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Protesto em formato digital

Publicado por admin - Tuesday, 27 August 2013

COMUNICAÇÃO

A força dos movimentos sociais e sua interferência no jornalismo foram tema de debate realizado na ECA

VICTOR FRANCISCO FERREIRA
Especial para o Jornal da USP

Um dos principais méritos da série de manifestações iniciada em junho no Brasil é a falta de ideologia, pois isso seria “uma forma de emancipação”, segundo o professor Massimo di Felice, do Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo (CRP) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. “A ideologia é uma forma simplificada de ver o mundo que a modernidade nos impôs. O mundo é muito mais complexo.” A ideia foi exposta no debate “A comunicação e os movimentos sociais em rede no Brasil de hoje”, realizado na ECA no dia 13 passado.
Além do professor do CRP, participaram do debate os professores Rubens Machado Jr, do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão (CTR), Manuel Chaparro e Elizabeth Saad, ambos do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE) – todos da ECA –, e Leonardo Sakamoto, docente da PUC-SP e ex-aluno da ECA. Como convidado, também esteve presente Mauro, um dos integrantes do Movimento Passe Livre.
Di Felice apresentou uma pesquisa sobre net-ativismo. Ele disse que entre as características emergentes das ações net-ativistas, além da falta de ideologia, estão ações apartidárias, sem hierarquias e que não visam a tomar o poder. Também é ressaltada a invisibilidade, a ausência de grandes lideranças individuais, em favor da força coletiva ou institucional.
Para ele, as redes digitais deram forma a movimentos sociais. Manuel Chaparro levantou a ideia de que não existem mais minorias silenciadas. Massimo citou diversos exemplos de grupos que passaram a ter voz por meio das redes digitais, como grupos indígenas, jovens músicos das periferias brasileiras e até as mulheres egípcias, que passaram a ter a possibilidade de participar de debates políticos, algo improvável na cultura daquele país.

Mudanças históricas –
Para Manuel Chaparro, com o desenvolvimento de tecnologias de difusão da informação, a notícia deixou de pertencer ao jornalista e passou a ser a essência do acontecimento. “Sem as redes sociais não teria havido manifestações. A avenida Paulista foi apenas um cenário.” Ele ainda afirmou que a notícia que circula e alcança pessoas em outros países é “a verdadeira ação realizadora”. Como exemplo, ele lembrou as manifestações organizadas por brasileiros morando no exterior nos dias seguintes à manifestação do dia 13 de junho, marcada pela violência policial. Chaparro ainda citou o antropólogo Darcy Ribeiro, afirmando que “as mudanças sociais não se dão por luta de classes, mas por revoluções tecnológicas”.
Já segundo a professora Elizabeth Saad, não existe movimentação no ambiente virtual sem o ambiente físico. Mauro, do Movimento Passe Livre, também ressalta a importância de ações “subterrâneas” feitas pelos movimentos sociais fora das redes digitais. Ele preferiu diminuir a importância das redes sociais e valorizar ações presenciais, como visitas a comunidades para debater o transporte público. “Existe agora uma descontextualização de todo o resto para dentro do Facebook. Como se ele fosse o principal ator de tudo o que aconteceu. A quantidade de eventos criados todo dia e que nem acontecem é gigantesca”, lembrou o integrante do MPL, citando a chamada de greve geral feita para o dia 1º de julho pelo Facebook, que não teve nenhum efeito.
Mauro chamou de “explicação liberal” a ideia de que as novas tecnologias sejam capazes de mudar a história. Para ele, o que muda a história é a luta de classes. “Existe um conflito de interesses antagônicos e irreconciliáveis entre empresários e usuários de transporte. Os empresários querem ganhar dinheiro com transporte e os usuários querem o melhor transporte possível. É isso que cria um processo histórico como o de 2013, não o advento das redes sociais.”
Ao final do evento, motivado por uma pergunta do público, que questionava a fala de Mauro sobre a importância das redes sociais nas manifestações, o professor Chaparro explicou novamente que os acontecimentos têm o lado material, físico, mas também o lado do discurso, que é a significação do fato. É a notícia que corre pelas redes e pode motivar o apoio das pessoas ao movimento social. “Se eles não perceberem isso, não vão longe”, afirmou, referindo-se ao Movimento Passe Livre. Mauro saiu mais cedo e não estava presente para responder às perguntas.

Jornalismo – Outro aspecto bastante debatido no evento foram as implicações que as manifestações trouxeram para o exercício do jornalismo. Para exemplificar a forte diferença entre dois pensamentos distintos sobre o jornalismo, Leonardo Sakamoto lembrou a entrevista exibida no dia 5 de agosto no programa Roda Viva, da TV Cultura, com Bruno Torturra e Pablo Capilé, membros da Mídia Ninja. O grupo, que fez transmissões ao vivo das manifestações pela internet a partir de celulares e outros equipamentos portáteis, não tem um modelo organizacional semelhante ao da imprensa tradicional.
Sakamoto disse que as redes digitais beneficiam a criação de um formato de mosaico na produção jornalística. “Vão-se desenvolvendo e absorvendo outras formas de produção de jornalismo. Eu imagino um mosaico, com formatos, linguagens e processos díspares.” Ele afirmou ser importante a tarefa reflexiva e analítica do jornalista.
Elizabeth Saad concordou e afirmou que há uma nova configuração de fala no jornalismo, que cria um jornalismo coletivo, com narrativas mediadas por várias fontes de informação. “Há aqui uma potencialização do papel do jornalismo na sociedade que precisa ser aproveitado”, opinou. Ela também ressaltou que não foi só o jornalismo que acabou influenciado pelas redes digitais, mas que o jornalismo foi o setor que apresentou mais resistência às mudanças.
O professor Rubens Machado Jr. também destacou as particularidades das manifestações brasileiras em relação a outros lugares. Ele disse que, em países como a Espanha e os Estados Unidos, são cobradas promessas não cumpridas de consumo, mas que no Brasil “há uma cidadania em construção que tem a ver com a rejeição de uma lógica de sociedade do espetáculo”. Segundo ele, o principal exemplo disso são os protestos contra a realização da Copa do Mundo no Brasil.