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Reflexões sobre um passado não tão distante

Publicado por admin - Monday, 17 June 2013

HISTÓRIA

Violência, sensibilidade e solidariedade marcam os relatos de três professores da USP que escrevem os primeiros volumes da coleção Memória Militante, da Editora Com-Arte, dedicada à divulgação de textos de professores da Universidade que vivenciaram a repressão do regime militar

SYLVIA MIGUEL

– Sabe de uma coisa, tchê? Essa menina já morreu há muito tempo.  O melhor é encerrar esse episódio.
E, sacudindo a cabeça, como quem quer espantar uma ideia:
– Como está não dá mais… Eu tenho até pena dela!
Magnani ergueu-se colossal. O indicador cortava o ar da sala em pedaços desiguais.
– Não tenha medo, não, Antunes! O negócio vem lá de cima. Ordens são ordens.
(…)
Monteiro abriu a porta, deixando passar o delegado. Um bafo indefinível de suor e sangue fresco golpeou-lhe o rosto. Antunes recuou e, com o pé, manteve a porta aberta. Ante a luz surreal de um halogêneo vermelho, Antunes viu finalmente sua definitiva vítima, totalmente despida, pendurada no “pau-de-arara”.

Aluno de colégio militar, filho de militar do Exército, classe média que conheceu a esquerda, Antunes é o delegado que teve a “sorte” de ser transferido para a “99”, delegacia que estava numa área de interesse da segurança nacional e onde a presença do Codi (Centro de Operações de Defesa Interna) modificara de modo irreparável as “disfunções normais” de um serviço policial. A “maquininha”, a “moedeira”, o “corredor polonês”, o “braseiro”, o “banco de sangue”, o “circo de cavalinhos”, o “arrepio” e o “galinheiro” eram as múltiplas faces de um mesmo objeto, o medo.
Torturar, massacrar um preso comum era um ato há muito sancionado pela sociedade. O pobre marginal era transformado em excremento humano já na sua chegada à delegacia. Por certo não cabia a Antunes opor-se à marcha nacional das aberrações. Mas um preso político? Isso muda tudo. A violência contra presos políticos era antinatural. E se o partido que o havia sondado quisesse elegê-lo para deputado? Além do mais, Antunes não estava convencido da eficácia desses métodos contra presos políticos.
Imagens violentas, vistas e imaginadas durante os anos de chumbo. A deturpação do caráter. A culpa. A arrogância. A perversão. No livro A surda, tudo isso está presente. Os personagens se tornam verdadeiros numa trama de ficção contada por Wilson do Nascimento Barbosa, professor de História Econômica do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. O autor empresta seus conhecimentos de retórica, poética, história e filosofia para levar o leitor à realidade fantástica de personagens que expressam a mentira através da verdade. Ou vice-versa.
O livro A surda é um dos volumes da coleção Memória Militante, que será lançada nesta quinta-feira, dia 13, às 14 horas, no Departamento de História da FFLCH, pela Com-Arte, editora-laboratório do curso de Editoração da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. O lançamento ocorrerá durante a Semana Hobsbawm, uma série de eventos programados para os dias 13 e 14. Coordenada por Plinio Martins, presidente da Editora da USP (Edusp) e professor da ECA, Marisa Midori, também professora da ECA, e Lincoln Secco, professor da FFLCH, a coleção nasceu no contexto de recuperação de memórias políticas da história do Brasil, “num momento em que se fala de Comissão da Verdade e em que a sociedade busca conhecer mais do seu passado”, diz Martins.
O projeto didático da editora-laboratório dará vazão a depoimentos e textos de professores da USP que vivenciaram o regime militar (1964-1985) e momentos do golpe de 1964. O lançamento da coleção, nesta quinta-feira, trará três títulos. Além dos contos e narrativas ficcionais de Barbosa, a coleção estreia também com a militância solidária do professor Paul Singer, em seu Militante por uma utopia. O texto é, na verdade, o memorial acadêmico entregue pelo autor à Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP para a obtenção do cargo de professor titular, em 1983. É um deleite ver a trajetória do socialista democrático que defende a autogestão. E do economista militante cuja personalidade histórica está imbricada aos episódios marcantes do Brasil entre os anos de 1980 e 2002: inflação, desemprego e má distribuição de renda.
Conversa entre amigos é o terceiro volume da coleção Memória Militante, escrito pelo engenheiro Catullo Branco. O título, apropriado pelo tom quase confessional, leva o leitor a uma narrativa crítica sobre a história do Brasil. A perspectiva é a da experiência vivida ora pelo militante apaixonado, ora pelo cidadão patriota, ora pelo técnico preocupado com a linguagem racional e didática do texto.
Gustavo Piqueira, um dos designers gráficos mais premiados do País, criou as capas da coleção a partir de uma pesquisa iconográfica empreendida com os alunos do Laboratório de Editoração da ECA. “O aspecto de material mimeografado ou xerocado das capas remete às publicações proibidas da época retratada. Mãos sobrepostas e recortadas lembram o gestual do protesto. Um jogo de linhas verticais em preto e branco faz alusão às grades das prisões que tanto marcaram aquele período. É mais um presente do Piqueira para a nossa editora”, afirma Plinio.

“Galinhas-verdes” – A Escola Politécnica da USP, criada com esmero pelo professor Antônio Francisco de Paula Souza no início do século passado, ainda funcionava na avenida Tiradentes quando protagonizou episódios que hoje pareceriam contos da carochinha, não fosse o testemunho do engenheiro Catullo, relatado nas suas memórias, escritas no penúltimo ano de sua existência. “No entanto, mesmo para mim, que o acompanhei no último meio século, revelou aspectos novos ou pouco conhecidos, que marcaram sua vida”, escreve o professor Lincoln Secco, em seu texto de apresentação.
Catullo começa seu relato com as greves operárias, passando pela gripe espanhola de 1918 e a formação do PCB em 1922. Quando o serviço militar passou a ser obrigatório, uma linha de tiro foi instituída no currículo da escola e a frequência ao serviço militar passou a ser computada para a aprovação no fim do ano.
Catullo rememora o clima original da sociedade secreta Burschenschaft, que deixou seus resquícios na Faculdade de Direito da USP: o túmulo onde estão enterrados os restos de Júlio Frank, líder daquele movimento.
A crise de 1929 chegou. Conforme o sopro do vento, o cheiro forte de café queimado invadia São Paulo, relata. Em 1930 houve no País uma revolução, que não foi como o golpe de 1964. “Foi uma transformação social.” Em 1932 Catullo se voluntariou na Revolução Constitucionalista e mais uma vez aqui entra a sua escola de formação. “Entrei na revolução apresentando-me na Escola Politécnica, que se havia transformado em uma espécie de quartel general.”
Em 1934, os “galinhas-verdes” do movimento integralista, assim chamados devido a suas camisas verdes, fizeram um grande comício no Largo da Sé. Em meio a um cerrado tiroteio, um grupo fugiu e entrou no então Instituto de Engenharia. Alguns engenheiros que ali jogavam bilhar encontraram no mictório um monte de camisas verdes jogadas no chão. “Esse acontecimento ficou na história”, conta Catullo.
O autor critica a forma de realizar as finanças no partido a que pertenceu de 1936 até a sua morte. Relata a viagem a Cuba e o golpe militar de 1964. O autor, que termina seu relato com indicações de leitura, teve a sensibilidade de esperar o momento correto para divulgar suas memórias, sempre com a preocupação de não fazer prevalecer sua defesa individual em prejuízo de seus ideais, escreve Secco em sua apresentação.

Solidariedade – “Como o leitor sabe, a história continua. Escrito há vários anos, o memorial não podia conter em gérmen os papéis históricos que o autor desempenharia depois”, escreve o professor Lincoln Secco ao apresentar o texto do professor Paul Singer, selecionado para a coleção. Isso porque 30 anos nos separam da concepção desse memorial, o que não invalida a leitura desse Militante por uma utopia. Ao contrário, o texto dá substância e base para conhecer melhor a personalidade do pensador que concebeu Aprender economia (1983, Editora Brasiliense), A formação da classe operária (1985, Editora Atual) e o Curso de Economia Política, para citar só algumas de suas obras mais conhecidas.
A trajetória narrada desde a infância num subúrbio operário de Viena, na Áustria, passando pela emigração ao Brasil, aos 8 anos de idade, a pré-formação acadêmica e suas leituras, os estudos na USP e o início da atividade docente, até a concepção dos primeiros trabalhos que conceberam suas teorias iniciais sobre agricultura e desenvolvimento econômico. Está tudo lá, não só o relato, mas a sua forma particular de observar os fatos. E também suas preocupações sociais e a percepção aguda que permite pôr uma lupa sobre problemas que passam batidos por muitos.
O leitor não só conhecerá as visões do autor sobre as crises do capitalismo, o processo inflacionário, desenvolvimento, evolução urbana e desigualdades regionais, como também as ideias que levaram o autor a gestar seu trabalho de livre-docência. Nele, Singer chega a um modelo quantitativo capaz de relacionar crescimento populacional, taxa incremental de emprego/produção e crescimento da demanda por alimentos.
Seu nome aparece entre os professores “expurgados” das universidades brasileiras. Outros colegas que trabalharam nos estudos de O Capital, de Karl Marx, também entraram na lista. O trabalho intelectual prosseguiu então no Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). E o expurgo só serviu para aproximar ainda mais os laços de amizade e confiança do grupo. Solidariamente.

A coleção Memória Militante, da Editora Com-Arte, com os volumes de estreia A surda, de Wilson do Nascimento Barbosa, Conversa entre amigos, de Catullo Branco, e Militante por uma utopia, de Paul Singer, será lançada nesta quinta-feira, dia 13, às 14 horas, no Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP (avenida Professor Lineu Prestes, 338, Cidade Universitária, São Paulo).