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Resurget ex favilla

Publicado por admin - Monday, 17 June 2013

EDUCAÇÃO

“Renascer das cinzas.” Essa é a proposta de um projeto da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP que pretende reintroduzir o grego e o latim nas escolas públicas. A experiência vem sendo testada numa escola municipal próxima à USP e já ganhou a aprovação geral dos alunos

SYLVIA MIGUEL

Um tipo particular de educação. Impulsiona o aperfeiçoamento da proficiência na língua materna. Facilita a aprendizagem de línguas estrangeiras. Desenvolve a lógica e o pensamento crítico. Os argumentos favoráveis ao ensino do latim e do grego são muitos. A introdução dessas línguas na grade curricular virou tendência em algumas das mais tradicionais escolas alemãs e inglesas. A prática tem mostrado ser muito mais que um objeto de distinção na educação de crianças e adolescentes, já que promove a melhora do desempenho acadêmico dos alunos e o raciocínio voltado à solução de problemas.
No Brasil, décadas atrás, o latim fazia parte da grade curricular. Mas hoje nenhuma escola pública ou particular oferece isso. A novidade foi introduzida em fevereiro na Escola Municipal de Educação Infantil Desembargador Amorim Lima, no Butantã, região oeste da capital paulista. Durante um ano, duas vezes por semana, as crianças do 4º, 6º e 7º anos contarão com aulas de grego e latim, como parte do Projeto Minimus: Grego e Latim no Ensino Fundamental, coordenado pela professora Paula da Cunha Correa, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. “Era para ser um curso extracurricular, mas a diretora se entusiasmou com o projeto e o introduziu na grade curricular”, comemora a professora.
Com verba de fomento da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP no valor de R$ 20 mil, o projeto conta com três estagiários e 20 monitores de graduação e pós-graduação da USP, que se revezam nas salas de aula de manhã e à tarde.
O método das aulas de grego é o Athenaze (Oxford University Press, 2003) e o de latim é o Minimus (Cambridge University Press, 1999). Os alunos de pós-graduação de grego e latim traduziram o método e são os responsáveis por produzir o material didático que circula nas salas de aula.
“Em todas as salas juntamos grupos de até cinco alunos e assim desenvolvemos roteiros de pesquisa. As atividades em classe, as oficinas e as experiências dos laboratórios são realizadas em grupos. Aula expositiva, mesmo, só quando necessário”, afirma a diretora da escola, Ana Elisa Siqueira.

A professora Paula Correa: teatro, mitologia, língua e cultura grega

A diretora prefere não rotular a proposta pedagógica do colégio, introduzida desde 2004 e inspirada nos moldes do Colégio da Ponte, de Portugal. “É um método baseado em roteiros de pesquisa, que incentiva a autonomia do aluno. E tem dado resultados muito positivos. Melhor não dar nomes ou associar a essa ou àquela linha pedagógica. É um projeto que nunca está acabado e todas as possibilidades de mudanças são conversadas e adotadas com a comunidade.”

Gramática – Mesmo com as aulas diferentes, em grandes salas, misturando crianças de todas as idades, e mesmo com os projetos especiais envolvendo desde arte e música até cultura popular e culinária, as crianças não entenderam muito bem no início por que aprender línguas “mortas” como o grego e o latim. Mas o estranhamento inicial virou gosto.
Sobre as aulas de grego, Tarsila Souza, do 7º ano, diz que gosta porque é uma língua diferente. “E porque ajuda a aprender a raiz da nossa língua. E os professores são legais”, diz.
Sávio Campos de Souza, do 7º ano, diz que aprender grego ajuda a identificar melhor os verbos, o sujeito, enfim, a entender gramática. “Ajuda no português. E também é uma cultura extra”, atesta.
O projeto buscou adaptar-se à dinâmica da escola. “Trabalhamos com três, às vezes quatro professores por turma, para que, na ausência de um deles, os alunos possam contar com um professor conhecido e que acompanha diariamente a matéria e o ritmo de estudo desenvolvidos na sala de aula”, afirma Paula.

Ana Elisa: metodologia diferenciada

Cultura – A programação das aulas prevê ao final de cada mês uma aula especial mostrando aspectos da cultura grega e latina, envolvendo teatro, religião, mitologia e outros, ministrada por docentes e discentes do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. “Já tivemos aula sobre teatro grego, em que foi encenada uma peça de Aristófanes. Também são contados mitos para que os alunos desenvolvam o repertório de mitos da tradição clássica. As aulas especiais também terão como tema a filosofia, a historiografia antiga, a épica e a poesia lírica, de forma que as crianças possam ter um repertório sobre diversos gêneros de literatura e artes clássicas e seus autores”, afirma Paula.
Para prosseguir o trabalho, a professora espera conseguir mais recursos no ano que vem. “Em agosto, devemos receber da Fundação Onassis USA uma doação de US$ 12.960,00 para bolsas de um ano para os monitores, o que ajudará, mas não cobrirá tudo”, afirma Paula.
Segundo a coordenadora, a finalidade geral do projeto é reintroduzir o ensino do grego e do latim na escola pública. No caso da Amorim Lima, para os alunos que já terminaram o ano letivo, a continuidade do projeto poderá ocorrer na forma de curso extracurricular. “Estamos pensando em oferecer essa possibilidade para os que tiverem interesse em prosseguir o aprendizado dessas línguas”, afirma Paula.
“A ideia de melhorar a cultura geral dos alunos a respeito dos conceitos e formas que fundaram a nossa civilização é um enorme ganho. E se, além disso, conseguirmos melhorar o desempenho dessas crianças em outras áreas do conhecimento, então já teremos atingido nossos objetivos”, afirma Paula.