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Campus e cidade interligados

Publicado por admin - Sunday, 20 January 2013

Ciclopassarela sobre a Marginal Pinheiros vai unir a Cidade Universitária ao Parque Villa-Lobos e permitir a travessia de até 10 mil pessoas e mil bicicletas por hora em seus 500 metros de extensão

LEILA KIYOMURA

Os 459 anos de São Paulo são comemorados na Universidade de São Paulo com a assinatura da implementação da ciclopassarela que vai ligar a Cidade Universitária com o Parque Villa-Lobos. O projeto desenvolvido pelo Núcleo de Pesquisa em Tecnologia da Arquitetura e Urbanismo (Nutau) da USP foi anunciado pelo governador Geraldo Alckmin e pelo reitor João Grandino Rodas no dia 13 de dezembro do ano passado.

Com vias separadas de circulação para pedestres e ciclistas, a obra está orçada em cerca de R$ 80 milhões e deverá ficar pronta até meados de 2014, em parceria com o Banco Mundial. “Este será um grande ganho para a cidade”, afirma o governador. “E é o primeiro passo do Plano de Requalificação Urbana e Social das Marginais do Sistema Tietê-Pinheiros.”

Outra novidade divulgada pelo governador é o projeto de derrubada do muro da raia olímpica da USP e a sua substituição por uma grade. “A Cidade Universitária com o seu paisagismo poderá ser apreciada pelos paulistanos. A beleza da raia e do verde irá se integrar à paisagem urbana”, considera Alckmin.

Para o reitor, a ciclopassarela é um presente para São Paulo e, especialmente, para a Cidade Universitária. “Esse é um momento auspicioso para a USP. Em um ambiente cada vez mais sobrecarregado de automóveis, é fundamental pensar em meios alternativos de locomoção. Nada mais apropriado do que uma ciclopassarela para que a população possa acessar o campus com segurança”, afirma Rodas.

Alternativas para o muro de 2.500 metros de extensão que separa a raia olímpica da Marginal Pinheiros – motivo de muita polêmica de urbanistas e paisagistas que há anos reivindicam a sua retirada – também serão objeto de estudo. “Há um conjunto de ações e medidas que precisam ser repensadas nessa substituição”, salienta o reitor.

Contemporânea – A pé ou de bicicleta… Nas pranchas desenhadas pela equipe do Nutau, o projeto da ciclopassarela vai se tornando realidade. E já dá para imaginar o movimento dos estudantes, professores e funcionários livrando-se do trânsito e cortando o caminho pelo Parque Villa-Lobos e depois atravessando a marginal em poucos minutos pedalando ou caminhando com segurança. A passagem vai garantir maior conforto aos que trabalham e estudam na USP e também para os paulistanos em geral. São apenas 500 metros de travessia, fazer o trajeto de carro exige uma volta estressante em meio a um trânsito sempre pesado.

Os coordenadores do projeto, Bruno Roberto Padovano e Roberto Righi, ambos professores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, garantem que a ciclopassarela será baseada em princípios contemporâneos. “Ao mesmo tempo em que incentiva a mobilidade a pé ou de bicicleta, ela integra a USP e a cidade”, explica Padovano. “O projeto dá início à implantação do Plano de Requalificação das Marginais, que orientará no curto, médio e longo prazos o processo de transformação viária, funcional e da paisagem das margens dos rios Pinheiros e Tietê. Eles possuem um papel relevante no aglomerado metropolitano, que possui cerca de 20 milhões de habitantes e produz 57% do Produto Interno Bruto do Estado de São Paulo.”

A ciclopassarela vai facilitar também o acesso ao transporte coletivo, especialmente estações de trem e metrô. “Historicamente, o traçado urbanístico do campus adota um modelo segregado de cunho modernista, comum a inúmeras universidades tradicionais nos Estados Unidos e Europa”, observa Righi. “Nesse modelo, os edifícios que abrigam funções de ensino, pesquisa e administração se distribuem de forma segregada por uma área ampla formada por parques e por alamedas, ruas e estacionamentos. Devido à inexistência de estruturas de apoio aos deslocamentos a pé e bicicleta, pequenos percursos são percorridos desnecessariamente com automóvel, e essa priorização traz sérios problemas, piorando a qualidade do ar e levando a acidentes de trânsito e marginalização dos pedestres e ciclistas.”

Padovano e Righi destacam que o projeto foi desenvolvido em sintonia com o Plano Diretor da Cidade Universitária, que já apontava para a construção de um eixo perpendicular ligando a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) ao Parque Villa-Lobos. “Nós aliamos os conceitos atuais de sustentabilidade à avançada tecnologia de sistemas”, garante Padovano.

Nova identidade – Os especialistas do Nutau pesquisaram cada detalhe do desenho da passarela. Eles optaram pela forma de um “S” muito sutil, mas que tem um papel estrutural importante. “Essa forma principal duplamente curva absorve as forças horizontais num vão de 500 metros”, descreve Padovano. “A adoção, como sustentação da ciclopassarela, de dois mastros principais com 42 metros de altura e dois secundários com 18 metros de altura resulta em um conjunto com grande expressividade plástica e dá uma personalidade para quem entra na cidade e passa pela Marginal Pinheiros.”

Os estais ancorados previstos no projeto permitem que na haja conflitos com o sistema construtivo no interior da passarela. “Isso vai proporcionar uma visualidade desimpedida da paisagem urbana pelas laterais da ciclopassarela”, descreve Righi. A configuração dos estais é em harpa e suas ancoragens localizam-se na região central da viga caixão. “Essa viga e a laje solidária serão executadas em concreto protendido, uma tecnologia que garante maior resistência à tração”, completa.

A equipe do Nutau faz questão de apresentar os desenhos da ciclopassarela em projeção com sua integração no cotidiano da cidade. Há imagens de vários ângulos, inclusive noturnas, com os mastros iluminados. Elas compõem uma São Paulo de um futuro muito próximo com uma nova identidade.

Righi se dá o direito de planejar e sonhar. “Numa aliança entre a arte e a tecnologia será possível também produzir importantes produtos de entretenimento. A estrutura física da passarela se constituirá como suporte para performances de diversas naturezas, agregando tecnologia de ponta e pesquisa, num elemento urbano transformador da morfologia urbana, bem como da sociedade”, afirma. “Nas margens do Rio Pinheiros, sob a ciclopassarela, haverá grandes decks para observação, compostos por espelhos d’água que terão, além de estações para o tratamento das águas e plantas aquáticas, recreação infanto-juvenil, com pedalinhos e treinos de remo.”

Padovano acredita que a ciclopassarela da USP será uma referência para a construção de outras. “Há vários pontos ao longo do percurso das marginais onde novas ciclopassarelas poderiam ser implantadas, como entre o Parque do Povo e o Jockey Club”, considera. Segundo Righi, a estrutura de quilômetros de ciclovias na área da Marginal Pinheiros e na região sudoeste de São Paulo exige mais conexões importantes. “É um novo paradigma para o tratamento das questões de mobilidade, que propõe solução econômica, ambientalmente correta e integrada de forma cirúrgica às funções e centralidades existentes e emergentes, criando articulação com os sistemas de fluxos de escalas superiores, metropolitanas e regionais.”

Benefícios – O projeto precisa ser aprovado na Assembleia Legislativa para que o edital possa ser lançado. A expectativa do governo do Estado e do Nutau é de que a aprovação ocorra no próximo mês de março para permitir o lançamento do edital e o início das obras.Se tudo andar como o previsto, a ciclopassarela deve ficar pronta até o final do primeiro semestre de 2014.

“A requalificação urbana das marginais dos rios Tietê e Pinheiros será feita a longo prazo, pois envolve diversas interfaces como: mobilidade, definição de novas pontes e passarelas aos parques e centralidades; questões jurídicas, mercadológicas e financeiras; gestão de questões hídricas, como enchentes e qualidade das águas; nova iluminação e calçamento; usufruto da cultura e lazer; recuperação de espaços degradados e de ocupação incompatível com o plano. Tudo isso trará em seu conjunto benefícios diretos e indiretos à sociedade”, esclarece Righi.

Para o professor, a ciclopassarela, por sua vez, poderá trazer reflexos positivos já no curto prazo. O docente da FAU lembra que é importante considerar que na Cidade Universitária circulam diariamente cerca de 100 mil pessoas. Aos sábados, cerca de 30 mil pessoas utilizam o campus como área de lazer e prática esportiva, e então é possível ver muito mais bicicletas do que nos outros dias da semana.

No Brasil, as iniciativas para intensificar o uso da bicicleta ainda são limitadas, mas caminham com rapidez – há cerca de 50 milhões delas no País. “O debate desenvolve-se e a mobilidade sustentável ganha o âmbito federal, no Ministério das Cidades e em administrações municipais, sintonizados com grupos organizados na sociedade”, ressalta Bruno Padovano. “As melhores experiências internacionais realizadas na requalificação de rios urbanos voltam-se à sua naturalização, ao incremento da acessibilidade de pedestres e ciclistas e da qualidade da paisagem”, conclui.