Home » Especial

No coração das ilhas gregas

Publicado por admin - Thursday, 23 May 2013

ARQUEOLOGIA

Após dez anos de pesquisas no santuário de Hera em Delos, equipe coordenada pela professora Haiganuch Sarian, do MAE, está prestes a demonstrar que a história daquela ilha – considerada sagrada na Antiguidade – precisa ser repensada

SYLVIA MIGUEL

O romance adulterino entre Zeus e Leto explica, na mitologia grega, o surgimento da ilha de Delos. Localizada na região meridional do Mar Egeu, Delos está no centro de um agrupamento circular de pequenas ilhas que formam as chamadas Cíclades – sendo Mikonos, Naxos e Santorini algumas das mais conhecidas desse conjunto. Ao ver a gravidez de Leto, Hera, a esposa de Zeus, tomada por ciúme, manipula Gaia (Terra) para impedir que Leto encontre um lugar na terra onde possa dar à luz. Posseidon comove-se com a situação de Leto e faz aflorar a ilha de Delos para que a amante de Zeus dê à luz. Numa ilha flutuante, Gaia não poderia exercer seu poder supremo, e assim nascem os deuses gêmeos Apolo e Ártemis.
Com apenas cinco quilômetros de comprimento norte-sul e 1.300 quilômetros de largura leste-oeste, essa pequena porção geológica dominada por aglomerados de gnaisse, granito e jazidas de mármore atraiu peregrinos de toda a Grécia. Entre os atrativos, hospedava, entre outros, o Santuário de Apolo. Posto comercial próspero, tornou-se testemunha única das sucessivas civilizações do mundo Egeu que por ali passaram, desde o terceiro milênio antes de Cristo até a época paleocristã (aproximadamente do início do século 2 até o final do século 5).
Em sua passagem, micênios, dórios e jônios deixaram em Delos um sítio arqueológico extremamente extenso e rico: a admirável cerâmica da época micênica (entre 1400 a.C. e 1200 a.C.), usada nas oferendas a Apolo; os leões de Delos atestando a influência cultural de Naxos sobre a ilha entre os séculos 7 e 6 a.C.; e ainda a supremacia política de Atenas sobre a Delos arcaica de meados do século 6 a.C., revelada nos vestígios sobre o sistema político nacionalista do pan-helenismo.
Finalmente, ao final de 167 a.C., quando o senado romano entregou Delos aos atenienses, inicia-se um período de grande cosmopolitismo e o local passa a congregar gregos de todas partes, italianos, egípcios, sírios, fenícios, judeus e samaritanos, que deixam marcas profundas nas edificações. Até uma comunidade cristã é erguida por volta do século 3, como atestam vestígios de igrejas, sendo a mais importante a Basílica de São Círico. Eslavos, sarracenos e outros povos invadem a ilha, conquistada em 1566 pelos turcos. Tal domínio perdura até 1821-1827, época da guerra entre gregos e turcos que culminou com a independência da Grécia.
Tudo isso numa pequena extensão de terra. Altamente justificável, portanto, que Delos fosse designada Patrimônio Mundial da Unesco em 1990. Por essa razão, o notável trabalho de uma brasileira na “ilha sagrada” da Antiguidade projeta mais uma vez a arqueologia do País.
A professora aposentada do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP Haiganuch Sarian conduziu, de 2000 a 2010, seis missões a Delos, com resultados importantes e por vezes surpreendentes. O projeto O Santuário de Hera em Delos: Interpretações Antigas e Descobertas Recentes se tornou programa oficial da Escola Francesa de Atenas (EFA). Dirigido por Haiganuch na condição de membro estrangeiro e pesquisadora sênior da instituição, o programa contou com apoio não só da escola francesa, como também da Fapesp, do CNPq, das Capes e das Pró-Reitorias de Pós-Graduação e de Pesquisa da USP.
“O reexame de todo o material arqueológico existente levou-me a questionar a classificação das inúmeras categorias cerâmicas, das terracotas, dos fragmentos arquitetônicos e, do mesmo modo, a cronologia dos objetos e do monumento: dois templos, um mais antigo que o outro, um altar, um muro de períbolo e um muro de sustentação do terraço”, disse a professora durante palestra realizada no dia 9 de maio na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Purificação – Destacados eruditos, naturalistas, diplomatas, arquitetos, pintores e navegantes europeus legaram as primeiras descrições das ruínas de Delos, a partir do século 15. As primeiras missões arqueológicas no local iniciam-se a partir da criação da Escola Francesa de Atenas. Mas é em 1873 que se efetuam as primeiras escavações em Delos, tendo J. Albert Lebègue à frente.  A chamada Grande Escavação prosseguiu com Theophile Homolle, Maurice Holleaux e Pierre Roussel.
Os 130 anos de trabalhos arqueológicos por toda a ilha resultaram na coleção de referência Exploration Archéologique de Délos, atualmente com 40 volumes. Em alguns anos, essa publicação contará com as importantes contribuições da professora do MAE e sua equipe, que contou com múltiplas mãos de estagiários, graduandos, mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos brasileiros.

Utensílios descobertos no santuário de Hera pela equipe da professora da USP: exame do material arqueológico de Delos coloca em questão explicações tradicionais sobre a história da ilha

As descobertas apontam para uma cidade antiga dominada por um grande santuário pan-helênico consagrado a Apolo. Um dos mais prestigiosos sítios arqueológicos da Grécia e santuário de inúmeras divindades, a chamada “ilha sagrada” da Antiguidade ostentou ágoras, edifícios públicos e cívicos, teatro e habitações. Face ao divino acontecimento que tornou a ilha berço de Apolo e Ártemis, Delos tornou-se o mais importante santuário de toda a Grécia, pelo longo período entre século 8 a.C. e o século 1 d.C.
Sob o domínio ateniense, os cultos às divindades em Delos assumiram tamanha proporção que, no governo do tirano Pisístrato (meados do século 6), foi decretada a primeira purificação em Delos. Todas as tumbas avistadas a partir do santuário de Apolo e seus mobiliários funerários foram levados a Renéia, numa fossa que foi denominada a “fossa da purificação” pelos arqueólogos modernos. Esse episódio é narrado pelo historiador Heródoto (século 5 a.C.).
Um segundo ato de purificação, promovido por volta de 426 a.C., proibiu todos os enterramentos e também que grávidas dessem à luz naquele solo considerado sagrado. Os moribundos eram mantidos numa espécie de hospital em Renéia. Para esta ilha também eram levadas as parturientes. O fato é narrado pelo historiador Tucídides (século 5).
A ilha também é conhecida por sediar a Liga de Delos, a força militar organizada pelos atenienses durante as Guerras Médicas, em 477 a.C. O objetivo da Liga era proteger as cidades gregas de um ataque persa.

Heraion – Nesse enorme complexo de monumentos existe o Heraion, ou santuário de Hera. Estima-se que em toda a Grécia existam ao menos sete santuários dedicados à deusa grega. O Heraion em Delos foi escavado em 1911 por Pierre Roussel. Charles Dugas, André Plassart e Alfred Laumonier publicaram trabalhos sobre as oferendas votivas do Heraion em Delos, entre 1928 e 1956. Houve sondagens de verificação também efetuadas por Paul Bertrand, em 1953 e 1958, e por Jean Ducat, em 1964.
A partir do exame proveniente sobretudo do depósito votivo, isto é, das oferendas de vasos, a professora do MAE  percebeu a presença de vasos do período Geométrico Recente (750-700 a.C.), o que acabou por “reforçar a tese de uma data mais antiga para o culto de Hera naquele santuário”, disse.
O material cerâmico ático também pode ter data mais recente do que se acreditava (480 a.C.). Os achados reforçam o problema da cronologia tanto do santuário quanto do templo mais antigo, o Heraion I, e a datação do Heraion II, explicou a professora durante a palestra.
O altar, o “muro de períbolo”, o santuário e outras estruturas arquitetônicas poderão ter uma melhor datação, além de uma reconstituição mais fidedigna do templo de Hera e de um conhecimento mais qualificado da história do culto praticado em honra a essa deusa. “A reconstituição em desenho da fachada do templo II que se tem hoje pode não ser muito fiel. E um dos objetivos da pesquisa é refazer essa reconstituição”, disse a professora ao Jornal da USP.
Das diversas expedições anteriores às coordenadas pela professora Haiganuch, a reserva técnica do Museu Arqueológico de Delos conserva inúmeros objetos do Heraion I ainda a serem analisados. Por exemplo, os fragmentos de telhas planas e alguns fragmentos de simae de terracota mostrando que a decoração da sima consta de palmetas e de flor de lótus pintadas em vermelho púrpura.
Um períbolo, constituindo o recinto retangular de quatro muros que circunda os dois templos, estranhamente separa esses templos do altar dedicado a Hera. Até o momento, a interpretação para esse fato era que o períbolo era contemporâneo do Heraion II. “No meu entender, esse períbolo é contemporâneo do Heraion I, por diversas razões, entre elas o fato de que a fundação do muro constitui-se de lajes de gnaisse semelhantes às da fundação do templo I. Essa suposição explicaria a localização externa do altar que, na verdade, está fora do recinto retangular”, disse a professora. Além disso, escavações realizadas em 2008 revelaram um segundo muro de períbolo do século 8 a.C., que deve ser o primeiro muro do templo I.
A escavação efetuada pela equipe comandada pela brasileira também recuperou, entre outros elementos, a estrutura destinada a receber libações dos fiéis após os sacrifícios no altar. Além da cronologia do próprio altar, a professora acredita ter restituído ainda a sua estrutura original, uma vez que as evidências apontam que a restituição existente está equivocada.
Durante o período pós-escavação de 2010, a equipe dedicou-se quase integralmente à limpeza, numeração e armazenamento de aproximadamente mil objetos datados do século 8 a.C., constituindo fragmentos cerâmicos, metais e outros materiais, como marfim e osso. Dentre esses foram analisadas 350 peças do ponto de vista técnico e também decorativo.
As descobertas anteriores atestavam que o estado mais antigo do santuário de Hera seria situado em 700 a.C. Mas agora poderá ser datado do Período Geométrico Recente, isto é, na segunda metade do século 8 a.C., segundo a professora. A nova datação aponta que o culto a Hera talvez tenha precedido até mesmo os cultos a Leto, Apolo e Ártemis.

Ciúme – Hera está intimamente ligada à tríade Apolínea (Leto-Apolo-Ártemis) e possui várias versões literárias, das quais a mais completa e antiga é a que foi transmitida pelo Hino Homérico a Apolo, composto nos séculos 7 e 6 a.C.
Todos temiam a fúria da esposa legítima de Zeus, o deus dos deuses, de quem Hera fora irmã e esposa. Vingativa, lutava contra as traições do marido. Entre suas maiores rivais está Afrodite, a deusa do amor.

A professora Haiganuch Sarian: dados inéditos sobre Delos

A personalidade forte, marcada pela agressividade, orgulho e ciúme, domina as narrativas sobre Hera, que mostrava apenas os olhos aos mortais e apresentava-se sempre com uma coroa de ouro na cabeça. A divindade é associada à proteção do casamento, das mulheres e dos nascimentos.
Em alusão à mitologia, a professora do MAE assinala a distância que separava os templos do Heraion. “Em primeiro lugar, é possível dizer que os delianos quiseram, ao consagrar o santuário de Hera, afastá-la de seus inimigos e da rival Leto; e, mais ainda, por que um Heraion teria sido erigido em Delos, quando a grande divindade da ilha é Apolo?”, questiona.
Os estudiosos dessa questão aceitam a explicação de Charles Picard, emitida pela primeira vez em 1930: pelo fato de Delos ser hostil a Hera, os delianos procuraram agradar a deusa através de uma devoção interesseira, aplacando-lhe a ira com um culto “expiatório”.
Mas a cronologia a que a equipe brasileira chegou apresenta incertezas quanto a essa explicação. No momento, as pesquisas apontam que o Heraion I é o mais antigo templo da ilha, anterior, portanto, aos templos da tríade Apolínea.
“Mero acaso das descobertas arqueológicas? Ou o culto a Hera terá sido anterior aos cultos a Apolo, Ártemis e Leto? A prudência nos ensina que um culto pode ser bem anterior às mais antigas manifestações materiais observadas pela arqueologia. Ou será necessário repensar a história sagrada de Delos?”, questiona a professora do MAE.