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Quando a vida é uma sinfonia

Publicado por admin - Wednesday, 15 May 2013

MÚSICA

O professor José Eduardo Martins, da ECA, é um dos músicos mais prestigiados na Europa. Com 25 CDs, a sua história está sendo contada em livro na Universidade Paris Sorbonne

LEILA KIYOMURA

O pianista José Eduardo Martins, referência para os estudantes de música do País e um dos professores que ajudaram a compor a história do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, recebe uma homenagem muito especial do Observatoire Musical Français, da Universidade Paris Sorbonne.

José Eduardo Martins, músico e maratonista: lição de vida

A trajetória do músico e pesquisador está na série Témoignages (Testemunhos), que tem como meta reunir os grandes músicos da atualidade, franceses ou estrangeiros, e registrar os seus estudos e reflexões. O livro José Eduardo Martins – Un pianiste brésilien é o quarto volume da coleção coordenada pela professora e musicóloga Danièle Pistone.
“Eu me senti muito honrado quando madame Danièle me informou que a próxima edição dos Témoignages seria sobre o meu trabalho”, conta Martins. “A série, lançada em 2008, trouxe anteriormente três músicos ilustres: Maria Paz Santibañez, Jean-Louis Orengia e Serge Nigg.”
O projeto editorial tem uma proposta inusitada. A personalidade escolhida responde questões sobre temas variados abordados por dois musicólogos. No livro de 103 páginas, Martins foi entrevistado pelo brasileiro José Francisco Bannwart, com doutorado e especialização na Sorbonne, e pelo compositor e pensador francês François Servenière. Eles indagaram sobre a sua trajetória, sua carreira em Paris, as personalidades com quem conviveu e também questões polêmicas sobre a realidade e os desafios da cultura erudita diante da cultura de massa, o desaparecimento da crítica musical, a relação entre técnica e cultura e o papel do artista moderno dentro da universidade.
“O livro foi a oportunidade de divulgar a minha visão e reflexões sobre os desafios do estudo da música na atualidade”, observa o professor. “Tive a oportunidade de fazer uma crítica aos concursos de instrumento, que revelam cada vez mais intérpretes de grande habilidade, mas que, por força do sistema, são substituídos por levas de outros vencedores nas dezenas de concursos anuais na Europa, preferencialmente. Também apontei a inexistência do crítico conhecedor que sabe descobrir o talento do jovem promissor. O que existem são cronistas que incensam ídolos consagrados. Hoje, geralmente, são jornalistas de origem, mormente no Brasil, que se autodenominam críticos musicais.”
Témoignages é a oportunidade de Martins orientar os jovens músicos da França e de outros países. “É importante saber entender o seu recado. Estar sempre preparado. Saber ouvir não apenas música, mas tantas vezes uma só frase exemplar, que pode ter profunda influência na interpretação.”

Harmonia no cotidiano – O paulistano José Eduardo Martins surpreende com os seus 74 anos bem afinados. Uma energia que não vem só da lista dos 25 CDs gravados na Bélgica, Bulgária e Portugal – entre os mais requisitados na Europa –, interpretando Henrique Oswald, Claude Debussy, Scriabine, Jean-Philippe Rameau, Gabriel Fauré, Francisco de Lacerda, entre outros. Ou do brio de sua história no Departamento de Música da ECA. Mas da satisfação de ter saúde para descobrir, nos últimos anos, um ritmo desconhecido. Martins corre 12 quilômetros todos os dias. É um participante assíduo das maratonas da cidade e também do interior de São Paulo.
“Agora estou sempre correndo e garanto que tenho fôlego. Já participei até da São Silvestre”, diz, com orgulho, mostrando as medalhas que já conquistou e que estão entre as outras homenagens ao músico. A comemoração por viver tranquilo há 50 anos com a mulher Regina, também pianista, tem um motivo especial. “Em 2004, o médico, depois de ter constatado um linfoma, me garantiu que eu iria viver só mais seis meses.”
Com essa limitação, Martins resolveu tocar a vida. Como pianista exímio, surpreendeu a medicina. Certo é que decidiu andar para garantir o equilíbrio. Começou com 300 metros e um blog para registrar melhor o tempo. Hoje, tornou-se um assíduo blogueiro. Suas crônicas sobre música, livros, cidade e assuntos diversos – que podem ser lidas no endereço www.joseeduardomartins.com – atraem a cada semana 2.500 visitantes de todo o mundo. E já foram transformadas em uma série de três livros intitulados Crônicas de um observador, da Editora Pax e Spes. Agora, o atleta também ganhou tempo. Tanto corre como toca. E ainda escreve. Irá lançar, em breve, o livro Impressões sobre a música portuguesa, pela Editora da USP (Edusp), Uma edição esgotada que foi publicada, em 2011, pela Universidade de Coimbra, em Portugal. E estuda para produzir o próximo CD, também em breve. Será gravado no mesmo lugar de sempre: a capela Saint Hilarius, em Mullem, na Bélgica.

Mais informações sobre o livro José Eduardo Martins – Un pianiste brésilien podem ser obtidas no endereço www.omf.paris-sorbonne.fr.