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Os temores de D. Quixote

Publicado por admin - Monday, 28 May 2012

LITERATURA

Em seminário realizado em São Paulo, professor da Universidade de Girona, na Espanha, lança a tese de que o personagem de Cervantes é movido não pela loucura, mas pelo medo

Pensar D. Quixote de La Mancha não segundo as noções de razão e loucura – como o célebre personagem de Miguel de Cervantes sempre foi interpretado ao longo dos séculos –, mas do ponto de vista das emoções. Foi o que fez o professor Enric Mallorquí Ruscalleda, da Universidade de Girona, na Espanha, em sua conferência no 13º Seminário Internacional Filosofia e Educação – Fundamentos e Políticas. O evento, promovido pela Faculdade de Educação da USP e pelo Instituto Jurídico Interdisciplinar (IJI) da Universidade do Porto, em Portugal, ocorreu no dia 19 de maio, nas Faculdades Integradas Campos Salles, em São Paulo.
Para Ruscalleda, a ideia tradicional a respeito de D. Quixote – o fidalgo que perde a razão ao ler muitos livros de cavalaria e se lança em aventuras com seu fiel escudeiro Sancho Pança – não é suficiente para explicar o comportamento do Cavaleiro da Triste Figura. Muito menos sua personalidade se caracteriza pela valentia, como também foi consagrado pelos intérpretes.
Na realidade, sustenta Ruscalleda, apontando já as primeiras páginas da obra-prima de Cervantes, Quixote é movido pelo medo. “A história se abre com uma situação-chave que, em parte, desencadeia o fato de que o fidalgo de La Mancha, Alonso Quijano, decide se armar cavaleiro andante. Refiro-me ao medo que ele sente pelo desejo sexual que sua sobrinha desperta nele”, destacou o professor.
É a partir desse momento que Quixote se lança à aventura e adquire aquelas características que a posteridade associará ao personagem – a luta contra os moinhos de vento, a loucura e o valor –, todas elas “pouco exatas”, segundo Ruscalleda, visto que não faltam demonstrações de medo em todo o romance. “Afetado pela enfermidade da imaginação, o fidalgo decide lançar-se à aventura cavaleiresca através da qual sofrerá novos medos, entre eles, o que também sentirá a todo momento por Dulcineia e por todas as mulheres em geral”, afirmou. “Entendido assim, o medo deve ser considerado um ingrediente indissociável da identidade do protagonista.”
Ruscalleda tem o requinte de recorrer às representações do medo na época de Cervantes – os inícios da modernidade – para fortalecer sua tese. Para isso, aborda um livro de ampla difusão no século 17, De Metu, escrito pelo jurisconsulto espanhol Antonio Cabreros. Nele, Cabreros relaciona metus (medo) com motus (movimento). “Ante a iminência de um perigo, o ânimo inicia um movimento, e foge”, escreve Cabreros. Para Ruscalleda, é o que se passa com Quixote, que age para fugir do seu medo. O professor nota que a palavra “medo” é mencionada 55 vezes em D. Quixote, sem contar seus sinônimos. “Por tudo isso, posso chegar a afirmar que o medo é uma das ideias matrizes cervantinas.”

Paulo Cunha: contra os burocratas

“A tese de Ruscalleda é muito instigante e tem o mérito de trazer o tema das emoções para o debate sobre a educação e a história cultural”, analisou o medievalista Jean Lauand, professor da Faculdade de Educação da USP e da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), organizador do seminário.

Burocracia acadêmica – O 13º Seminário Internacional Filosofia e Educação não apresentou apenas a inovadora interpretação de Quixote feita por Ruscalleda. Interdisciplinar, o evento abordou vários outros temas ligados à educação e à cultura. A começar pela burocracia universitária, alvo da crítica do professor e jurista português Paulo Ferreira da Cunha, catedrático da Faculdade de Direito da Universidade do Porto, em Portugal.

Mallorquí Ruscalleda (à esquerda) e Jean Lauand: tese instigante

Cunha criticou a tendência, na universidade moderna, de priorizar a quantidade de artigos publicados, em detrimento da qualidade, combateu a exigência de preenchimento de inúmeros relatórios – “Eles parecem se alimentar de papéis”, reagiu, referindo-se aos “burocratas da academia” – e lamentou a ausência de debates e ideias originais. Mas Cunha faz uma ressalva: “A universidade é uma instituição de que nos podemos ainda orgulhar. Só depende de nós para continuar a ser uma das maiores realizações do engenho e da arte humanas. Apenas não pode ela aceitar tudo o que lhe querem impor”.

O público presente no seminário: uma visão diferente e original sobre o Cavaleiro da Triste Figura

“O impacto das políticas públicas no fracasso escolar”, “Desafios da docência na educação a distância”, dos professores da Umesp Roger Quadros e Adriana Barroso de Azevedo, e “Antropologia da devoção a S. Expedito”, de Jean Lauand, foram outras conferências dadas no seminário. Também no evento, o professor Paulo Cunha nomeou dois novos membros do Instituto Jurídico Interdisciplinar (IJI) da Universidade do Porto: a antropóloga e professora Chie Hirose e o professor Roberto Castro, ambos doutores em Filosofia da Educação pela Faculdade de Educação da USP.