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A arte de buscar palavras

Publicado por admin - Sunday, 9 December 2012

LITERATURA

“Tradução literária” é o tema do dossiê da nova edição da revista Estudos Avançados. Os autores refletem sobre as questões que envolvem as versões de um texto poético. E questionam a tradução como criação

LEILA KIYOMURA

As excelentes traduções de obras poéticas e narrativas estrangeiras que vêm enriquecendo a nossa vida cultural motivam a nova edição, de número 76, da revista Estudos Avançados, publicação do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP. Um fenômeno recente que resulta da expansão dos cursos de pós-graduação nas áreas de letras e ciências humanas.
“Uma nova geração de estudiosos das línguas modernas, clássicas e indígenas sinaliza a existência de bons cursos de Letras e, especificamente, de Tradução”, observa o editor, professor e crítico literário Alfredo Bosi. “A improvisação deu lugar à formação profissional, que tende a substituir o autodidatismo pelo estudo acadêmico sistemático.”
Bosi lembra, no entanto, a importância de poetas como Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Haroldo de Campos, Augusto de Campos, Carlos Drummond de Andrade, Henriqueta Lisboa, Dante Milano e José Paulo Paes, entre outros, assinando traduções exímias e sensíveis, mesmo fora do âmbito das universidades. ”Hoje, seriam brilhantes exceções.”
Diante desse movimento que enriquece a boa leitura, a revista Estudos Avançados debate e reflete sobre a arte de traduzir em um dossiê especial, que reúne artigos de estudiosos e tradutores. O jornalista, poeta, tradutor e crítico literário Ivan Junqueira abre a edição com a questão: “A poesia é traduzível?”.
Junqueira afirma que a primeira exigência que se deve fazer a um tradutor de poesia é a de que ele seja um poeta, “pois somente assim poderá enfrentar os desafios técnicos específicos desse gênero literário, como os do ritmo, da estrutura sintático-verbal, dos esquemas métricos e rítmicos, da linguagem metalógica, do jogo de imagens e metáforas e de todos os outros elementos que constituem a retórica poética”. No entanto, ressalta: “Isso não quer dizer, necessariamente, que a tradução de poesia seja mais difícil que a dos textos em prosa, que têm também sua especificidade e suas armadilhas próprias. Lembro aqui a dificuldade que devem ter enfrentado os tradutores de Joyce ou Guimarães Rosa, para ficar apenas com esses dois. Mas há outra exigência, e não menos crucial: a do duplo domínio do idioma para o qual se irá realizar a tradução e do idioma em que se encontra escrito o texto a ser traduzido”.
O professor e tradutor Mario Laranjeira, no artigo “Sentido e significância na tradução poética”, observa que a questão não é saber se a poesia é ou não traduzível. “Partamos do fato de que a poesia sempre foi traduzida e sempre o será, e examinemos, de preferência, a especificidade da operação tradutória que tem por objeto a poesia em sua manifestação textual mais característica: o poema.”
Laranjeira explica que “se pode traduzir poesia sem que nem por isso se faça tradução poética”. Tradutor de Poetas da França Hoje, livro lançado pela Editora da USP (Edusp) e pela Fapesp, ele defende que é importante encontrar o que constitui a manifestação do poético e verificar que operações, no ato de tradução, permitem fazer passar esse poético na tradução. “Noutras palavras, como traduzir um texto poético de maneira que ele seja manifestado como poesia na língua-cultura que o acolhe.”

Fidelidade – O romancista Rubens Figueiredo conta a sua própria experiência no artigo “Notas de um tradutor em 2012”. “Entendi que a principal preocupação na tradução de livros como os de Tolstói deve ser a de preservar traços de linguagem e de pensamento que nos parecem estranhos, que não se enquadram nos hábitos ou padrões dominantes entre nós”, observa. “É preciso pelo menos deixar transparecer que, subjacente a essas preocupações linguísticas, há uma visão do mundo e da história diversa, radicada na sociedade, onde aquela obra se formou.”
O poeta e tradutor Paulo Henriques Britto explica que a noção de fidelidade tem sido criticada e os tradutores literários de hoje tendem a levar a meta de fidelidade ao original mais a sério do que era comum há 50 ou 60 anos. “É à conclusão que levam estudos recentes, que comparam traduções feitas no Brasil em meados do século 20 com outras, a partir dos mesmos textos originais, realizadas mais recentemente. E, quando examinamos traduções do século 19, a diferença é ainda mais gritante. Não se está afirmando, é claro, que não havia tradutores no passado cujo trabalho fosse pautado pela meta de reproduzir do modo mais fiel possível as características do original, nos planos do sentido, da forma, do estilo; tampouco se quer dizer que não haja tradutores na atualidade que tomem liberdades excessivas com o original.”
Britto deixa claro que, hoje, uma típica tradução literária feita com competência tende a ficar sempre mais próxima do texto original. “Por que motivo o leitor exigente de hoje requer uma tradução que o aproxime tanto quanto possível da obra estrangeira e de seu entorno cultural, enquanto o leitor do passado preferia versões mais domesticadoras?”
O poeta faz uma reflexão interessante apontando a mudança do perfil do leitor de ficção. “Se em séculos passados a leitura de obras ficcionais era uma das principais fontes de entretenimento, hoje em dia a televisão preenche essa função de tal modo que não encontra competidores à sua altura. Por sua vez, o público menos intelectualizado de hoje tende, quando lê, a privilegiar outros gêneros que não o ficcional: a autoajuda, a história pop, a biografia ou autobiografia reveladora de uma celebridade. Assim, a leitura de ficção está cada vez mais restrita a um público diferenciado, com interesses mais estritamente literários. Para esse leitor mais exigente, é importante tanto quanto possível a experiência de leitura do original.”
A tradução de ficção, para o professor, tradutor e ensaísta Paulo Bezerra, tem como produto final a recriação, mas uma recriação derivada da criatividade do tradutor. “Logo, o processo tradutório é um processo criador e, por consequência, a tradução também é criação, pois nela interagem duas instâncias criadoras: o autor do original e seu tradutor”, defende. “Este parte de uma criação já concluída e a transforma em produto ‘secundário’, segundo expressão do ensaísta russo P. Topior, isto é, transforma-a em uma obra segunda, mas de valor equivalente, cuja realização exigiu um grau de criatividade diferente daquele empregado pela primeira instância criadora, mas, por certo, não inferior como criatividade.”
Bezerra cita o conhecimento, empenho e criatividade do tradutor para resolver problemas de formas de linguagem e um manancial de ditos e provérbios para resolver problemas que o original impõe. “Para construir essa travessia, o tradutor tem de passar por um processo criador semelhante ao vivido pelo autor do original, guardadas, é claro, as devidas diferenças e especificidades.”

Estudos Avançados, número 76, dossiê “Tradução Literária”
, publicação do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP (telefone 11 3091-3919), 414 páginas, R$ 30,00.