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Novos medicamentos homeopáticos

Publicado por admin - Tuesday, 28 February 2012

MARCUS ZULIAN TEIXEIRA

Hipócrates, “pai da medicina”, ensinava que existiam duas formas de tratar: pelos contrários e pelos semelhantes. O tratamento pelos contrários emprega substâncias que agem de forma contrária ou paliativa (“anti-“) aos sintomas da doença (por exemplo, anti-inflamatórios, antidepressivos etc.). Essa é a principal forma de tratamento usada pela “alopatia”. O tratamento pelos semelhantes, utilizado pela homeopatia, emprega substâncias que causam sintomas semelhantes (“homeo”) aos sintomas das doenças, estimulando o organismo a reagir contra as mesmas (por exemplo, café para tratar a insônia, porque causa insônia; beladona para tratar a febre, porque causa febre etc.).

Samuel Hahnemann, ao instituir a homeopatia, fundamenta esse princípio homeopático na observação do efeito das drogas no organismo, estipulando um “mecanismo universal de ação das drogas”: “Todo medicamento causa certa alteração no estado de saúde do homem por um período de tempo maior ou menor. A isso se chama ‘ação primária’. A essa ação, nossa força vital se esforça para opor sua própria energia. Tal ação oposta faz parte de nossa força de conservação, constituindo uma atividade automática da mesma, chamada ‘ação secundária’ ou ‘reação’” (Organon, parágrafo 63).

Exemplifica esse “mecanismo universal”, observado nas diversas sensações e funções orgânicas, nos efeitos dos tratamentos da sua época: “À ingestão de café forte, segue-se uma superexcitação (ação primária); porém, um grande relaxamento e sonolência (reação, ação secundária) permanecem por algum tempo se não continuarem a ser suprimidos através de mais café (paliativo, de curta duração). Depois da constipação produzida pelo ópio (ação primária), segue-se a diarreia (ação secundária) e, após purgativos que irritam os intestinos, sobrevêm obstrução e constipação por vários dias (ação secundária)” (Organon, 65).

Embasada nesse postulado, a homeopatia utiliza essa “ação secundária” como reação terapêutica, administrando aos indivíduos doentes medicamentos que causam sintomas semelhantes aos seus distúrbios, estimulando uma reação do organismo.

Apesar de pouco divulgada pela farmacologia, pois contraria o tratamento convencional, essa “ação secundária” é descrita após a suspensão de inúmeras classes de drogas paliativas modernas segundo o termo “efeito rebote” ou “reação paradoxal do organismo”. Desde 1997, vimos estudando sistematicamente esse efeito rebote das drogas, confirmando o princípio da similitude (ação primária da droga seguida por ação secundária e oposta do organismo) em centenas de estudos científicos.

Exemplificando, drogas “anti-hipertensivas” (agonistas alfa-2 adrenérgicos, betabloqueadores, inibidores da ECA etc.) podem despertar hipertensão rebote, em decorrência da ação secundária do organismo ao estímulo primário hipotensor. “Anticoagulantes” (heparina, salicilatos, clopidrogel etc.), empregados na prevenção da trombose, podem causar tromboses em decorrência da ação secundária do organismo. “Antidispépticos” (antagonistas do receptor H2, inibidores das bombas de próton etc.) podem causar dispepsia rebote, após diminuição primária da acidez gástrica. “Broncodilatores” (adrenérgicos, beta-agonistas etc.) podem promover broncoconstrição rebote, após broncodilatação primária.

Apesar de esse efeito rebote se manifestar numa minoria dos indivíduos (idiossincrasia), ele pode assumir grandes proporções (na intensidade e na duração), validando o seu uso terapêutico pelo modelo homeopático.

Desde que o princípio da semelhança seja respeitado, o tratamento homeopático pode ser aplicado com qualquer substância, natural ou sintética, em doses ponderais ou ultradiluídas. Assim sendo, drogas “alopáticas” podem ser usadas homeopaticamente desde que causem efeitos primários (efeitos terapêuticos, adversos e colaterais) semelhantes aos do doente, utilizando o efeito rebote das drogas de forma curativa.

Exemplificando esse uso homeopático (off label) dos fármacos modernos, drogas “hipertensoras” (adalimumabe, ciclosporina, dopamina, anti-inflamatórios etc.) podem ser empregadas para tratar a hipertensão; “hiperglicemiantes” (amprenavir, corticotropina, diazóxido, estrógenos etc.), para tratar o diabetes; “imunossupressores” (ciclosporinas, corticosteróides etc.), para estimular a imunidade; “irritantes gástricos” (abacavir, anti-inflamatórios, carbidopa, cilostazol etc.), para tratar as gastrites; etc.

Embasado nessa premissa, desde 2003 vimos propondo o uso das drogas convencionais segundo o princípio homeopático. Para que essa proposta pudesse ser aplicada, foi elaborada uma Matéria Médica e um Repertório Homeopático dos Fármacos Modernos, agrupando todos os efeitos primários (efeitos terapêuticos, adversos e colaterais) de 1.250 drogas alopáticas citadas na The United States Pharmacopeia Dispensing Information (USPDI, 2004), conforme a disposição dos capítulos das matérias médicas e dos repertórios homeopáticos tradicionais.

Intitulado Novos Medicamentos Homeopáticos: Uso dos Fármacos Modernos Segundo o Princípio da Similitude, esse projeto está dividido em três volumes: Fundamentação Científica do Princípio da Similitude na Farmacologia Moderna, Matéria Médica Homeopática dos Fármacos Modernos e Repertório Homeopático dos Fármacos Modernos. Para que todos os colegas tenham acesso a essa proposta e possam utilizá-la, essas três obras estão disponibilizadas num site bilíngue de livre acesso (www.novosmedicamentoshomeopaticos.com). No entanto, para que esse método seja validado, será necessária a união de médicos, farmacêuticos e pesquisadores em torno dessa proposta. Contamos com a participação e a colaboração de todos.

Marcus Zulian Teixeira (marcus@homeozulian.med.br) é coordenador da disciplina Fundamentos da Homeopatia da Faculdade de Medicina da USP