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Obras que gritam ao coração

Publicado por admin - Wednesday, 15 February 2012

ARTE

Pela primeira vez no Brasil, os painéis Guerra e Paz, de Cândido Portinari, estão expostos no Memorial da América Latina

IZABEL LEÃO

“Uma pintura que não fala ao coração não é arte, porque só ele a entende. Só o coração nos poderá tornar melhores e é essa a grande função da arte. Não conheço nenhuma grande arte que não esteja intimamente ligada ao povo.”

Cândido Portinari

A Guerra acaba de chegar a São Paulo, acompanhada pela Paz. Ambos os temas estão representados nos painéis Guerra e Paz, pintados por Cândido Portinari, inaugurando a exposição aberta ao público no auditório Simón Bolívar, no Memorial da América Latina, em São Paulo, no último dia 7 de fevereiro, na data em que se lembram os 50 anos de morte do pintor.

Trata-se da exposição dos dois últimos e maiores murais pintados pelo artista, entre 1952 e 1956, obra encomendada pelo governo do Brasil para presentear a sede da ONU em Nova York. Além dos painéis, a exposição reúne cerca de uma centena de estudos preparatórios para a composição das duas grandes obras.

O evento contou participações especiais. Milton Nascimento trouxe composição nova, sob inspiração da obra de Portinari. Hamilton de Holanda dedilhou em seu violão o som poético de Guerra e Paz. Ana Botafogo e Alex Neoral fizeram da dança uma pintura, apresentando coreografia do americano David Parsons, inspirada na dor de Pietá, ícone representado por Portinari no painel Guerra, e na história de vida do pintor, ao som de Adágio para cordas, de Samuel Barber.

A noite também contou com a participação especial da atriz Beatriz Segall, que relembrou Portinari em prosa e verso, sob fundo da Orquestra de Câmara, especialmente composta para o evento, sob a regência do maestro Elias Moreira, com a projeção simultânea de imagens dos esboços e sua inserção na obra, oferecendo ao público uma visão de conjunto.

O filho do artista, João Portinari, afirmou na abertura do evento que o Projeto Portinari – a quem a ONU confiou a guarda dos painéis até 2013 – foi criado em memória de sua mãe, Maria, como também para que um público maior conheça o outro lado das pinturas de seu pai, “não somente o lado trágico, mas também as coisas simples do cotidiano, retratando a fisionomia da terra de Portinari”, lembra.

De acordo com os objetivos do Projeto Portinari, os painéis ficaram quatro meses em restauro no Brasil depois de passarem longos anos expostos no hall de entrada da Assembleia Geral da ONU, onde a luz do sol causou desbotamento das cores.

Com 14 metros de altura por 10 metros de largura cada um, são compostos, ao todo, por 28 placas de madeira compensada naval, com 2,2 metros de altura por 5 metros de largura, e pesam 75 quilos cada um.

O restauro foi realizado em ateliê aberto ao público no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro, com a realização de programa educativo voltado para o atendimento às escolas.

Cândico Portinari: só o coração entende a arte

Pela primeira vez na história, cerca de cem estudos preparatórios para os painéis, incluindo obras de coleções internacionais vindas de Londres e Milão, compõem o acervo da exposição, bem como objetos de uso pessoal, como os óculos e pincéis do artista. Também completam a exposição documentos históricos, como cartas, recortes de jornais e fotografias, que contam em detalhes toda a trajetória de criação dos monumentais painéis.

Andrea Matarazzo, secretário municipal da Cultura, presente na inauguração, destacou a importância de manter sempre viva a memória das obras de Cândido Portinari, como manutenção do valor histórico de suas pinturas e desenhos.

Gênese dos painéis – “As coisas comoventes ferem de morte o artista e sua única salvação é retransmitir a mensagem que recebe. Eu pergunto: quais as coisas comoventes neste mundo de hoje? Não são por acaso as tragédias provocadas pelas guerras, as tragédias provocadas pelas injustiças, pela desigualdade e pela fome? Haverá na natureza qualquer coisa que grite mais alto ao coração do que isso?” Assim refletiu Portinari num discurso proferido a intelectuais e artistas em Buenos Aires, na Argentina, em 1947.

A atriz Beatriz Segall na abertura da exposição: Portinari em prosa e verso

Pintar Guerra e Paz já fazia parte do imaginário de Portinari. Ao dar início à elaboração dos painéis, o artista já se encontrava impedido pelos médicos de pintar, devido à sua saúde prejudicada pela intoxicação das tintas. Mas o pintor não recuou ao desafio e ao maior trabalho de toda a sua vida, vindo a falecer em 6 de fevereiro de 1962.

A obra, segundo a ministra do Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Teresa Campello, sintetiza a luta contra a injustiça e a iniquidade, e representa os trabalhadores, idosos, crianças, pobres, negros e mulheres.

Enquanto muitos pintores famosos retratam a história da guerra narrada por cenas que identificam o momento histórico, usando uma gama de conceitos que vai do heroísmo à dor e ao desespero, ou defendendo um solo, uma ideia ou uma causa que as particularizam, Portinari faz outra abordagem.

Ele não identifica guerra alguma, como se afirmasse que em essência todas se equivalem no desencadeamento de horror e animalidade. Não nos deparamos com corpos dilacerados, muito menos armas, soldados nem canhões. Portinari representa o fim do mundo com os quatro cavaleiros do apocalipse, cortando a cena em todas as direções com seu cortejo de conquista, guerra, fome e morte. Não traz as cores bíblicas do fogo e do sangue, nem o preto, o branco ou o amarelo. A cor predominante é o azul. Uma sinfonia trágica azulada, distribuída em várias tonalidades.

Ele via a guerra como um grande sofrimento da humanidade, em que o ícone – mãe em estado de sofrimento pela perda do filho ou marido – é repetido sete vezes, representando, pictoricamente, o sentimento mais dramático e sofrido que um ser humano pode ter, segundo Portinari.

Nota-se que a maioria dos personagens está implorando clemência em genuflexão, com os braços levantados, as mãos espalmadas e os rostos voltados para o céu. Os animais, representados pelas hienas, significam o ser humano violento, que escarnece da vida. Esse cenário de morte deixa transparecer uma aragem de força e vida, de condenação à própria existência da guerra.

A ideia da paz representada no segundo painel encanta e enleva. É a própria paz que nos invade ao contemplá-la. Emana da pintura uma sensação de comunhão fraterna, representada na ciranda das mulheres, no coro dos jovens, nas brincadeiras das crianças e na luminosidade das cores.

Portinari é o pintor do lirismo, da ternura e da infância. Ele mesmo se pergunta e responde: “Sabe por que pinto crianças nos balanços? Para colocá-las no ar como anjos”.

Tons dourados, alegres, juvenis, cheios de vida, resplandecem o sentimento de Portinari que parece nos dizer: “A paz universal é possível. Dia virá em que a humanidade desfrutará da paz sem limites no espaço e no tempo”.

A visitação – No espaço do Memorial da América Latina a exposição é composta de vários momentos. No Salão de Atos Tiradentes estão expostos os dois painéis e no centro da sala há uma apresentação de vídeo sobre o trabalho de restauro.

Na Biblioteca Latino-Americana há uma imagem da diversidade e criatividade de Portinari, como o próprio pintor nunca viu. Há um sistema de projeções com inovadora tecnologia, que oferece a visão de conjunto da obra completa do pintor, mais de 5 mil obras, em ordem cronológica.

Na Galeria Marta Taba, também no Memorial, encontram-se cerca de cem estudos preparatórios para os painéis Guerra e Paz, incluindo obras de coleções internacionais, vindos de Londres e Milão. Nesse espaço há oportunidade de visita guiada para grupos escolares, denominado Espaço Educativo, onde todos são mobilizados para a criação de uma cultura da paz, através do conhecimento sobre a vida, a obra e o pensamento de Portinari. Nesse momento se propõe que sejam levantadas as questões do exercício da cidadania e da preservação do patrimônio no Brasil.

Cândido Portinari nasceu em 30 de dezembro de 1903, no interior do Estado de São Paulo. Viveu sua infância na pequena cidade de Brodowski e, aos 15 anos, saiu de sua terra natal para o Rio de Janeiro, com papel e cores em punho para a imensa aventura de pintar a sua pátria.

Não fez curso primário completo. Foram sua obstinação e talento que o tornaram um dos pintores mais famosos das Américas. São mais de 5 mil desenhos, pinturas, esboços, grandes murais, que mostram o quanto Portinari se preocupou em pintar a cara do seu povo, o semblante da sua terra natal, do seu país de origem.

O restauro – A vinda dos painéis Guerra e Paz para restauração no Brasil ofereceu a oportunidade para estudantes, estudiosos e público em geral tomarem conhecimento dos modernos procedimentos e técnicas de restauro usados no Brasil, como também possibilitou a documentação científica dos painéis.

Foi realizado em ateliê aberto ao público no Palácio Gustavo Capanema entre fevereiro e maio de 2011, com entrada franca. As intervenções para preservação dos painéis foram realizadas por uma equipe de 18 restauradores brasileiros, sob a coordenação técnica do professor Edson Motta Junior, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e de Cláudio Valério Teixeira.

A exposição de Guerra e Paz, de Cândido Portinari, está em cartaz até 21 de abril, de terça-feira a domingo, das 9h às 18h, no Memorial da América Latina (avenida Auro Soares de Moura Andrade, 664, Metrô Barra Funda, em São Paulo). Entrada franca. Serviço educativo: educativo@portinari.org.br. Mais informações sobre o Projeto Portinari podem ser obtidas no site www.guerraepaz.org.br.