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2012, ano do mar na USP

Publicado por admin - Monday, 28 May 2012

AMBIENTE

Conferência USP sobre o Mar reúne pesquisadores do Brasil e do exterior para apresentar pesquisas de ponta e debater os desafios das ciências ligadas à oceanografia

SYLVIA MIGUEL

Conhecer os oceanos é tarefa cara e imensa, na qual a ciência ainda engatinha. Tenebroso, enigmático, descomunal, abissal. A literatura e a linguística têm bons motivos para representar o mar com adjetivos fortes, misteriosos, agressivos. No campo das letras, o mar figura temerário, porque desconhecido. Para a ciência, não é diferente. Tudo muda nas profundezas do oceano. Que organismos vivem lá e quantos? De que forma sobrevivem e como suas comunidades se transformam? As dúvidas também permeiam o conhecimento dos micróbios marinhos. Ou dos fluxos de elementos essenciais como carbono, nitrogênio e oxigênio, como foi mostrado por alguns dos mais renomados cientistas dedicados às ciências do mar, presentes na Conferência USP sobre o Mar, de 16 a 18 de maio, no auditório da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP.
“Se deixei vocês minimamente curiosos, a minha missão aqui está cumprida”, disse Farooq Azam, da Scripps Institution of Oceanography, da Universidade da Califórnia-San Diego, nos Estados Unidos. Um dos mais citados cientistas de microbiologia marinha, Azam chamou os micróbios de “sangue do oceano”, responsáveis por conectar todo o sistema marinho. Conclamou uma plateia repleta de estudantes, pesquisadores e professores a conhecer os segredos da biologia microbiana marinha, área em que “os desafios são enormes”, disse.
Mas o avanço das ciências do mar precisa, antes, vencer o obstáculo humano e institucional, etapa sem a qual não se chegará à almejada colaboração internacional, na opinião do professor Sergio Navarrete, diretor da Estación Costera de Investigaciones Marinas da Pontificia Universidad Católica de Chile. Em sua palestra, o professor destacou a necessidade da pesquisa interdisciplinar para a proteção da biodiversidade, num cenário de mudanças no oceano costeiro.
“Nossas instituições não estão preparadas para uma abordagem interdisciplinar. Precisamos incorporar a pesquisa colaborativa em nossas instituições. Em 20 anos, tenho visto que o trabalho em equipe tem se mostrado impossível entre universidades no Chile. Espero que possamos melhorar isso”, destacou Navarrete.
Segundo o professor chileno, seu país é o segundo maior produtor de salmão, o maior produtor de microalgas do mundo e possui 75% de suas espécies superexploradas. A pesca sustenta aproximadamente 80 mil pescadores chilenos e suas famílias. “Nenhum trabalho em rede ou qualquer política pública será efetiva sem entendermos a percepção dessa população sobre as estratégias conservacionistas. Nesse caso específico, é fundamental o trabalho de sociólogos, por exemplo”, lembrou.
Se o trabalho com equipes interdisciplinares ainda é um processo em construção, essa dificuldade vem sendo enfrentada por uma rede nacional estruturada pela USP para atender a um edital lançado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) há cerca de dois anos.  Dois projetos de R$ 15 milhões, aprovados no âmbito dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia, constituem os chamados INCTs do mar. Um deles será coordenado a partir do Instituto Oceanográfico (IO) da USP (leia texto ao lado).

Elite – O pró-reitor de Pesquisa da USP, professor Marco Antonio Zago, afirmou que as conferências promovidas pelo Instituto Oceanográfico integram uma série de ações que “marcam 2012 como o ano do mar na USP”. Destacou o papel do Núcleo de Apoio à Pesquisa Oceano Sustentável, o chamado NAP Oceanos, aprovado em junho de 2011.
O NAP Oceanos está prestes a inaugurar na Baixada Santista o curso de Engenharia de Petróleo, com aulas ministradas por professores da Escola Politécnica e do Centro de Biologia Marinha (Cebimar) da USP.
Além do papel do NAP Oceanos e do INCT do mar, Zago mencionou as amplas perspectivas para a pesquisa oceanográfica proporcionadas pelos novos navios adquiridos pela USP.  As embarcações Alpha Crucis e Alpha Delphini foram assunto de matéria publicada pelo Jornal da USP, disponível em http://espaber.uspnet.usp.br/jorusp/?p=21821.
O diretor científico da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz, lembrou que o programa Biota-Fapesp, cujos projetos ganharam renovação por mais dez anos, incorporou a biodiversidade marinha em suas pesquisas. “Depois das iniciativas de compra dos navios do IO pela Fapesp, é com satisfação que vemos a adição do interesse do Ministério da Ciência e Tecnologia a esse tema, com o lançamento do edital sobre os INCTs do mar”, disse Brito Cruz.
O professor Frederico Pereira Brandini, coordenador do INCT-Oceanos da USP, disse ao Jornal da USP que as ações recentes elevam a Universidade à categoria de “elite da pesquisa oceanográfica internacional”, já que a instituição terá condições de contribuir significativamente para as pesquisas colaborativas de âmbito mundial.

Conferência USP sobre o Mar: convite para investigar os mistérios do oceano

Paul Falkowski, da Rutgers University, Jonathan Zehr, da Universidade da Califórnia, Thomas Malone, da Universidade de Maryland, William Curry, do Instituto Oceanográfico Woods Hole da Brown University – todas instituições dos Estados Unidos – e outros renomados cientistas participaram das conferências.

Geopolítica marinha – Sem nos darmos conta, afetamos e somos afetados diariamente por tudo o que ocorre nos oceanos. Como um grande pulmão, o mar recicla a vida na atmosfera. Influencia todo o planeta, inclusive sua vida socioeconômica. O acesso a recursos como energia, biodiversidade e pesca e o domínio do solo oceânico têm levado uma série de países a requerer a expansão da jurisdição nacional sobre suas áreas marítimas. Embora os benefícios diretos disso ainda sejam vagos, já se aventou ganhos de trilhões de dólares no caso de alguns países, mostrou o professor Juan Suárez de Vivero, da Universidade de Sevilha, na Espanha.
O professor Vivero mostrou que o pico daquelas solicitações à ONU ocorreu em 2009, mas muitos países ainda não apresentaram seu relatório, incluindo alguns de importante extensão litorânea, como Estados Unidos e Canadá. Até o momento, 49 países, inclusive o Brasil, submeteram 58 relatórios de expansão jurisdicional e acesso a zonas econômicas exclusivas à Comissão de Limites para a Plataforma Continental da ONU.
“No atual ranking, o Brasil está entre a 8ª e a 9ª posição dos que teriam a maior área de expansão e zona econômica exclusiva, o que lhe confere um novo papel como potência marítima. Mas ainda faltam 40 países para submeter seu pedido, o que pode mudar o ranking final”, disse Vivero ao Jornal da USP.
Os processos em curso podem levar um tempo indeterminado até a sua conclusão, mas já é possível vislumbrar suas implicações para a área de governança marinha, disse o professor. A expansão jurisdicional marítima dos países significará a redução das áreas de uso comum dos oceanos. “Essa nova geografia poderá trazer conflitos geopolíticos no futuro, seja entre nações ou nas áreas de uso internacional”, afirmou.
O professor Brandini, do Instituto Oceanográfico, disse que, para reclamar hegemonia, os países precisam conhecer e saber o que há na zona que pretendem reclamar. A informação, portanto, é premissa fundamental para reclamar terras e disputar recursos, afirma.

Rumo às águas profundas

Com nome tão extenso quanto seus recursos, o projeto da USP aprovado no âmbito dos INCTs do mar reuniu mais de 120 pesquisadores brasileiros e estrangeiros com o objetivo inicial de levantar o fluxo e fazer o inventário do carbono na margem costeira brasileira, além de investigar sua interface com as mudanças globais. Possui componentes de pesquisa científica, tecnológica, ambiental e aplicada e, em escala global, pretende monitorar os efeitos das mudanças climáticas sobre a integridade dos ecossistemas marinhos do Brasil e avaliar o papel dos processos oceanográficos no ciclo global do carbono.
“Caracterização Ambiental e Avaliação dos Recursos Biogênicos Oceânicos da Margem Continental Brasileira e Zona Oceânica Adjacente”, ou simplesmente Carbom, é o nome do projeto de pesquisa de R$ 15 milhões, coordenado pelo professor Brandini, do Laboratório de Análise de Material Biogênico Particulado (Lamb) do Instituto Oceanográfico da USP.
“Eu vinha montando uma nova linha de pesquisa no Instituto Oceanográfico sobre a biogeofísica marinha, ou seja, para estudar os ciclos dos elementos nos oceanos. Vi o edital chegando e também a oportunidade de ampliar o escopo e a área de abrangência para todo o território brasileiro”, diz o professor, que, após longa carreira no Centro de Estudos do Mar da Universidade Federal do Paraná, foi contratado recentemente pelo IO.
É justamente o projeto Carbom que terá a honra de inaugurar o Alpha Crucis, o novo navio do IO adquirido com recursos da Fapesp. “Faremos a expedição piloto entre julho e agosto, partindo da região de Cananeia, no litoral sul de São Paulo, adentrando 600 quilômetros rumo à região oceânica profunda”, afirma Brandini.
Após a descoberta do pré-sal, o governo federal vem dedicando atenção especial ao incentivo às pesquisas do mar. Embora o tema seja uma das prioridades do Ministério da Ciência e Tecnologia, os ministérios passaram por dificuldades orçamentárias e o dinheiro que era para ter sido liberado em 2010, para a constituição do INCT-Oceanos, só deverá ser liberado nos próximos dois ou três meses, segundo Brandini.

Nordeste – “O INCT-Oceanos está sendo concebido sob um novo paradigma para a relação entre ciência oceanográfica e sociedade, no qual as questões que afetam a sustentabilidade dos oceanos serão tratadas de forma holística e integrada, tanto temática quanto espacialmente e temporalmente”, traz o texto do projeto Carbom.
Com uma estratégia de promoção da ciência, o INCT-Oceanos agregará equipes inter e multidisciplinares, com a missão de potencializar a pesquisa básica e aplicada e gerar conhecimentos para aplicações tecnológicas e educacionais.
“A rede visa ainda a aumentar a conscientização da sociedade brasileira sobre a importância do mar para o desenvolvimento socioeconômico do País, bem como tornar o conhecimento do mar brasileiro e de suas riquezas mais acessível para todos, particularmente para as comunidades litorâneas”, segundo o documento do projeto.
O projeto aprovado em 2009 pelo Ministério da Ciência e Tecnologia deverá ter seus recursos bem distribuídos entre a rede de pesquisadores, na forma de bolsas de estudos e equipamentos para as 14 instituições participantes. “No mínimo 30% da dotação deverá ser direcionada para pesquisas no Nordeste, região que é um dos componentes de estudos do projeto”, afirma o coordenador.

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