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Por um Instituto de Arte e Audiovisual na USP

Publicado por admin - Friday, 28 June 2013

SÔNIA SALZSTEIN E LUIZ FERNANDO RAMOS

Há quase cinco décadas desenvolve-se na USP um modelo singular de escola universitária experimental, assentada em fórmula promissora de interação entre disciplinas práticas e teóricas. Ela não somente provê formação nas áreas de artes visuais, música e artes cênicas – o que, ademais, se espera de escolas dessa natureza – como também se estende ao campo do audiovisual, área que sinaliza hoje um horizonte ampliado da pesquisa estética e cultural.
Essa experiência vem sendo realizada a contrapelo da estrutura compartimentada que lhe pode oferecer a Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, para onde foram levados os cursos de artes da Universidade, aos quais, cabe lembrar, projetos antigos destinavam sede própria. Ela persiste, a despeito do não reconhecimento de um lugar institucional próprio. Sob a tutela do conjunto hegemônico dos cursos afeitos às comunicações, tal escola, que existe de fato, porém não de direito, não conta com congregação própria e com a respectiva constelação de órgãos auxiliares que regram a vida institucional, e, desse modo, as decisões que afetam seus destinos quase sempre lhe escapam, pois emanam de colegiados nos quais está sub-representada.
Sabe-se que a proposta de criação de uma escola de artes autônoma na USP antecede a criação da Escola de Comunicações Culturais, primeiro nome que se deu à ECA, em 1966, quando foi criada uma unidade voltada à formação profissional na área das então chamadas “comunicações”. De fato, a previsão de uma instituição dessa natureza já constava nos primeiros estatutos da instituição, de 1934, que estabeleciam uma “Escola de Belas-Artes”.
Quando, três décadas mais tarde, se cogitou novamente a criação de um Instituto de Artes – e agora com ambição, porquanto já se prevendo a natureza multidisciplinar da unidade –, setores da USP mostraram-se resistentes à ideia, conforme atesta o processo 4397/67 (no qual constam inúmeras moções de apoio ao projeto, assinadas por docentes da USP e especialistas de fora dela). Curiosamente, o fracasso dessa articulação parece ter sido motivado por arranjos que possibilitaram a incorporação, à citada Escola de Comunicações Culturais, em 1969, de alguns cursos de artes, daí tendo resultado a ECA. Esses arranjos frustravam, de todo modo, a criação de uma faculdade autônoma de artes, como ademais já existiam nas grandes universidades de padrão internacional. Em 1986, novo projeto, aprovado por unanimidade pela Congregação da ECA, com tramitação mais extensa e estudos mais avançados sobre o assunto, terminou inesperadamente arquivado quando estava prestes a ser submetido à apreciação do Conselho Universitário.
Em face desse histórico, o fato de que, em 1969, a Escola de Comunicações Culturais passasse a ser denominada Escola de Comunicações e Artes não assinala, propriamente, a culminação do projeto, longamente acalentado por setores expressivos do meio cultural e da própria Universidade, de um Instituto de Artes, mas a incorporação subsidiária dos cursos de artes àquela escola já estabelecida. Na verdade, esse histórico obriga-nos a admitir que a aposição do termo “Artes” ao nome da Escola de Comunicações apenas assinala o reconhecimento tardio, e àquela altura inevitável, das áreas de artes pela Universidade de São Paulo.
A partir dos anos 1980, e em ritmo mais decisivo na década subsequente, os cursos de Artes e Audiovisual oferecidos na ECA se ampliaram, tornaram-se mais complexos e consolidaram-se institucionalmente. Esse conjunto de cursos mostra hoje grande potencial de expansão, mas só poderá fazê-lo a contento com estruturas organizacionais e acadêmicas próprias. A esse respeito, lembremos que o Departamento de Música e o Departamento de Artes Plásticas formalizaram em época recente, respectivamente, projetos de criação de Bacharelado em Sonologia e em História, Teoria e Crítica de Arte, ambos encontrando-se em fase de tramitação. O Departamento de Artes Cênicas prevê o oferecimento de um Bacharelado em Dança, e os de Audiovisual e Artes Plásticas planejam ampliar o oferecimento de cursos em novas tecnologias de imagem e som.
Não se pode negligenciar, do mesmo modo, o potencial de expansão dos três programas de pós-graduação em Artes existentes na ECA: Música, Artes Cênicas e Artes Visuais, este último avaliado com nota 6 pela Capes, e do recém-criado Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais.  Há demanda para as áreas de arte-educação, gestão cultural, performance musical e artes performativas, de sorte que a criação de um Instituto de Arte e Audiovisual, capaz de gerir sua graduação e sua pós-graduação, por certo favoreceria o oferecimento de uma formação mais completa e orgânica nas áreas por ele contempladas.
Na atualidade, a área de arte e audiovisual define um perfil epistemológico muito particular: se é fato que se reporta, em sua origem, à estética e ao campo disciplinar tradicional, veio, ao longo do século 20, sendo continuamente pressionada por novas tecnologias de produção de imagens, ampliando-se e convocando áreas de conhecimento contíguas. As ciências sociais, a filosofia e a psicanálise, renovadas desde os anos 60, por exemplo, passaram a frequentar de modo decisivo o debate nessa área. A particularidade de tal perfil epistemológico reside no fato de que a área marca um modo de criação específico, com suas formas particulares de ensino e aprendizado, e uma jurisdição muito própria que se afirma sem embargo de seu caráter interdisciplinar.
A arte contemporânea e, em geral, o campo criativo de produção de imagens abrangem, hoje, procedimentos das artes audiovisuais, cênicas e performativas e torna-se urgente pensar um projeto pedagógico que permita aos alunos transitarem por todas elas em suas licenciaturas e bacharelados específicos. Se a Universidade pretende, de fato, responder aos desafios dessa nova realidade, a criação de um Instituto de Arte e Audiovisual torna-se imprescindível. Os docentes e alunos que estruturam esse projeto sabem que, apesar da resistência histórica a essa emancipação das artes na USP, ela é inevitável. Por que não enfrentá-la agora? Quem tem medo da divisão da ECA?

Sônia Salzstein é professora do Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP
Luiz Fernando Ramos é professor do Departamento de Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP