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Aquecimento global: menos mito e mais ciência

Publicado por admin - Monday, 10 September 2012

TÉRCIO AMBRIZZI E PAULO ARTAXO

A Universidade de São Paulo tem destacado papel na liderança em pesquisa científica na área de mudanças climáticas. A criação do Núcleo de Apoio à Pesquisa em Mudanças Climáticas (Incline – Interdisciplinary Climate Investigation Center), dentro da chamada de incentivo à pesquisa da Pró-Reitoria de Pesquisa, gerou a possibilidade de integrar e potencializar colaborações essenciais nessa área intrinsecamente multidisciplinar, que demanda a realização de pesquisas integradas no País – fundamentais para garantir o forte embasamento científico das futuras estratégias de mitigação e adaptação às mudanças climáticas.
A Rede Clima, vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Mudanças Climáticas e o programa Fapesp de Mudanças Climáticas são iniciativas importantes que o Incline pretende reforçar como um programa integrado de pesquisas, aglutinando o “estado da arte” da ciência desenvolvida pela USP e possibilitando a necessária união dos esforços de pesquisa da Universidade sobre esse tema fundamental para o Brasil e para o planeta.
O Incline envolve mais de 58 pesquisadores da USP e acima de 90 colaboradores externos, organizados através de subprojetos integrados na temática de mudanças globais e em colaborações já bem estabelecidas com projetos em andamento pelos vários grupos que compõem o núcleo (ver o site www.incline.iag.usp.br).
Considerando apenas o número de pesquisadores da USP e suas diferentes áreas de atuação, será que não passamos da fase de discutir se o nosso planeta está aquecendo – o que é comprovado por diversas fontes de dados instrumentais de diferentes instituições internacionais desde o século 19 – para uma discussão do que devemos fazer com os avanços do conhecimento que estamos adquirindo ao longo dos últimos anos? Dados paleoclimáticos têm indicado que as concentrações de CO2, um dos gases de efeito estufa, estão quase 40% acima do observado nos últimos 800 mil anos. Será que o homem não tem alguma contribuição nisso?
Ondas de calor na Europa, com temperaturas recordes comparadas a dados dos últimos 500 anos, o furacão Catarina, na costa brasileira, nunca antes observado, degelo recorde do Ártico em 2012, enchentes e secas mais frequentes que as registradas no passado, entre outros fenômenos, não sugeririam uma resposta do sistema terrestre ao aquecimento da atmosfera que vem ocorrendo ao longo dos últimos 40 anos? A presença de vetores que transmitem doenças como malária e dengue, que têm encontrado um ambiente quente e úmido em regiões onde antes não existiam, tem mostrado evidentes sinais de avanço e impactos na saúde. Estudos de pesquisadores do Incline mostram claramente que a frequência de eventos extremos na cidade de São Paulo tem aumentado, inclusive durante os períodos mais secos do inverno, além de mudanças já detectadas nas estações chuvosas do nosso país.
Alguns menos familiarizados com modelos numéricos (baseados em equações matemáticas) dizem que muitos de seus resultados são fantasiosos e incorretos ou mesmo pouco confiáveis. Cabe ressaltar, no entanto, que diversas áreas da ciência se utilizam dessa ferramenta e que a tecnologia que temos disponível atualmente em carros, celulares, equipamentos hospitalares e muitos outros faz uso de simulações numéricas para estudar como tais equipamentos se comportam antes de serem fabricados. O mesmo ocorre nas ciências atmosféricas, com a vantagem adicional de podermos simular o clima presente e comparar os resultados com dados já conhecidos, antes de partirmos para análises do clima futuro, considerando o aumento de gases de efeito estufa. É claro que existem incertezas de diversas formas, mas o conhecimento tem avançado e a cada ano aumentamos mais nossa compreensão do complexo sistema climático.
Um exemplo de como esse avanço já conquistou a credibilidade da população em geral está no fato de que, há cerca de dez anos, ninguém acreditava muito em previsão de tempo com vários dias de antecedência. Atualmente, quem não presta atenção às previsões feitas nos vários meios de comunicação e não se programa para o final de semana?
Ainda assim, a mídia com frequência dá espaço a cientistas que negam a existência do aquecimento global devido à influência do homem, chamando-os de “céticos”. No entanto, esse termo é empregado erroneamente, pois todo bom cientista é um cético por definição, uma vez que procura entender a natureza através da pesquisa científica. Para responder às questões levantadas, o bom pesquisador busca suas respostas em dados observacionais e formula hipóteses, além de utilizar, inclusive, modelagem numérica para testar suas teorias. A todo esse procedimento damos o nome de método científico. Uma vez realizada a pesquisa, a mesma é submetida a revistas preferencialmente internacionais, para que seja primeiramente avaliada por outros pesquisadores e posteriormente publicada para orientar avanços da ciência.
Infelizmente, o que temos observado atualmente é que os “negacionistas” pouco têm contribuído para o avanço do conhecimento do clima. Um argumento frequentemente apresentado é que seus trabalhos são rejeitados pelas revistas especializadas. Talvez há dez ou 20 anos isso até pudesse ocorrer e ninguém realmente saberia. No entanto, com o uso da internet, um trabalho de valor, conduzido com o devido rigor científico e publicado na página do pesquisador, poderia ser acessado por milhares ou milhões de internautas e, dessa forma, ser avaliado devidamente.
Creio que a possibilidade de haver uma mudança do clima de origem antrópica deve ser fruto de intensa pesquisa, estudo e seriedade. É nossa responsabilidade o legado que deixaremos para as futuras gerações e o princípio da precaução deve ser utilizado, mesmo que haja incertezas sobre o quanto o homem está contribuindo para o atual aquecimento e o quanto é variabilidade natural.
Mesmo que consideremos ser o atual estágio do aquecimento 99% fruto de variabilidade natural e apenas 1% de origem antrópica, ainda assim deveríamos nos preocupar. Um amigo, uma vez, me perguntou: “Você voaria por uma companhia aérea que garantisse que 99% dos seus voos não caem?”. Ou seja, sabendo que 1% pode cair, o que você faria? Sendo assim, devemos tratar o aquecimento global com mais ciência e menos mitos.

Tércio Ambrizzi, diretor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, e Paulo Artaxo, professor titular do Instituto de Física da USP, são coordenadores do Núcleo de Apoio à Pesquisa em Mudanças Climáticas (Incline) da USP (www.incline.iag.usp.br).