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Muito mais do que só remédios

Publicado por admin - Friday, 16 August 2013

João Biehl na Faculdade de Saúde Pública: direito à saúde

SAÚDE

Qualquer desenvolvimento sustentável deve melhorar as condições de vida dos mais pobres e mais vulneráveis, defende o antropólogo brasileiro João Biehl, professor da Universidade de Princeton

PAULO HEBMÜLLER

O médico receitou seis remédios para Janira tratar do coração. Ela precisava mesmo é de um transplante, mas, enquanto permanecia na espera, os medicamentos eram vitais. Um deles – um vasodilatador com custo de cerca de R$ 2 mil por mês – não era fornecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A família, moradora da periferia de Porto Alegre, não tinha condições de arcar com a despesa. O médico sugeriu procurar a Defensoria Pública do Estado para entrar com uma ação na Justiça e obrigar o SUS a fornecê-lo. Na frente da defensora pública, a mãe de Janira perguntou: “É aqui que eu pego o remédio?”. Não seria assim tão simples, respondeu a advogada.
A história é uma das tantas coletadas no trabalho do antropólogo brasileiro João Biehl, professor da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, onde é codiretor do Programa de Saúde Global e Políticas de Saúde. Biehl relatou-a na aula inaugural do curso de doutorado em Saúde Global e Sustentabilidade da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP (leia o texto ao lado), no dia 7 de agosto. “A judicialização foi o último recurso. O sistema de saúde estava trabalhando para ela, mas seria rápido o suficiente para salvá-la?”, perguntou o antropólogo. A liminar foi concedida pela Justiça, mas ainda se passaram mais alguns meses até que a mãe de duas filhas começasse a receber o remédio. “Às vezes não sei se estou tratando do direito à saúde ou do direito a uma morte digna”, Biehl ouviu de um juiz da capital gaúcha.
Para João Biehl, a história de Janira reflete questões mais amplas, como justiça social e acesso à tecnologia – temas debatidos no contexto de uma saúde pública em mudança no mundo inteiro. Gaúcho, formado em Teologia e Jornalismo, com doutorado em Antropologia na Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, e autor de vários livros – o mais recente é When People Come First – Critical Studies in Global Health, em coautoria com sua esposa, Adriana Petryna, professora de Antropologia na Universidade da Pensilvânia, também nos Estados Unidos –, o pesquisador abordou algumas dessas questões cruciais ao longo da aula inaugural e do debate na FSP.

Dilúvio de verbas – É um cenário complexo, no qual um dos modelos vigentes é o das parcerias público-privadas que atuam em diversas regiões do mundo (especialmente nos países mais pobres), envolvendo atores como corporações do setor farmacêutico, esferas governamentais, ONGs e até instituições globais como a Organização Mundial da Saúde (OMS). Os lobbies privados ganharam muita força nessas associações nas décadas de 1980 e 1990, aumentando seu poder de intervenção e o uso de seus produtos, e colaborando para desconsiderar estruturas, saberes e costumes locais. Elas funcionam como se um pacote pronto fosse largado de paraquedas e pudesse ser aplicado na comunidade ou país em que caísse, independentemente de sua realidade – uma espécie de “bala mágica” capaz de acertar na mosca em qualquer alvo.

Atendimento à saúde no Brasil: doença também é social

Além disso, continua Biehl, são programas focados em doenças e em tecnologias, mais do que em mudanças nas políticas públicas. O dilúvio de verbas e organizações ao redor do mundo – várias delas capitaneadas ou apoiadas por celebridades –, com seu discurso de “salvar vidas”, aumentar o acesso a tratamentos e basear-se em cálculos do tipo custo-benefício, “parece reconciliar quaisquer diferenças de interesses e ideologias entre as agendas corporativas, de ativistas e de saúde pública do Estado”, diz. Ao mesmo tempo, estruturas e sistemas locais continuam extremamente inadequados, quando não “em ruínas”.
Se o sucesso das políticas de saúde nacionais e globais é medido pelo cálculo dos remédios fornecidos e da tecnologia mais nova utilizada, “quanto espaço sobra para o desenvolvimento de soluções de baixa tecnologia, como o fornecimento de água limpa, e o fortalecimento de sistemas de saúde locais e de esforços para a prevenção, que poderiam provar-se mais sustentáveis que soluções de tecnologias sozinhas?”, pergunta Biehl. Afinal, a doença nunca é uma coisa só: é biológica sim, mas também é social, tecnológica e ligada a fatores estruturais como saneamento e condição socioeconômica. “Qualquer desenvolvimento sustentável deve melhorar as condições de vida dos mais pobres e dos grupos mais vulneráveis, que carregam os maiores fardos de problemas de saúde.”

Foco no cuidado –
“Contra os futuros distópicos dos pragmáticos contemporâneos”, inovações e propostas alternativas têm sido construídas em diversas latitudes, relata o professor. Entre elas, uma nova ciência de prestação de serviços e cuidado que vem sendo desenvolvida pelos professores de Harvard Michael Porter e Paul Farmer, ao lado do médico e antropólogo Jim Yong Kim, agora presidente do Banco Mundial. “Eles apelam por uma mudança de objetivos: que deixemos de lado simplesmente contar o número de vacinas ou remédios distribuídos e que venhamos a fortalecer os sistemas de saúde locais e capacitar os provedores para ativamente buscar o paciente carente, acompanhando o ciclo inteiro de assistência e cuidado e seu impacto na vida da família e da comunidade”, descreve. É, sim, uma concepção mais holística da saúde, com o desenvolvimento de modelos de cuidado focados na pessoa e seu ambiente social, e não só na tecnologia.
As ciências sociais e humanas no campo da saúde global, afirma João Biehl, precisam “forçar a passagem” entre as projeções dos especialistas e abordagens experimentais de curta duração. Devem também abordar questões cruciais sobre o papel do Estado e do mercado no modelo e na prestação de serviços de saúde global. “É urgente construir um novo paradigma transversal e holístico que integre o direito à saúde com o respeito à diversidade e à dignidade humana e a justiça social com formas de desenvolvimento sustentável”, defende.

USP cria novo doutorado e firma parceria

Akshata e Serena, dos Estados Unidos para a USP: informações sobre o Brasil

A parceria para intercâmbio e pesquisa entre a USP e a Universidade de Princeton já está trazendo alunos da instituição americana ao Brasil. Duas delas, Akshata Shirahatti e Serena Stein, assistiram à conferência de João Biehl na FSP. Akshata, aluna de graduação em Biologia, considera “incrível a oportunidade de estar no Brasil”, em função da ascensão do País no cenário global e do desenvolvimento de projetos bem-sucedidos na área da saúde, como os programas públicos de tratamento da Aids. Nos dois meses de permanência no Brasil, vai pesquisar intervenções em relação à malária na Amazônia, a partir de dados coletados por pesquisadores da USP.
Já Serena, aluna do primeiro ano do doutorado em Antropologia, vem pela segunda vez ao País. Ela estudou a ocorrência de tuberculose na Rocinha, no Rio de Janeiro, em 2010, e também já fez pesquisas em Moçambique para o mestrado, que obteve em Oxford. No doutorado, vai abordar as relações entre Brasil e Moçambique nas áreas de tecnologia e segurança alimentar.
Em sua primeira turma, o Doutorado em Saúde Global e Sustentabilidade da FSP recebe alunos e professores de vários países. “Com o novo programa, pretende-se conhecer, interpretar, compreender e enfrentar as consequências do processo de globalização no setor sanitário e nos determinantes da saúde, sociais, econômicos e ambientais”, diz a professora Helena Ribeiro, diretora da escola.