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Busca pelos limites da vida

Publicado por admin - Monday, 17 June 2013

OCEANOGRAFIA

Em parceria com pesquisadores do Japão, professores do Instituto de Oceanografia da USP participam de mergulhos em águas profundas da costa brasileira e observam espécimes ainda desconhecidos da flora e da fauna oceânica

IZABEL LEÃO

Sabemos muito sobre galáxias, estrelas e planetas. Conseguimos até mesmo identificá-las com nossos próprios olhos. Já o mar profundo é desconhecido e ainda há muito o que descobrir sobre ele. Em busca de explorar esse território ainda misterioso, pesquisadores do Instituto Oceanográfico (IO) da USP, em parceria com cientistas japoneses, mergulharam no Oceano Atlântico Sul, a mais de 4 mil metros de profundidade, para coletar material para pesquisas e conhecer os seres que habitam ali.
Os primeiros resultados da expedição, obtidos de dois pontos distantes da costa brasileira, a bordo do minissubmarino Shinkai 6500, da Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia da Terra e do Mar (Jamstec), apresentam fotos inéditas da biologia e da geologia, compondo ecossistemas do mar profundo nunca antes explorados. Esses resultados foram apresentados no dia 27 de maio, em evento realizado no auditório da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, que reuniu os participantes brasileiros e japoneses do projeto.
O biólogo Paulo Sumida, professor do Instituto Oceanográfico da USP, um dos seis brasileiros integrantes da equipe de mergulho da expedição Iatá-Piuna (“navegando em águas profundas e escuras”, na língua tupi-guarani), explica que essa experiência só foi possível devido à parceria com os japoneses, que trouxeram equipamentos de alta tecnologia que possibilitam visitar esses ambientes extremos ao vivo e in loco. O professor Michel Mahiques, diretor do IO, destacou: “Essa experiência representa um salto de qualidade e abre perspectiva de trabalho em uma área de atuação ainda rara. Também mostra que o IO desenvolve ciência de alto impacto”.

Fauna e flora pouco exploradas: descobertas

Em alto mar – A equipe permaneceu em alto mar, no navio Yokosuka, por 50 dias, realizando sete mergulhos a bordo do submersível Shinkai, cinco deles no Dorsal de São Paulo – um grande paredão submerso na borda da plataforma continental do Sudeste – e dois na Elevação do Rio Grande, uma enorme chapada totalmente submersa a 1,5 mil quilômetro da costa do Rio, com montanhas que se elevam cerca de 4 mil metros acima do assoalho marinho, já em águas internacionais.
O objetivo dos mergulhos foi estudar a fauna profunda e a microbiota do Dorsal e da Elevação do Rio Grande e procurar ambientes chamados quimiossintéticos, baseados em micro-organismos que sobrevivem totalmente isolados da luz solar, alimentando-se diretamente de substâncias químicas que exalam do subsolo oceânico ou crescem sobre carcaças de baleias.
Os pesquisadores observaram das janelas do Shinkai fontes hidrotermais, exsudações frias, fossas oceânicas profundas, peixes, corais e anêmonas que vivem nesse ambiente de condições extremas, a fim de desvendar suas estratégias de sobrevivência.
Um dos dados importantes coletados foi a confirmação de que  a base geológica da Elevação do Rio Grande, assim como do Rio de Janeiro, é de rocha granítica – um tipo de rocha que só se forma na superfície. “Esse é um forte indicativo de que a elevação esteve conectada ao continente num passado distante, apesar de hoje estar separada dele por mais de mil quilômetros do oceano”, explica Paulo Sumida.

O minisubmarino Shinkai e o navio Yokosuka: viagem às águas profundas do Atlântico

Outro fato que causou surpresa entre os pesquisadores foram as imagens captadas pelo Shinkai, no topo da Elevação, mostrando grandes depósitos de areia de quartzo a quase mil metros de profundidade, o que pode ter sido formado pela erosão de granito pelas correntes marítimas, fato este a ser comprovado por pesquisas.
A parceria com os japoneses não se resumirá a esses mergulhos em águas profundas. Segundo Sumida, o programa inclui troca de pesquisadores e alunos de graduação e a criação de um curso de pós-graduação em desenvolvimento tecnológico.

Alienígenas – “Espetacular” é a expressão usada por Paulo Sumida para relatar sua experiência de mergulho em águas profundas. “Parecia que estávamos numa paisagem alienígena, sem luz, com pouquíssimo alimento e vida. Descer os 4,2 quilômetros e imaginar que toda essa água está sobre a nossa cabeça nos mostra o quanto somos pequenos e que pouco sabemos do nosso planeta”, complementa.
Sumida relata que o solo marinho é formado por rochas vulcânicas capeadas por crostas cobaltíferas, também conhecidas como crostas de ferro e manganês. Às vezes formam nódulos, conhecidos como nódulos polimetálicos. O pesquisador explica que essas rochas têm grande valor econômico, porém são ainda inexploradas mesmo mundialmente.
Na descida com o submersível, Sumida pôde observar organismos bioluminescentes entre 200 e 1.000 metros de profundidade, chamada de zona de mesopelágica ou twilight zone.
Sobre a fauna do mar profundo, Sumida afirma ser muito diferente do que conhecemos devido às “incríveis adaptações” que os animais sofrem para conseguir sobreviver. “Por exemplo, existem ali pepinos-do-mar transparentes e bioluminescentes capazes de nadar, peixes de aparência esquisita, movimentando-se lentamente para não gastar energia, e camarões de coloração vermelha, que passam despercebidos em áreas onde apenas a luz azul é capaz de chegar.”
Outra cientista do Instituto Oceanográfico da USP que também participou do mergulho foi a professora Vivian Pellizari, cujas pesquisas são voltadas para o ciclo biológico do metano em diversos ambientes. Ela nunca havia tido a chance de coletar amostras dessas áreas de escape de gás metano do assoalho oceânico, chamadas cold seeps, onde há rica vida associada e composta principalmente de bactérias oxidadoras de metano, que crescem formando tapetes coloridos nos sedimentos. Seu sonho foi realizado com essa expedição num submersível tripulado para observar esses micro-organismos ao vivo e in situ. “Coletamos muitas amostras e os resultados serão muito importantes para sabermos quais são os micro-organismos presentes em mar profundo no Brasil e compará-los aos de outras áreas de mar profundo no mundo”, comemora.
O Shinkai 6500, além do Oceano Atlântico, visitará o Oceano Índico, o mar do Caribe e o Oceano Pacífico Sul. O nome da viagem é Quelle, expressão que se refere à busca pelos limites da vida.
O diretor de pesquisa do Instituto de Biogeociências da Jamstec, Hisroshi Kitazato, explica que a escolha das águas profundas do Hemisfério Sul foi definida quando cientistas de mais de 80 nações participaram do Censo da Vida Marinha, em 2000, e concluíram ser importante expandir a compreensão da diversidade e da distribuição dos organismos marinhos. A maior parte do Hemisfério Sul é praticamente inexplorada.