Home » 1009 (26 a 01.09.2013), Comunidade

Vocação para a internacionalização

Publicado por admin - Tuesday, 27 August 2013

COMEMORAÇÃO

Ao completar 60 anos de fundação, a Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP consolida projetos com instituições do exterior – o que acontece desde a criação da unidade, em 1953

CAMILA RUIZ
De Ribeirão Preto

A importância de uma instituição pode ser medida pelas funções e cargos que seus integrantes ocupam, especialmente em órgãos internacionais. No ano em que completa 60 anos, a Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP tem muito a comemorar. Seus professores e pesquisadores ocupam cargos de direção nos principais órgãos de gestão no Brasil e no exterior.
O mais recente foi a indicação da professora Silvia Helena de Bortoli Cassiani, diretora da unidade, como assessora regional de Enfermagem e Técnicos de Saúde da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), em Washington, nos Estados Unidos. O cargo é ligado ao Departamento de Sistemas e Serviços de Saúde na Unidade de Recursos Humanos em Saúde, Bioética e Pesquisa da Opas.
Como assessora regional, Silvia é responsável técnica por 18 centros colaboradores da Organização Mundial da Saúde (OMS), área de Enfermagem, na região das Américas. Além disso, ela coordena o Programa Ampliado de Livros Textos (Paltex) e participa do grupo de assessores regionais de Enfermagem e Obstetrícia da OMS, em Genebra.

Essa ligação da EERP com instituições internacionais surgiu desde sua criação, em 1953, e se deve às ações da primeira diretora da escola: professora Glete de Alcântara. Ela fez a graduação no Canadá e pós-graduação nos Estados Unidos, o que contribuiu para imprimir na EERP a filosofia de internacionalização das atividades acadêmicas desenvolvidas na unidade. Glete, que foi diretora da União Cultural Brasil-Estados Unidos, chegou a ministrar aulas de inglês na EERP e promover conferências com personalidades mundiais na área de enfermagem.

A professora Glete de Alcântara, primeira diretora da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto: ensino e pesquisa marcados pela internacionalização

Cenário – A filosofia de internacionalização da primeira diretora da EERP permeou a visão acadêmica da unidade, tanto que em 1988 a Escola de Enfermagem foi nomeada, pela primeira vez, Centro Colaborador da Organização Mundial da Saúde para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem, designação que permanece até hoje, completando 25 anos. Esse centro colaborador integra a Rede Global de Centros Colaboradores da OMS para o desenvolvimento da Enfermagem e Obstetrícia, com mais 41 outros centros, distribuídos em todos os continentes. De 2008 a 2014, a EERP é sede da Secretaria Geral dessa Rede Global, fato inédito na enfermagem da América Latina.
O centro é responsável por convênios com várias universidades das Américas, Europa, África e Ásia, visitas técnicas de membros docentes e discentes, organização de eventos internacionais e desenvolvimento de pesquisas multicêntricas.
De acordo com a professora Isabel Amélia Costa Mendes, coordenadora do Centro Colaborador da OMS na EERP, a prioridade da entidade é a formação de recursos humanos no Brasil, na América Latina e nos países africanos de língua portuguesa, por meio de cursos presenciais e a distância. “Essa é uma forma de modificar o cenário precário no atendimento de saúde nas regiões de maior carência de lideranças na área de enfermagem”, explica.
Em Angola, por exemplo,

a EERP desenvolve ações colaborativas há mais de 20 anos. Inicialmente, o foco foi para a formação de enfermeiros, que se estende aos dias atuais, em formato de intercâmbio de estudantes do Instituto Superior de Ciências da Saúde da Universidade Agostinho Neto. Após a formação pontual de mestres e doutores em Enfermagem para Angola, a EERP agora colabora na instalação e desenvolvimento do primeiro curso de mestrado em Enfermagem daquele país. Moçambique e Guiné-Bissau também estão entre os países que têm enfermeiros formados pela EERP, atendidos pelo Programa Estudante Convênio – Graduação.
No México, a cooperação da escola focou a formação de doutores em enfermagem, num total de 35 pesquisadores, possibilitando o desenvolvimento da pesquisa e da pós-graduação em enfermagem. Argentina, Colômbia, Chile, Peru e Cuba também estão entre os países com enfermeiros doutores formados na EERP.

No Uruguai, a unidade de Ribeirão Preto, numa cooperação com o Ministério da Saúde brasileiro, trabalha com a transferência de tecnologia em pesquisa censitária, na qual os professores da EERP atuam em oficinas de trabalhos em instituições do país, transmitindo as experiências realizadas no Brasil nesse tipo de pesquisa.
“Outra ação resultante de parceria internacional é decorrente de acordo entre os governos do Brasil, da República de Cuba e da República do Haiti. A Escola de Enfermagem, desde 2010, ajuda no fortalecimento do sistema e dos serviços públicos de saúde e de vigilância epidemiológica no Haiti, colaborando com a construção da Escola Técnica de Saúde. Também participamos da elaboração de material didático para formação de agentes de saúde, agente de saúde ambiental, e inspetor sanitário”, informa a professora Silvana Martins Mishima, vice-diretora da EERP.

A EERP: 60 anos de atividades em favor da sociedade

As professoras Silvana e Isabel destacam ainda que o compromisso do Centro Colaborador da OMS na EERP para divulgação do conhecimento em enfermagem e áreas afins motivou a criação, em 1992, da Revista Latino-Americana de Enfermagem. De nível internacional, ela edita fascículos bimestrais com todos os artigos em três idiomas: português, espanhol e inglês, está indexada em importantes bases de dados nacionais e internacionais, como, por exemplo, ISI/JCR, e a coleção completa está disponível na SciELO.

Participação nacional – Não é só fora do País que a Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto tem reconhecimento e parcerias importantes. Desde o final dos anos 90, a unidade colabora com o Ministério da Saúde para a formação de profissionais de saúde para a Estratégia de Saúde da Família, além de atuar na formação de pessoal em serviço para a implantação da estratégia na região e no município de Ribeirão Preto. Docentes da EERP também têm realizado trabalhos no Ministério em áreas como segurança do paciente, comitês específicos para controle de hepatites, Aids, tuberculose e atenção primária.
No que se refere ao ensino de graduação, a EERP recebeu recursos do Ministério da Saúde em várias de suas edições de políticas indutoras para o processo de formação, por exemplo, no desenvolvimento do Pró-Saúde, Programa Nacional de Reorientação da Formação Profissional em Saúde, no PET Saúde, PET Saúde Mental, Pró-PET e PET Vigilância em Saúde. Além disso, tem papel decisivo em instâncias políticas da enfermagem, como a criação do Centro de Pesquisas e Estudos em Enfermagem (Cepen), vinculado à Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn), e colaborar nos espaços científicos em instâncias de pesquisa como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CNPq).

Futuro – Segundo a professora Silvana, em 2005 a Escola deu início à proposta da reforma curricular do curso de Bacharelado em Enfermagem, para aproximar o aluno, desde o primeiro ano, à realidade dos serviços de saúde. Em 2006, seguindo o mesmo fio condutor, instalou o curso de Bacharelado e Licenciatura em Enfermagem. “O curso se voltou para formar um enfermeiro capacitado a atuar na promoção da saúde na educação básica e como professor dos cursos profissionalizantes em enfermagem”, explica.
A professora afirma ainda que o trabalho da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto está centrado no estabelecimento de novas parcerias com instituições de saúde, nas quais os alunos possam realizar atividades de ensino prático e estágios. “Um passo fundamental para o futuro está na qualificação de pessoal docente e técnico especializado, para a utilização das tecnologias educacionais adquiridas para o ensino simulado de média e alta fidelidade e outras, como a educação a distância.”
Para aproximar a formação dos estudantes à realidade do mercado, nos últimos anos a EERP vem investindo no desenvolvimento de tecnologias educacionais, inovações das práticas pedagógicas e na melhoria e modernização de infraestrutura física, materiais e recursos humanos.
Um dos grandes investimentos foi em simulação clínica, estratégia de ensino que permite aos alunos experimentarem situações reais da área clínica, a partir de cenários com bonecos de simulação. Hoje, a EERP detém um conjunto de laboratórios de ensino com simuladores de baixa, média e alta fidelidade e equipamentos necessários para a construção de cenários clínicos em diferentes âmbitos, além de um laboratório na área da educação e outro na área de atenção primária à saúde.

Alunos da EERP: compromisso com a saúde pública

No início deste ano, foram captados aproximadamente R$ 2 milhões para melhorias de infraestrutura para o ensino, incluindo reforma e ampliação de laboratórios didáticos e salas, aquisição de equipamentos de simulação, recursos computacionais, entre outros. Em agosto, a EERP recebeu mais de R$ 7 milhões para a construção de novos laboratórios de pesquisa, Centro de Vivência e ampliação do estacionamento.
A escola, que já formou mais de 4.700 alunos, possui hoje cursos de Bacharelado e de Bacharelado e Licenciatura em Enfermagem, três programas de mestrado e doutorado multiprofissionais e um programa de doutorado interunidades, em parceria com a Escola de Enfermagem da USP, em São Paulo. Juntos, esses programas titularam aproximadamente 2.000 pesquisadores. Mais recentemente a EERP instalou seu mestrado profissional em Tecnologia e Inovação em Enfermagem.