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Economia, sociologia, esperança

Publicado por admin - Sunday, 12 August 2012

LANÇAMENTO

Temas centrais do número 75 da revista Estudos Avançados reúnem autores como Luiz Carlos Bresser Pereira, Alfredo Bosi e José de Souza Martins, apresentando novos caminhos para as sociedades

SYLVIA MIGUEL

Muitos foram os economistas e as linhas teóricas que beberam na fonte de Celso Furtado, considerado talvez o maior explicador do processo histórico de formação da economia brasileira. Mesmo antes de Formação Econômica do Brasil (1958), Furtado destacou a premência das questões cambiais para o debate macroeconômico de países em desenvolvimento. A partir dessas discussões e fazendo uma releitura da teoria estruturalista da economia, Luiz Carlos Bresser Pereira desenvolveu a partir de 2002 um modelo teórico que coloca a taxa de câmbio no centro da economia do desenvolvimento. Se, de um lado, o fracasso da macroeconomia neoclássica e do Consenso de Washington ajudou no processo criativo, de outro havia a crise da teoria estruturalista latino-americana. Com isso, Bresser Pereira elaborou o que chama de “novo-desenvolvimentismo”, um conjunto de estratégias para nações de desenvolvimento médio buscarem o nível de renda de países desenvolvidos.
“Novo-desenvolvimentismo” é o tema da primeira parte do dossiê de número 75 da revista Estudos Avançados, do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP. Na seção de dez artigos, os autores elaboram as diversas implicações da macroeconomia estruturalista do desenvolvimento no âmbito da economia global e latina e da política internacional.
As estratégias do novo-desenvolvimentismo têm como ponto de partida o que o autor chama de macroeconomia estruturalista do desenvolvimento. Esta seria “um segundo momento da teoria estruturalista”, afirma. A diferença marcante dessa linha teórica é a atenção nos preços macroeconômicos, especialmente a taxa de juros e a taxa de câmbio.
Ministro do governo José Sarney e “pai” do Plano Bresser, que congelou preços e salários na tentativa de diminuir a galopante inflação e o enorme déficit público provocado pelo fracasso do Plano Cruzado, no final da década de 1980, o experiente economista apresenta no artigo de abertura deste número 75 os pressupostos teóricos que supõem duas taxas de câmbio de equilíbrio da economia.
O autor mostra que as escolas anteriores, incluindo a keynesiana e a estruturalista, não colocam a taxa de câmbio no centro da teoria do desenvolvimento porque ambas a consideram um problema de curto prazo a ser estudado pela macroeconomia. A teoria neoclássica acredita que a taxa de câmbio “flutua suavemente em torno do equilíbrio corrente” e a teoria keynesiana vê uma flutuação volátil em torno desse equilíbrio. “Entretanto, se, em vez disso, supusermos que a taxa de câmbio tende a se apreciar ciclicamente, será fácil entender por que ela permanece cronicamente sobreapreciada, e, portanto, ela é um problema de médio prazo a ser também estudado pela teoria do desenvolvimento econômico”, traz o texto.
O autor demonstra que “não é o mercado, mas são as crises de balanço de pagamentos que determinam” os ciclos da taxa de câmbio. Bresser Pereira passa pela falha de mercado conhecida como “doença holandesa”, identificada na Holanda na década de 1960, para supor, em vez de dois setores da economia, duas taxas de câmbio capazes de promover ou impedir que as empresas competentes do país participem dos mercados de exportação. São elas, a taxa de câmbio de equilíbrio corrente e a de equilíbrio industrial.
A industrialização como política central do Estado e baseada na substituição de importações, bem como os déficits públicos e o endividamento externo como premissa do desenvolvimento, são coisas do passado. Ao contrário da ortodoxia convencional, o novo-desenvolvimentismo foca a industrialização orientada para as exportações e conjugada com o consumo de massas interno. A política industrial é estratégica, mas não central. Cabe ao Estado criar as oportunidades de investimento. A nova linha não aceita complacência com a inflação e muito menos com os déficits. A nação deve buscar superávit fiscal e na conta corrente.

Esperança – “Sociologia e esperança” foi o tema de um seminário internacional realizado em outubro de 2011, no Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e que dá base ao conteúdo dos artigos da segunda parte do dossiê, organizada pelo sociólogo José de Souza Martins, professor aposentado da FFLCH.
O seminário interdisciplinar reuniu pesquisadores da Universidade de Cambridge (Reino Unido) e da Universidade de Lisboa (Portugal), além de especialistas da USP, e escolheu como tema de referência a esperança por ser esta a “concepção-chave das diferentes orientações teóricas da sociologia”, como coloca na apresentação do dossiê o professor Martins.
Entre antagonismos e aproximações de perspectivas que têm como marco de referência a esperança, os autores debatem o conhecimento sociológico atual e suas poucas frestas abertas a uma nova criação histórica e transformação social.
Fecham este número 75 de Estudos Avançados uma seleção de três artigos tratando da ciência no mundo contemporâneo, além de três resenhas sobre temas diversos. O professor Rafael de Bivar Marques, da FFLCH, analisa Capitalismo e escravidão, de Eric Williams. Publicado em 1944 e reeditado este ano pela Cia. das Letras, é considerado um dos mais notáveis livros sobre a escravidão.
O Professor Emérito da Faculdade de Direito da USP Fábio Konder Comparato discorre sobre a obra Com a palavra, Luiz Gama – poemas, artigos, cartas, máximas. O papel do maior abolicionista brasileiro, negro vendido como escravo pelo próprio pai e que se tornou o maior advogado de escravos do Brasil, é mostrado no livro organizado pela professora Lígia Fonseca Ferreira, lançado pela Imprensa Oficial em 2011.
Marcus V. Mazzari, professor de Teoria Literária e Literatura Comparada na FFLCH, elucida as observações do crítico e historiador de literatura brasileira Alfredo Bosi, em Ideologia e contraideologia. Lançado em 2010 pela Cia. das Letras, o autor lança-se num “considerável desafio”, segundo Mazzari, ao enfrentar o conceito de ideologia e desenvolver os vários fios da trama ideológica presente na obra ficcional de Machado de Assis, em especial em Memórias póstumas de Brás Cubas.

Estudos Avançados, número 75, dossiê Novo-desenvolvimentismo, Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP (telefone 11 3091-1675), 360 páginas.