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Ela foi muito mais do que a amante do imperador

Publicado por admin - Sunday, 18 March 2012

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Uma nova história da Marquesa de Santos começa a ser resgatada. Domitila era firme, determinada, criava filhos, cuidava dos próprios bens e negócios. É essa mulher que está sendo apresentada em exposição com a curadoria de Heloisa Barbuy. A mostra está no Solar da Marquesa de Santos, a casa que ela mesmo comprou, em 1834, para viver com a sua família

LEILA KIYOMURA

Foi a figura de mulher loira, romântica e apaixonada pelo imperador do Brasil que a televisão e o cinema divulgaram. E fizeram questão de narrar tal relacionamento em tom novelesco. Mas Domitila de Castro Canto e Mello está distante desse retrato. A Marquesa de Santos era morena. Tinha a pele alva, mas os seus traços estavam longe de ser delicados. Olhar esperto, até um pouco desconfiado, pálpebras bem delineadas, nem gorda nem magra. Talvez a imagem mais fiel seja a da fotografia que tirou na meia-idade, com os cabelos presos por uma touca branca. Nas pinturas da época, os artistas procuraram deixá-la bonita. Mas em cada uma delas aparece de um jeito diferente. Só os olhos são os mesmos.

Todos esses retratos estão sendo apresentados na exposição “A Marquesa de Santos: uma mulher, um tempo, um lugar”, com a curadoria de Heloisa Barbuy, historiadora e professora do Museu Paulista da USP. Para traçar um perfil mais próximo da realidade, a mostra reúne objetos pessoais, documentos, cartas, móveis, utensílios domésticos. Procuram contextualizar a vida de Domitila com a história de São Paulo. E o mais importante: o público pode conhecer a história da marquesa na casa que ela mesma comprou e viveu com a sua família. O Solar da Marquesa de Santos fica no Pátio do Colégio, no centro histórico de São Paulo. É uma construção do século 18 que, embora tenha passado por mudanças ao longo do tempo, ainda conserva características originais.

“Muita coisa já foi escrita sobre a marquesa e há muito o que escrever”, explica Heloisa. “A maior parte das pesquisas foi realizada na primeira metade do século 20, com destaque para a obra de Alberto Rangel, que primou por um extremo rigor documental.”

Heloisa lembra que Domitila é um personagem muito importante para a nossa história porque através dela é possível rever o ambiente do Império brasileiro e de São Paulo no século 19. “Ou além disso”,  pontua. “Enquanto muitos a veem como uma mulher arrojada e, por isso, à frente do seu tempo, entendemos que esse seu arrojo é que nos permite situá-la ainda mais plenamente como uma mulher justamente de seu tempo. Aquele tempo em que as mulheres determinadas, como as francesas conhecidas como Georges Sand e Madame Récamier, foram lançadas para a posteridade exatamente por terem escolhido viver livremente suas paixões e afirmar suas individualidades. Dessa forma, elas revelaram e emanciparam a força do sexo frágil, em movimentos que se expressavam também pela voga das roupas femininas mais soltas e decotadas, a prática dos saraus musicais e literários como lugar-chave para a vida social e o cultivo das relações pessoais emocionalmente intensas. Assim, numa primeira síntese, uma das várias ópticas pelas quais podemos ver a Marquesa de Santos é a de figura romântica.”

A exposição sobre a Marquesa de Santos no Museu da Cidade de São Paulo: mostra apresenta uma imagem diferente da mulher vista pelo cinema

Uma nova face – Mas não é o romantismo da Marquesa de Santos que Heloisa procurou destacar. Os documentos mostram uma mulher determinada, de negócios. “Enquanto apenas às viúvas era permitido gerir seus próprios negócios, a Marquesa de Santos, que era divorciada do primeiro marido e, depois de seu relacionamento com o imperador, vivia maritalmente com Rafael Tobias de Aguiar, casando-se só bem depois, era dona de uma fortuna, muito aumentada nos anos em que viveu na Corte, e passou a comprar imóveis em São Paulo.”

Heloísa afirma que, hoje, no Primeiro Cartório de Notas da cidade, encontram-se diversos registros de compra e alguns de venda de terrenos, chácaras e casas, tudo em nome da Marquesa de Santos. “A casa da rua do Carmo ou rua de Santa Tereza, atual rua Roberto Simonsen, onde viveu por mais de 30 anos, até morrer, foi comprada por ela em 1834.”

Domitila aliava o dom de mulher de negócios com o trabalho de mãe. Entre 17 e 44 anos de idade, teve 14 filhos. Seis faleceram pequenos. Importante lembrar que, na época, o índice de mortalidade infantil era bem alto. “As mulheres choravam a perda de seus bebês ou filhos pequenos, ao mesmo tempo em que isso era aceito como contingência da vida. Havia toda uma cultura de crenças, cerimônias religiosas e práticas sociais a respeito dos chamados “anjinhos”, pois a morte de bebês e crianças era ocorrência comum e a elas se conferia um sentido místico. Oito de seus filhos chegaram à vida adulta e sete deles tiveram descendência. Eram dois do primeiro casamento com Felício Pinto Coelho de Mendonça, duas filhas de Dom Pedro I e cinco filhos de Rafael Tobias de Aguiar.”

Heloisa: novas faces da marquesa

Militante política – A mostra destaca também a influência da Marquesa de Santos como militante política. “Ela viveu de perto a consolidação da Independência política do Brasil e, embora não haja tantos registros diretos de sua atuação nesse processo, são muitas as indicações de que ela respirava também esse universo, desde a naturalidade com que o imperador lhe escreve falando, em algumas passagens, de acontecimentos políticos, até as informações biográficas que nos dão conta de que seu palacete no Rio era frequentado pelas mais altas personalidades de tendência liberal”, observa a historiadora.

A pesquisa de Heloisa contou com a participação de seus orientandos Ludimila Érica Cambusano de Souza e Mariana Esteves Martins. E constatou que muitas das decisões do imperador eram atribuídas à influência da Marquesa de Santos. “A verdade ou não deste ou daquele fato pouco importa: o que se pode deduzir dessas atribuições é que ela era realmente capaz de influir na política. Tudo se confirma em São Paulo quando ela se une a Tobias, presidente da Província e, mais tarde, líder da Revolução Liberal de 1842. Depois viúva, passa a militar manifestamente pelo Partido Liberal e pelas causas nacionais, como a Guerra do Paraguai.”

Sob o olhar do visitante – “A Marquesa de Santos: uma mulher, um tempo, um lugar” permite ao visitante juntar as peças da história através dos documentos, fotos e objetos. A curadoria teve o cuidado de não impor juízos de valor e suas próprias reflexões. Os painéis das paredes foram montados a partir de trechos de documentos e cartas. “O público tem elementos variados para compor a sua própria visão sobre Domitila de Castro e também sobre São Paulo do século 19.” No pavimento térreo, tem o contexto urbano da casa e pode-se apreciar a cidade da época através das fotos da rua do Carmo e adjacências. O visitante pode observar também os fragmentos encontrados nas escavações feitas nos anos de 1980 na Casa da Marquesa pela equipe da arqueóloga Margarida Andreatta, professora e pesquisadora do Museu Paulista. São fragmentos de pratos e xícaras, entre outros utensílios domésticos, que mostram os detalhes das porcelanas da época.

Imagens e objetos da época de Domitila: uma visão da São Paulo antiga

No pavimento superior estão as salas temáticas, com objetos pessoais, móveis, documentos e textos de biógrafos e contemporâneos da marquesa. Um dos objetos mais interessantes é a cama-barco, dada pelo imperador D. Pedro I para a Marquesa de Santos. Foi feita em nogueira com entalhes em bronze por um marceneiro da aristocracia francesa, Louis Bellangé Fils, sendo encomendada pelo rei da França, Carlos X. O móvel, no entanto, acabou não sendo comprado pelo Estado. Há a probabilidade de que o fabricante o anunciou nos meios diplomáticos e foi adquirida pelo governo imperial brasileiro. Certo é que chegou de Paris para o deleite da marquesa, que teve sua cama de rainha.

O visitante percorre os espaços ouvindo duas trilhas sonoras das musicistas Anna Maria Kieffer e Maria José Carrasqueira. A delicadeza da melodia remete aos saraus da época. “Afinal, a Marquesa de Santos tornou sua casa na rua do Carmo um centro de intensa vida social em São Paulo e esse é um dos pontos principais da mostra”, orienta Heloisa. “Os três salões que dão para a rua, no pavimento superior, são a área mais preservada do imóvel original.”

A cama dada por D. Pedro I à marquesa: encomendada pelo rei da França

O romance de Domitila e o imperador é o tema de uma das salas que fica no coração da casa. Um espaço pequenino, para não alardear o romance já tão explorado. A historiadora Heloisa e equipe procuraram manter a intimidade dos amantes através das cartas que os dois trocaram. Apesar do cuidado, a sala é o centro da atenção do público, mesmo porque a correspondência revela sete anos de um romance. Sete anos intensos dos 70 vividos pela marquesa. O imperador a chamava de “meu amor”, “meu tudo”, “Titília”. E assinava carinhosamente como “Demonão”.

A carta de despedida da marquesa, que deixava definitivamente o Rio de Janeiro, em 1829, para morar em São Paulo, revela o respeito entre ambos. O documento integra o acervo do Museu Imperial:

Senhor,

Eu parto esta madrugada e seja-me permitido ainda esta vez beijar as mãos a Vossa Majestade por meio desta, já que os meus infortúnios e mesmo minha estrela me roubam o prazer de o fazer pessoalmente.

De Vossa Majestade súdita, muito obrigada,

Marquesa de Santos

A exposição “A Marquesa de Santos: uma mulher, um tempo, um lugar” está em cartaz de terça-feira a domingo, das 9 às 17 horas, no Museu da Cidade de São Paulo, no Solar da Marquesa de Santos (rua Roberto Simonsen, 136 (Estação Sé do Metrô). Entrada franca. Mais informações: www.museudacidade.sp.gov.br.

O Museu da Cidade na defesa da história

Regina Ponte: mostra inusitada

O Solar da Marquesa de Santos é uma das 12 construções históricas que integram o Museu da Cidade de São Paulo. A iniciativa de inaugurar o espaço com a exposição “A Marquesa de Santos: uma mulher, um tempo, um lugar” foi da diretora, Regina Ponte. “A mostra é inusitada”, diz Regina. “O visitante pode refletir sobre a história da Marquesa de Santos e, ao mesmo tempo, sobre a história da sociedade e da São Paulo da época.”

O Museu da Cidade está sediado no Solar da Marquesa. Mas, para representar a memória de uma metrópole como São Paulo, Regina explica que é difícil se concentrar em um único edifício. Daí o seu acervo edificado ser integrado pelo Solar da Marquesa e mais 11 casas construídas a partir do século 17 até o século 20. “Esses edifícios revelam a memória das técnicas construtivas da taipa ao tijolo e do tijolo ao concreto, das modalidades dos assentamentos urbanos e rurais nas adjacências da cidade, dos modos de vida do paulistano, do aristocrata ao cidadão comum, do homem rural ao sertanista.”

Essas edificações que estão espalhadas pela cidade são: Casa da Imagem, Beco do Pinto, Casa do Bandeirante, Casa do Tatuapé, Casa do Sertanista, Sítio da Ressaca, Sítio Morrinhos/Centro de Arqueologia, Capela do Morumbi, Monumento à Independência, Casa do Grito, Casa Modernista e Chácara Lane. “A vocação de cada casa histórica é desenvolvida a partir da identificação de suas características arquitetônicas, localização e valor histórico, social e antropológico, e as exposições que abrigam buscam a interação destas particularidades”, afirma a diretora Regina.