segundo o filósofo alemão Josef Pieper, tema de seminário promovido pela Faculdade de Educação

ROBERTO C. G. CASTRO

A tarefa essencial da universidade não é formar mão-de-obra especializada para o mercado de trabalho – o que pode ser feito pelas escolas de ensino técnico. Muito além disso, ela é uma instituição que, tal como foi concebida pelos fundadores do pensamento ocidental – entre eles, os filósofos gregos Platão e Aristóteles –, está voltada para a busca do conhecimento de todas as coisas humanas e divinas, o que se denomina “filosofia”. Ao cumprir esse objetivo “filosófico”, ela concretiza a máxima aspiração do espírito humano, que se realiza plenamente à medida que se abre para a totalidade do universo.
Esse é o conceito de universidade de um dos grandes filósofos do século 20, o alemão Josef Pieper (1904-1997). Ele foi exposto durante o 12º Seminário Internacional Filosofia e Educação – Universidade, promovido no dia 17 passado pelo Centro de Estudos Medievais Oriente e Ocidente (Cemoroc) da Faculdade de Educação da USP. O encontro, realizado nas Faculdades Integradas Campos Salles, na Lapa, em São Paulo, celebrou o 60º aniversário de lançamento do livro Was heisst Akademisch? (“O que é acadêmico?”), um dos textos em que Pieper discute a universidade. “Acadêmico quer dizer filosófico; formação acadêmica é formação filosófica; estudar uma ciência de maneira acadêmica quer dizer estudá-la de maneira filosófica”, escreve Pieper, lembrando que a legítima investigação universitária busca conhecer “o ser em si” do objeto de estudo – em qualquer área do conhecimento –, com toda a liberdade e sem preocupações com sua aplicação prática (leia o texto abaixo).

Paulo Ferreira da Cunha e Jean Lauand (no alto) e os participantes do seminário: universidade concretiza a máxima aspiração do ser humano

“As universidades modernas, como Paris, Bolonha e Oxford, surgiram na Idade Média inspiradas por esse mesmo ideal de Platão, de estudar filosoficamente as ciências”, destaca o medievalista Jean Lauand, docente aposentado da Faculdade de Educação da USP e professor da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), organizador do seminário. “Infelizmente, ao longo dos séculos as universidades foram se afastando desse modelo, mas ele permanece como o grande ideal de toda legítima escola de ensino superior.” Além do Cemoroc, as outras entidades promotoras do seminário foram as Faculdades Campos Salles e o Instituto Jurídico Interdisciplinar (IJI) da Universidade do Porto, em Portugal.

Espírito humano – Ao falar sobre “Universidade e filosofar em Josef Pieper”, Lauand lembrou que, para o filósofo alemão, a estrutura do filosofar é a mesma que a estrutura do espírito humano: ambas estão voltadas para o conhecimento da realidade última, da essência das coisas. E mais: a estrutura da educação universitária é a mesma que a do filosofar. “É analisando a origem e o fim do ato de filosofar e a instituição universidade, suas características e condicionantes, que poderemos atingir o ser do homem.”
Seguindo Pieper e os pensadores antigos e medievais, Lauand enfatizou que a filosofia nasce com o espanto diante do mistério das coisas, seja o universo, uma flor ou uma criança – espanto que provoca a pergunta “Por que as coisas existem, ao invés de o nada?”. Para o professor, a incapacidade do homem contemporâneo de se espantar com as coisas parece sugerir que o “mundo da prática, das preocupações do dia a dia” tornou o espírito desse homem “embotado” e “insensível”, afastando-o de sua legítima essência e aspiração. “Hoje as pessoas precisam do sensacionalismo, do estapafúrdio para se admirar, mas são incapazes de ver o que há de maravilhoso no cotidiano.”
Já o jurista e professor português Paulo Ferreira da Cunha, da Universidade do Porto, destacou o que se poderia dizer o inverso do conceito de Pieper sobre a universidade. Em sua palestra, ele apontou as “confusões” que fazem com que a universidade se transforme no reino da burocracia, ao invés de ser um espaço para a concretização das mais profundas aspirações do espírito humano. “Hoje o professor é apressado, não tem tempo para nada. Está sempre a fazer relatórios para os ‘comedores de papel’ da burocracia, num volume incrível de desperdício de trabalho”, apontou Cunha. “Nós temos que resistir a isso. Temos que lutar para sermos legítimos universitários, que estão em busca do conhecimento último.”
Interdisciplinar, o 12º Seminário Internacional Filosofia e Educação apresentou ainda palestras como “Universidade hoje”, do escritor Gabriel Perissé, “Josef Pieper e a educação oriental”, da antropóloga Chie Hirose, “Constantes do pensamento brasileiro”, do jornalista Luiz Costa Pereira Junior, e “Palavra e imagem na cultura árabe”, da professora Aida Ramezá Hanania, entre outras.

Ver os mistérios do ser

Leia a seguir trecho de O que é acadêmico?, do filósofo alemão Josef Pieper, que foi tema do Seminário Internacional Filosofia e Educação.

Josef Pieper (1904-1997): "Acadêmico quer dizer filosófico"

Em que, afinal, se distingue o estudo especializado, levado de maneira “filosófica”, de um estudo não caracterizado daquela maneira? A distinção está nesse modo “puramente teorético” de se aplicar ao objeto; o que distingue o estudo “acadêmico” de outros estudos é o olhar puro nas profundezas das coisas, lá onde elas não são mais coisas com estas ou aquelas determinações, úteis para este ou aquele fim, mas manifestações daquilo que há de mais admirável no mundo do pensamento: do ser.
Para tanto, é necessário sairmos da casa do mundo concreto que nos cerca e abandonarmos os preconceitos estabelecidos, para nos abrirmos ao céu aberto da realidade como um todo, onde se encontra o ser como ser; e o espírito se maravilhará ao se aprofundar mais e mais nos abismos insondáveis da realidade como um todo, nos mistérios do próprio ser, isto é, no mistério que consiste em que alguma coisa “é”. Então ele se esquecerá de todos os fins utilitários imediatos que lhe impõe sua vida concreta.
Tal é a atitude que caracteriza a estrutura interna, o comportamento e a atmosfera de um estudo especializado realizado à maneira “filosófica”. O que o distingue de outros estudos é, antes de tudo, a ausência de vínculos que o ligam a qualquer fim utilitário. Esta é a verdadeira liberdade acadêmica; essa liberdade é, ipso facto, destruída quando as ciências se tornam objeto de preocupação utilitária ou meios de alcançar qualquer espécie de poder.