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Do furacão à esperança equilibrista

Publicado por admin - Thursday, 2 February 2012

trajetória múltipla: a voz poderosa da cantora interpretou desde o baião até o rock

MEMÓRIA

Elis Regina, cuja morte completa trinta anos em janeiro, transitou por diversos gêneros e ajudou a consolidar a MPB, analisa historiadora em dissertação na FFLCH

BRUNO CAPELAS
Agência USP de Notícias

No dia 19 de janeiro, a morte de Elis Regina completou 30 anos, data marcada por lançamento de caixas com os álbuns da carreira da cantora. Em março, mês do aniversário de Elis, sua filha Maria Rita dá a largada numa série de shows com o repertório da mãe, e ao longo do ano haverá também exposições e lançamento ou reedição de livros sobre a cantora.
Na USP, uma pesquisa recente da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) investigou a carreira da intérprete durante as décadas de 1960 e 70. Na dissertação de mestrado “Em busca do ‘Falso Brilhante’ – Performance e projeto autoral na trajetória de Elis Regina (Brasil, 1965 – 1976)”, a historiadora Rafaela Lunardi mostra como a artista mudou de perfil ao longo de sua carreira, transformando-se em símbolo do discurso ideológico ao final dos anos 70. Além disso, de acordo com a pesquisadora, Elis contribuiu para o estabelecimento do gênero MPB, a Música Popular Brasileira. “Nos anos 60, ela foi uma espécie de porta-estandarte da música brasileira, e posteriormente uniu o samba, o baião, a bossa nova e a marcha ao pop, ao rock e ao soul, passando por todas as fases e dialogando com as diversas demandas do mercado de música no Brasil”, diz.
Orientada pelo professor Marcos Napolitano, Rafaela baseou-se em todos os discos de Elis (álbuns, compactos simples e duplos), materiais audiovisuais (DVDs e vídeos disponíveis na internet) e artigos de imprensa (jornais, revistas e web) para compor seu trabalho. “Busquei o maior número de gravações, além de ter feito uma ampla pesquisa em arquivos das cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Campinas, Porto Alegre e Curitiba por matérias escritas sobre ou por Elis, ou sobre eventos de que ela tenha participado”, conta.

O Fino – Nascida em 1945, a porto-alegrense Elis Regina Carvalho Costa começou sua carreira como cantora de rádio ainda menina, no Rio Grande do Sul, na década de 1950. A primeira guinada de sua carreira foi em 1964, quando chegou ao Rio de Janeiro e cantou no famoso Beco das Garrafas, em Copacabana. No ano seguinte, já era uma das maiores estrelas do País, graças ao programa “O Fino da Bossa”, da TV Record, que apresentava junto com o cantor Jair Rodrigues. “Nessa fase, Elis seguia uma linha mais ‘vozeirão’, cantando em alto volume, abusando de efeitos e ornamentos vocais, acompanhada de arranjos orquestrais com metais proeminentes e com repertório mais ligado às questões do morro e do sertão”, explica Rafaela.
Na época, a cantora era muito criticada por nomes como o escritor Augusto de Campos e o maestro Júlio Medaglia. “Ambos, adeptos da modernidade musical e tributários da bossa nova, afirmavam que Elis ajudava a promover o subdesenvolvimento da música popular brasileira ao cantar e apresentar-se de forma muito entusiástica, ao estilo carnavalesco.”
No final da década de 60, Elis procurou mudar seu estilo, trafegando entre vários gêneros musicais, como o pop, o rock e o soul, chegando a cantar Beatles e Roberto Carlos, ícones de um ritmo que combatera anos antes, participando da marcha contra a guitarra elétrica. A partir de 1971, porém, a cantora assumiu um tom mais engajado, com uso de instrumentos eletroacústicos nos arranjos e maior controle vocal, além de abrir espaço para compositores como Belchior, Ivan Lins e a dupla João Bosco & Aldir Blanc. É a fase do encontro com Cesar Camargo Mariano, pianista e arranjador que foi seu marido no período. Com Cesar, ela teve os filhos Pedro Camargo Mariano e Maria Rita. De seu primeiro casamento, com Ronaldo Bôscoli, nasceu João Marcelo Bôscoli.

trajetória múltipla: a voz poderosa da cantora interpretou desde o baião até o rock

Revalorização – “Surpreendeu-me muito perceber que a Elis Regina que cresci ouvindo e que continua tocando nas rádios é aquela da fase final de sua vida e carreira, a Elis engajada na luta contra a ditadura militar, na luta pela Anistia, de ‘Como nossos pais’ e ‘Romaria’. Essa é, sobretudo, a memória que se guarda da cantora nos dias de hoje, pela qual ela se tornou icônica e monumentalizada”, diz a historiadora. “Outras fases de sua carreira acabam sendo esquecidas. A não ser os contemporâneos de Elis, poucos conhecem, por exemplo, sua fase pop-rock, cantando Beatles.”
Ainda que as músicas da cantora nunca tenham caído no esquecimento, sua biógrafa, a jornalista Regina Echeverria – autora de Furacão Elis, que ganhará nova edição neste ano –, aponta que a memória da cantora esteve em ostracismo no decorrer da década de 90 e passou por um momento de revalorização somente a partir dos anos 2000. “Visitei o túmulo de Elis Regina no Cemitério do Morumbi em setembro de 2010. O túmulo de Elis, diferente do de Ayrton Senna, não estava decorado, nem possuía recados, faixas, coroas, cartas, bilhetes ou vasos de flores recém-colocadas. De acordo com os coveiros do local e da floricultura do cemitério, seu túmulo é muito pouco visitado”, comenta Rafaela Lunardi.
A pesquisadora acredita que a cantora teve, durante muito tempo, sua história negligenciada pelo mundo acadêmico. “É de grande importância, então, que a sociedade brasileira conheça, valorize e não se esqueça dos indivíduos talentosos e que contribuíram para a conformação de nossa história, seja ela no setor artístico, político, econômico, científico”, diz. “Espero que meu trabalho venha a contribuir nesse sentido.”