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Retratos de uma metrópole desigual

Publicado por admin - Monday, 5 March 2012

LANçAMENTOS

Livro organizado por professores da FFLCH reúne artigos de pesquisadores que analisam as intensas transformações sociais e espaciais de São Paulo nas últimas décadas

PAULO HEBMÜLLER

Lúcio Kowarick, professor titular do Departamento de Ciência Política (DCP) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, é autor ou coautor de alguns dos mais importantes estudos sobre os temas que envolvem cidadania e suas relações com o desenvolvimento da capital paulista – como a coletânea São Paulo: crescimento e pobreza, de 1976, e Viver em risco, publicado em 2008, com o qual recebeu o Prêmio Jabuti na categoria Ciências Humanas.
Ao lado de Eduardo Marques, também docente do DCP, Kowarick organizou o recém-lançado São Paulo: novos percursos e atores (sociedade, cultura e política). O livro reúne 15 artigos de pesquisadores que têm discutido os processos de transformação da metrópole nas mais diversas áreas nas últimas décadas. Com raras exceções, apontam os organizadores na introdução do volume, os governos locais têm produzido planos, projetos e políticas, mas muito pouco planejamento e quase nenhuma gestão de território, num tecido metropolitano caracterizado pela precariedade e irregularidade. Como resultado, “a cidade se ressente fortemente de políticas de gestão efetiva do território que possam influenciar os padrões de segregação social no espaço”.
O livro está dividido em quatro partes. Na primeira, Viver e habitar na cidade, são analisados temas como o Centro e seus cortiços (em artigo assinado por Kowarick), a presença estrangeira e as favelas e periferias nos anos 2000. Os organizadores, aliás, advertem que a maioria dos textos realça recortes de vários aspectos da pobreza urbana e não analisa centralmente um outro lado da cidade, o dos padrões de vida e consumo dos paulistanos de alto ou altíssimo poder aquisitivo.

Infraestrutura – A segunda parte é intitulada Trabalho e produção. No texto “Cidades-regiões ou hiperconcentração do desenvolvimento? O debate visto do Sul”, Alvaro Comin, professor do Departamento de Sociologia da FFLCH, analisa as políticas de atração de imigrantes e de infraestrutura para o desenvolvimento econômico, como telecomunicações, transporte e energia.
“O que se pretende mostrar com essa digressão histórica é que se a cidade de São Paulo é hoje um polo urbano razoavelmente cosmopolita e internacionalizado, onde se concentram os setores mais intensivos em capital e conhecimento, isso se deve ao fato de o País como um todo ter canalizado muito de sua energia desenvolvimentista para a região”, defende Comin. O professor também chama a atenção para o fato de que atualmente as populações de mais baixa renda tendem a ser expulsas “para os municípios em seu entorno, gerando um novo tipo de segregação espacial da pobreza”.
Os três artigos da terceira parte, Política e representação, analisam o quadro partidário e eleitoral, além das associações formais e o ativismo político dos movimentos sociais e de outras esferas de organização da sociedade.

Muros – Na parte 4, são abordados temas como sociabilidade, cotidiano e violência. Num dos artigos dessa seção, “O rap e a cidade: reconfigurando a desigualdade em São Paulo”, Teresa Pires do Rio Caldeira, professora da Universidade da Califórnia em Berkeley e autora de Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo, chama a atenção para o fato de que os jovens do movimento hip-hop conseguiram articular um código comportamental que lhes permitiria sobreviver em meio à violência. Paradoxalmente, porém, eles também recriaram alguns dos termos de sua própria segregação ao reinventar simbolicamente a periferia como um gueto isolado, construindo uma postura de “autorreclusão similar às práticas de reclusão das classes altas”. “Quais são as chances de construção de uma cidade menos desigual e segregada, e de um espaço público democrático, quando se evoca a intolerância para construir as comunidades em ambos os lados dos muros?”, pergunta Teresa.
Já em “Homicídios: guias para a interpretação da violência na cidade”, Paula Miraglia, doutora em Antropologia Social pela USP, demonstra que “a distribuição dos crimes na cidade de São Paulo retrata a diversidade do fenômeno”. Se, de uma parte, está descartada a associação entre pobreza e criminalidade, de outra, “não é possível ignorar a sobreposição geográfica de áreas de menor renda, maior concentração de favelas, maior presença de negros e pardos, baixa escolaridade, com a concentração de homicídios”.
“O mapa da violência em São Paulo revela o confinamento da violência letal nas periferias: as franjas da cidade concentram o maior número de homicídios”, escreve Paula. Esse tema, por sinal, Paula discute em profundidade em sua tese “Cosmologias da violência: entre a regra e a exceção”, que integra a série Produção Acadêmica Premiada da FFLCH e pode ser acessada em http://spap.fflch.usp.br/node/17.

São Paulo: novos percursos e atores (sociedade, cultura e política), de Lúcio Kowarick e Eduardo Marques (orgs.). Coedição Editora 34 e Centro de Estudos da Metrópole, 400 págs. R$ 52,00.