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Helmi Nasr e os estudos árabes no Brasil

Publicado por admin - Sunday, 26 August 2012

ENSAIO

AIDA HANANIA E JEAN LAUAND

No texto a seguir, professores da USP destacam a origem do ensino da cultura árabe na Universidade, que teve início há exatos 50 anos com a chegada de um então jovem professor egípcio

Em 2012, celebramos duas importantes datas redondas, em torno de um único personagem, marco importante, fundacional, dos estudos árabes entre nós: o 90º aniversário do professor Helmi Nasr, que há exatos 50 anos fundou o Curso de Língua e Literatura Árabe na USP.
A USP hoje, prestes a completar 80 anos, era, em 1962, uma universidade muito jovem de um país que, instalado em séculos de atraso, começava a viver grandes mudanças econômicas e culturais: o clima era de efervescência de desenvolvimento com a fundação de Brasília; o Brasil se afirmando em muitos esportes; Palma de Ouro em Cannes; a bossa nova etc.
A imagem que o brasileiro tinha do mundo árabe era muito diferente: não se falava de islamismo, não havia nada parecido com o protagonismo exercido hoje – pós-Opep – pelos países árabes, uns países remotos e exóticos de cultura praticamente ignorada. Um pouco mais conhecido era o presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser, um dos líderes do “movimento terceiro-mundista”.

Jânio Quadros – Quem considera as dificuldades e delongas para a contratação de professores na USP ficará assombrado com o modo como foi criada a Seção de Estudos Orientais, em 1962, inicialmente instalada junto ao Curso de História, sob a direção do grandioso Eurípedes Simões de Paula. O próprio professor Nasr nos conta em uma entrevista de 1993 (http://www.hottopos.com/collat6/nasr.htm):
“Jânio Quadros, quando assumiu a Presidência, foi visitar os líderes orientais da época: Gamal Abdel Nasser – que, então, gozava de enorme prestígio em todo o mundo –, Nehru e outros. Voltando ao País, cheio de admiração por esses estadistas, decidiu criar, no Brasil, estudos orientais e pediu à USP que criasse esses cursos. A USP, em atenção ao pedido do presidente, resolveu criar sete cursos – Árabe, Hebraico, Russo, Chinês, Japonês, Armênio e Sânscrito – e contatou os países correspondentes, em busca de professores que se dispusessem a vir para cá. Ora, nessa época, os países árabes credenciados no Brasil eram três: Síria, Líbano e Egito. A USP escreveu para esses três países e, para sorte minha – este é um país maravilhoso –, só o Egito respondeu afirmativamente. O presidente Nasser, em atenção a Jânio Quadros, empenhou-se pessoalmente para que a Universidade designasse também um professor para o Brasil e, como disse, esse não era um problema de fácil solução. Como não houvesse resposta por parte da Universidade, uma semana depois, o presidente Nasser tornou a exigir uma solução rápida para o caso. Daí a 11 dias, veja só, chegava eu ao Brasil! O primeiro projeto previa a permanência de um ano como professor visitante, mas, quando o pedido chegou ao ministro da Educação, ele ponderou que só um ano para o Brasil era muito pouco e propôs dois anos. Enfim, cheguei aqui com muito entusiasmo e, no dia seguinte, já me encontrava na faculdade com seu diretor, o saudoso Mário Guimarães Ferri, que me recebeu muito bem, e logo disse a ele: ‘Eu quero começar’. Veja bem, eu cheguei no dia 1º de maio de 1962 e o curso principiou em setembro, como curso livre. E comecei a dar aulas sozinho nos três períodos: manhã, tarde e noite. Em 1963, teve início o curso regular: com uma aluna! O governo egípcio interessou-se pela minha permanência no Brasil e, sem me consultar, custeou a prorrogação de meu contrato por mais dois anos, depois por outros dois e, assim, por oito anos. Estive sozinho durante os primeiros sete anos”.
E assim, graças ao empenho de Nasser e Nasr, São Paulo finalmente ganhou um espaço acadêmico, de excelência, à altura de sua colônia árabe. Nasr foi a “missão árabe” para a USP: um jovem professor, sozinho, devotando-se, a partir do árabe, a estabelecer a abertura para a totalidade do humano, que é, afinal, a própria essência da universitas.

O professor Helmi Nasr, tradutor do Alcorão para o português: mediador entre Ocidente e Oriente

Mas, naqueles começos, os estudantes atentavam também para outros aspectos: quem passava pela sala 4 da velha Maria Antonia, tinha a oportunidade de encantar-se com a extrema amabilidade e impecável elegância do professor recém-chegado “das Arábias”. Disfarçávamos o riso com as dificuldades que, então, ele tinha com o português: ao avisar aos alunos a data de entrega de tal trabalho, dizia: “Não tem escapamento!”. Ou ao comentar a enorme quantidade de templos muçulmanos: “No Cairo, temos muitíssimos mosquitos” etc.
Sua generosidade é ampla e incomensurável. No final dos anos 80, sob sua orientação, lançamos um ambicioso projeto editorial, que contou com colaboradores do porte de Roshdi Rashed, Cruz Hernández, Hassan Massoudy, Evanildo Bechara etc.: a Revista de Estudos Árabes, a revista Collatio (com a Universidad Autónoma de Madrid), dez livros da coleção Oriente e Ocidente etc.
Nessa mesma época, empenhou-se, com os autores deste artigo, em outra árdua missão, a criação do curso de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura Árabe, e mesmo depois de aposentado (em 1992), continuou voluntariamente nesse curso, desde o começo muito mais fruto do sacrificado empenho pessoal nosso do que de apoios institucionais.
Outros trabalhos importantes do professor Nasr foram a publicação de um pioneiro Dicionário Árabe-Português, a tradução para o árabe de Novo mundo nos trópicos, de Gilberto Freyre, e a monumental tradução, única em nossa língua feita diretamente do árabe, do Alcorão, com preciosas notas. Esse trabalho, entre tradução e revisões pela Liga Islâmica Mundial, em Meca, durou 22 anos e foi finalmente publicado em 2005, pelo Complexo do Rei Fahd, a instância mais oficial do Islã.

Salam e taríq – Helmi Nasr, assim, cumpriu uma impressionante profecia do Alcorão: aquela em que Allah confia aos árabes (2; 143, 142) a missão de serem “povo do meio”, mediadores entre Oriente e Ocidente.
Como se sabe, as palavras árabes tendem a acumular significados que, em outras línguas, são cobertos por diversas palavras distintas. Cabe aqui considerar duas delas. Salam (ou melhor, o radical s-l-m), que se costuma traduzir por paz, significa também unidade, integridade (física ou moral; Salym é o íntegro); é o mesmo s-l-m de islam, aceitação (da vontade de Deus). E taríq, que não significa só caminho, mas também jeito, modo pessoal de cada um fazer as coisas, o que facilmente se compreende, pois no deserto não há estradas delineadas, cada um busca fazer o seu caminho.
Tudo isso se aplica à vocação de Helmi Nasr, que desde jovem assumiu essa missão mediadora no Brasil: abrir no deserto caminhos que hoje podem ser trilhados por muitos, que talvez nem se lembrem de que a ele devem as facilidades que encontram agora prontas.
Sua carreira foi coroada em 2007, quando passou a integrar o seleto grupo (21 membros) do Conselho dos Sábios, instância máxima de eruditos da Liga Islâmica Mundial. Em plena atividade aos 90 anos, Helmi Nasr continua sua profética missão de mediação, abrindo caminhos ao andar, em missão de integração, paz, união: islam, salam.

Aida Hanania é professora titular aposentada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP
Jean Lauand é professor titular sênior da Faculdade de Educação da USP e docente da Universidade Metodista de São Paulo (Imesp)