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Vitrines da ciência no Brasil

Publicado por admin - Sunday, 19 August 2012

PUBLICAÇÕES

Editores de revistas acadêmicas da USP comemoram ascensão em ranking internacional e contam suas estratégias para tornar seus periódicos mais conhecidos no mundo acadêmico

THIAGO MINAMI
Especial para o USP Online

Rankings internacionais avaliam o impacto de publicações científicas com base no número de vezes que seus artigos são citados em textos de outros periódicos. Publicar estudos relevantes o suficiente para conseguir um número grande de menções é uma das metas dos autores – e das revistas.
Em julho deste ano, a Thomson Reuters divulgou o 2011 Journal Citation Reports, com os fatores de impacto das principais revistas científicas no mundo. Elas estão divididas em edições separadas para “Ciência” e “Ciências Sociais”, num total de 10.677 periódicos de 2.552 editores em 82 países.
Três revistas da USP conseguiram índices acima de um: a Clinics, do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina (FM), está em segundo na relação. A Revista de Saúde Pública, publicada pela Faculdade de Saúde Pública (FSP), ocupa a quinta posição, e a Revista do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo, a décima sexta. As mais bem colocadas são as famosas Nature, com altíssimos 36,280 (a média mundial é de 2,5), e a Science, com 31,201. A Memórias do Instituto Oswaldo Cruz é a mais bem colocada brasileira, com 2,147.
“Há dez anos, era impensável ter revistas brasileiras com índices acima de dois na área de medicina.” É o que aponta o professor da FM e editor da Clinics, Maurício Rocha e Silva. “Isso mudou muito com os meios de veiculação on-line, por sites como o Scielo e a oferta gratuita de artigos brasileiros”, esclarece.
Os índices não podem ser comparados entre áreas diferentes de estudo. “Uma revista com dois pontos em um campo e outra com menos de um em outro podem ter a mesma relevância. O importante é tentar ficar acima da média de sua própria área”, explica o professor.
A Clinics tem 2,058 – há uma década, contava com menos de um ponto. Rocha e Silva lista os segredos para o salto no desempenho. Primeiro, o idioma da publicação é o inglês, que é o padrão para as ciências exatas, biológicas e da saúde. Segundo, há um sistema on-line eficiente para recebimento e revisão de artigos, com controle preciso do fluxo pelos editores. A publicação também está inteira na internet, sem volumes impressos. “Foi assim que atraímos pesquisadores estrangeiros. Hoje contamos com muitos colaboradores de países como China e Turquia”, afirma o professor. Terceiro, é feito um controle rígido do que é publicado, com índice de rejeição de pelo menos 60%. No caso da Clinics, são recebidos cerca de mil papers por ano, dos quais apenas 200 em média saem na revista. Para isso, é preciso contar com um grande número de revisores qualificados. “Todo mundo está sendo avaliado constantemente. Além dos artigos que recebemos, a própria revisão feita recebe notas dos colegas. Assim garantimos a qualidade”, diz.
Em quarto lugar, como diz o professor, “o título é o outdoor do artigo e o resumo é a vitrine”. Ou seja, é preciso caprichar nos dois para atrair a atenção dos leitores e não deixar um bom conteúdo se perder pela falha na apresentação. “Títulos e resumos bons são aqueles que deixam claro, de modo organizado, o que está no artigo. Ninguém entra numa loja com a vitrine toda bagunçada, certo?” E, em quinto lugar, há a preocupação em divulgar a publicação em simpósios, conferências e outros meios acadêmicos, para que, aos poucos, o reconhecimento nas comunidades brasileira e internacional seja alcançado.

Divulgação – As sugestões acima podem variar de acordo com as especificidades das áreas. Na Saúde Pública, por exemplo, o professor da FSP e editor da Revista de Saúde Pública, José Leopoldo Ferreira Antunes, acredita ser importante publicar artigos também em português, e não só em língua estrangeira. “Queremos impacto científico e social aqui no Brasil”, explica. Muitas pesquisas nesse campo de estudo são interessantes para leigos e podem afetar, por exemplo, políticas públicas.
O importante, diz Antunes, é desenvolver estratégias para diminuir custos de edição e publicação sem deixar de investir na divulgação. “Muitas revistas atrasam e têm problemas de periodicidade pela falta de recursos. Isso prejudica”, diz.
O Brasil ainda gasta pouco com ciência, o que se reflete diretamente nas revistas científicas. Nós investimos cerca de dez vezes menos que os Estados Unidos, segundo dados da Unesco referentes a 2007. E não é questão apenas de ter menos recursos – em termos comparativos, participamos com 2,8% do produto interno bruto (PIB) mundial e apenas 1,8% nos gastos com ciência e desenvolvimento. Nos Estados Unidos, a relação é inversa. Eles têm uma participação maior nos gastos mundiais com ciência, com 32,6%, do que no PIB, com 20,7%.
A maneira de driblar a falta de recursos, segundo Antunes e Rocha e Silva, é usar as plataformas digitais como aliadas. Elas ajudam a eliminar, por exemplo, os gastos com impressão e envio, ao mesmo tempo em que levam os periódicos aos mais diversos pontos do planeta.

As revistas da USP: controle rigoroso da qualidade dos artigos

Humanas – As ciências humanas são as que mais têm problemas para ampliar a divulgação de suas publicações. Se as biológicas já pensam alto – Rocha e Silva prevê publicações brasileiras com índices acima de três para os próximos dez anos –, áreas como ciências sociais e comunicações encontram dificuldades ainda em questões básicas, como disponibilizar conteúdos na web e publicar em línguas estrangeiras.
O conteúdo dos estudos, por exemplo, torna as traduções mais complicadas. A tradição de compartilhar resultados na comunidade internacional também não é tão forte como nas outras ciências.
Uma das que tentam reverter o quadro é a Scientiae Studia, publicada por pesquisadores do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e mantida pela Associação Filosófica Scientiae Studia. São veiculados em meio impresso e on-line artigos em português e espanhol para aumentar a integração na comunidade acadêmica latino-americana. Segundo o fundador e presidente da associação, Pablo Mariconda, a revista já se tornou referência na Argentina.
“Muitos artigos são reescritos e ficam até um ano e meio para chegar ao ponto que consideramos adequado”, comenta Mariconda, que também é professor do Departamento de Filosofia. A Scientiae Studia está indexada no Scielo e no Qualis, da Capes, no qual tem nota A2 – a segunda mais alta na escala – em Filosofia e Teologia. “A Manuscrito, de Campinas, tem a nota máxima, mas é uma revista com 30 anos. A nossa conseguiu em dez anos chegar a esse patamar”, compara o professor.
A publicação começou em 2003. Um grupo de professores, pesquisadores e estudantes de pós-graduação do projeto temático Estudos de Filosofia e História da Ciência decidiu criar uma revista científica sobre o assunto. A dificuldade em manter o projeto financeiramente levou à fundação da associação, que também publica livros e promove palestras e eventos de divulgação científica.
Colaborou:  Paulo Fávari