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Irã

Publicado por admin - Monday, 21 May 2012

Li com o maior interesse o artigo dos colegas Daniel Marcolino e Ferdinando Martins sobre o Irã no Jornal da USP (edição 957, de 23 a 29 de abril de 2012, páginas 12 e 13). Procurei encontrar novas informações sobre um país tão fascinante. Os dados históricos apresentados são instrutivos para leitores de um jornal acadêmico e serviram para relembrar fatos meus conhecidos. Os autores poderiam ter enriquecido o artigo com novas análises de dados importantes, como, por exemplo, o índice de mortalidade infantil (menos de 5 anos), que é de 31 por 1.000, ou da mortalidade materna, 30 por 1.000, ambos muito abaixo do índice regional (WHO, 2009). O artigo, por outro lado, aponta como a “mídia ocidental” focaliza a energia atômica no Irã e oculta quando se trata da “Rússia, Paquistão, Índia e Israel”. Será que as fontes dos colegas não são a mídia internacional? Lemos diariamente nos jornais discussões a respeito desse arsenal em todos esses países. O mais discutível no artigo, contudo, foi a reprodução das palavras de Ahmadinejad na ONU, justificando a morte por apedrejamento de Sakineh Mohammed Ashtiani (”acusada e condenada por suposto relacionamento ilícito fora do casamento”), enquanto nos  Estados Unidos haveria “53 (?) mulheres condenadas à morte”. Como se um absurdo justificasse o outro.

Os autores consideram que as iranianas são emancipadas porque dirigem automóveis ou têm negócios etc. Esses dados não revelam a real subordinação das mulheres iranianas, acusadas sem julgamento aberto, impedidas de viver com liberdade e sem os direitos civis plenos. É lamentável que, visitando um país tão fascinante, o brilho superficial filtrado por um viés ideológico tenha ofuscado a análise.

Eva Alterman Blay, professora do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP