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Desafios de Brasil e Índia

Publicado por admin - Sunday, 1 July 2012

GLOBALIZAÇÃO

Modos de resolver os problemas de duas das grandes democracias do planeta – entre eles, a redução das desigualdades entre os cidadãos – foram tema de encontro realizado no Instituto de Estudos Avançados

PAULO HEBMÜLLER

Índia e Brasil enfrentam desafios similares – mas não iguais – nas questões ligadas aos respectivos processos democráticos. Embora a estrutura social indiana seja bastante diferente – o país tem uma população várias vezes maior e está permeado por uma enorme variedade de línguas e religiões, além das questões profundas ligadas ao sistema de castas –, há muito o que se pode aprender, por exemplo, com as recentes políticas públicas de inclusão desenvolvidas no Brasil, acredita a historiadora Mridula Mukherjee, professora no Centro de Estudos Históricos da Universidade Jawaharlal Nehru (JNU). A docente foi uma das expositoras do encontro Democracias de Alta Densidade: Índia e Brasil, realizado no dia 26 de junho na sede do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, na Cidade Universitária.
A professora Mridula descreveu a luta por liberdade e pelo fim do colonialismo na Índia como uma longa caminhada que teve início na década de 1870 e culminou com a independência, em 1947. Foi um processo em que ideias como nacionalismo, soberania, democracia, secularismo e igualdade foram largamente debatidas, germinaram e ganharam terreno na população. Greves, locautes, manifestações e outras formas de protesto ocorreram por décadas em cidades e vilas do país, disseminando conceitos e permitindo que práticas democráticas – como eleições de representantes para os conselhos dos partidos que lutavam pela independência – fossem incorporadas ao cotidiano dos cidadãos.
A docente lembrou que, às vésperas da independência, o líder Mahatma Gandhi defendia que o Estado a ser construído deveria ser secular e democrático. O foco da luta estava nas liberdades civis, na prática política e na consolidação de valores e ideias. O discurso anticolonialista baseava-se na exploração econômica indiana pelo Império Britânico – ou seja, no centro do enfrentamento estavam a injustiça e a exploração, e não o fato de que os colonizadores eram “diferentes” (brancos ou cristãos).
Outra ideia importante ao longo de todo o processo envolvia o que fazer após a independência. “A pergunta era: vamos trazer de volta os reis e imperadores ou procurar algo novo?”, lembrou a professora. Assim, foi fundamental desenvolver a noção de cidadão no lugar daquela de súdito. “A ideia de democracia caminhou ao lado do nacionalismo”, define.

Desestruturação – Há autores que defendem que o colonialismo criou as condições para o desenvolvimento dos países após sua independência. Para o professor Aditya Mukherjee, diretor do Instituto de Estudos Avançados da JNU, essa noção é equivocada. A crítica desses autores, de que o governo do primeiro-ministro Jawaharlal Nehru foi de “anos desperdiçados”, não se justifica – Nehru foi o primeiro a assumir o cargo na Índia independente, de 1947 até sua morte, em 1964. “Era preciso desestruturar o sistema colonialista. A Índia não produzia nenhuma máquina e precisava importar tudo”, diz. O professor lembra que Gandhi e Nehru sempre procuraram convergir em suas posições e defende que foram as reformas estruturais e a preocupação com educação e segurança alimentar dos primeiros tempos que permitiram que o país alcançasse crescimento econômico nas décadas seguintes.
Mukherjee, assim como sua esposa, Mridula, acredita que Brasil e Índia enfrentam desafios similares. O principal deles é o da igualdade. O setor mais beneficiado com os altos índices de crescimento tem sido a classe média – cujo tamanho, na Índia, é de cerca de 350 milhões de pessoas, mais do que uma vez e meia a população total do Brasil.
Mukherjee considera que a experiência brasileira ajudou no debate sobre globalização na Índia no final dos anos 90. Na época, o então presidente Fernando Henrique Cardoso visitou o país e defendeu em discussões com políticos e intelectuais a ideia de que a pergunta a fazer não era globalizar-se ou não – mas como fazê-lo sem abrir mão da soberania.
“FHC não seguiu a própria regra em seu governo”, rebateu com ironia o professor Renato Janine Ribeiro, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, um dos expositores brasileiros do evento no IEA. Janine salientou que nos últimos 20 anos o Brasil tem tido a sorte de ser governado por “gente de bem” e afirmou que o aspecto mais importante do governo Lula foi o fato de que a pirâmide social transformou-se num “losango social”. “O poder de compra é muito maior hoje, mas isso não significa que as coisas andem bem em outros aspectos”, pontuou.
Janine também ressaltou que há uma grande diferença na avaliação que a imprensa brasileira – “que não é boa” – faz do governo em relação às pesquisas de opinião pública, nas quais a aprovação geralmente supera os 70%. “É difícil lidar com uma imprensa livre para dizer o que quer, mas incapaz de respeitar a vontade do povo”, disse.

Os textos dos expositores do encontro Democracias de Alta Densidade estão no site do IEA (www.iea.usp.br)

USP quer intensificar intercâmbio

“Oxalá o sertão venha a virar mar”, diz a professora Maria Inês Nogueira, docente do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, que participou como moderadora de uma das mesas do encontro no IEA. A professora se refere à sua esperança de que sejam formalizadas parcerias entre a USP e instituições indianas, propiciando maior intercâmbio acadêmico entre os dois países que integram o bloco Brics.

Mridula e Mukherjee: pontos em comum entre o Brasil e a Índia

Maria Inês não fica na esperança – trabalha para concretizar iniciativas. A docente esteve na Índia pela primeira vez em 2009 para participar de um congresso. No ano seguinte, esteve num evento sobre divulgação científica e fez contatos ao visitar algumas universidades indianas. Ainda em 2010, foi a vez de a USP receber o professor Vinod Vyasulu, de Bangalore, para uma conferência na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA).
A docente do ICB envolveu-se no “trabalho hercúleo” de organização de um simpósio, que teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e participação de várias unidades da USP. Durante quatro dias, em outubro de 2011, o simpósio Brasil-Índia: Construindo Redes de Conhecimentos reuniu pesquisadores dos dois países para discutir temas de ciência, tecnologia e cultura.
Outras iniciativas envolvem a criação de cátedras em áreas como saúde pública e neurociências. Na FFLCH está em andamento a criação da Cátedra de Estudos Indianos, que incluirá o ensino da língua híndi. Também foram encaminhados neste ano os documentos para oficializar convênio da unidade com a JNU, cuja assinatura será mediada por Aditya e Mridula Mukherjee, relata a professora Laura Izarra, do Departamento de Letras Modernas. A FFLCH já recebeu em anos anteriores, em intercâmbio ad hoc, o professor visitante Makarand Paranjape para cursos de pós-graduação em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês.