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Os caminhos da memória

Publicado por admin - Monday, 9 September 2013

LANÇAMENTO

Nova edição da Revista USP lança dossiê Memória, apresentando um panorama das recentes pesquisas desenvolvidas na área da fisiologia e também na história, sociologia e antropologia

LEILA KIYOMURA

São os dois caminhos complexos da memória – o da fisiologia e o seu processo no terreno das humanidades – que a Revista USP apresenta no dossiê Memória (edição 98). Com a participação de cientistas de diversas áreas, reúne um conjunto de pesquisas que conduzem o leitor às intrincadas vias do inconsciente, da expressão do funcionamento das redes nervosas e também da memória social, coletiva, cultural e de preservação.
“Os panoramas descortinados pelos estudos ora apresentados são essenciais para o entendimento do que seja ‘memória’ em seus múltiplos aspectos”, explica o editor Francisco Costa. “Ouso dizer que o dossiê é uma leitura indispensável sobre esse caro tema ao gênero humano. Importante lembrar que a Revista USP prima por desenvolver assuntos importantes da atualidade.”
“Impossível falar em memória sem considerar seus componentes químicos e fisiológicos, centrados no organismo vivo”, observa Sérgio Adorno, diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, que assina a apresentação do dossiê. “Mas é inegável reconhecer as evidências históricas da memória social, com seus processos de transmissão da herança e do patrimônio cultural ao longo das gerações. Como se passa de um domínio ao outro resta ainda mistério a ser desvendado.”
Os tipos e mecanismos da memória são apresentados por Iván Antonio Izquierdo e Fernando Benetti, da Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul, Jociane de Carvalho Myskiw, do Departamento de Geriatria e Gerontologia da PUC-RS e Cristiane Regina Guerino Furini, bolsista do Instituto Nacional de Neurociência Translacional do CNPq. Os pesquisadores examinam as definições e características gerais dos principais tipos de memórias de acordo com sua função, conteúdo e duração. Também destacam aspectos de sua biologia na memória do trabalho, de curta duração e na memória de extinção, comentando os principais processos fisiológicos.
O papel do sono na consolidação e reestruturação das memórias é apresentado por Wilfredo Vlanco Figuerola e Sidarta Ribeiro, professores e pesquisadores do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). O artigo revê as principais evidências do papel mnemônico do sono, discutindo os possíveis mecanismos moleculares e eletrofisiológicos capazes de explicar tal papel em vertebrados quanto em invertebrados.

Caminhos intrincados: o papel do sono na consolidação e reestruturação da memória é tema de um dos artigos publicados no dossiê da nova edição da Revista USP

Redes nervosas – Em um artigo muito objetivo, Gilberto Fernando Xavier, professor do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências (IB) da USP, explica como a estrutura e o funcionamento do sistema nervoso facultam a formação de memórias ao longo da história de interação do organismo com o ambiente. Também esclarece como as alterações na conectividade nervosa em função dessas experiências levam à construção de uma complexa rede associativa, cuja estrutura é inteiramente dependente da história individual. “O sistema nervoso humano possui entre 80 e 100 bilhões de neurônios. A comunicação entre eles ocorre por meio de sinapses, isto é, regiões especializadas em que ocorre a transmissão de informações de um neurônio para outro”, esclarece. “Calcula-se que cada um desses neurônios envia projeções diretas, em média, para 10 mil neurônios e recebe projeções diretas de outros 10 mil neurônios. Assim, o número de circuitos neurais existentes no sistema nervoso é astronomicamente elevado.”
Segundo Xavier, essas características vislumbram a complexidade da estrutura capaz de arquivar memórias ao longo de toda uma vida. O especialista observa que a neurociência atual vem realizando avanços notáveis no entendimento do funcionamento do sistema nervoso e das funções de memória e atenção. “É tentador pensar que esse conhecimento poderá ser integrado com o conhecimento gerado por diferentes escolas de pensamento da psicologia, levando a uma compreensão mais aprofundada de alguns dos maiores segredos da psicologia humana, incluindo o inconsciente e a consciência.”
Conceitos fundamentais nos estudos sobre a memória social são abordados por Paulo Endo, psicanalista e professor do Instituto de Psicologia (IP) da USP e da Pós-Graduação Interdisciplinar em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades da FFLCH. O artigo privilegia a discussão das experiências-conceito de luto, trauma e esquecimento e propõe aos estudos sobre a memória que levem em conta a abundante produção de conceitos e tensões continuamente produzidos nesse campo. “Uma das zonas mais incertas e obscuras no campo das lutas pela memória é a dialética da lembrança e do esquecimento”, observa Endo. “Esquecer, em determinados contextos de luta, militância e reflexão tornou-se indesejável, malvisto, politicamente incorreto. O esquecimento sofreu de uma fratura perigosa, cuja consequência foi a dicotomia: ou lembrar ou esquecer.”

Memória coletiva – A pertinência teórica de conceitos como memória cultural e pós-memória é o objetivo do artigo de Myrian Sepúlveda dos Santos, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). “Os estudos sobre memória se multiplicaram a partir da década de 1980, abrindo uma agência interdisciplinar e importantes questionamentos teóricos”, considera Myrian. “Além da clássica antinomia entre ação e estrutura, questões relativas à permanência e mudança passam a ser reconsideradas.”
A professora lembra que, no Brasil, as memórias e narrativas da escravidão ainda são poucas. “A construção de memórias coletivas em torno de feridas históricas é sempre muito complexa. Contemporaneamente surgem diversas iniciativas de recordação de lembranças traumáticas que têm por foco refletir sobre práticas de abuso, ressaltando a resistência constituída, e exigir para os descendentes dos que sofreram atrocidades uma política de desculpas e reparação. Essas políticas da memória estão envolvidas com a recuperação ética das bases que fundam uma sociedade. No Brasil, alguns poucos estudos começam a se preocupar com a memória dos descendentes de escravos, ainda que tardiamente, dando voz não às vítimas, mas aos diversos atores daquele período da história.”
A problemática do tempo, da memória e do esquecimento no campo do conhecimento histórico também é o objetivo do estudo de Eliana de Freitas Dutra, professora do Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Por essa via pretendemos contribuir para a discussão de como os historiadores tecem as formas atuais da história nas relações que estabelecem entre a história, o tempo e a memória, nas ligações que constroem entre o passado, o presente e o futuro, na sua tensão com os regimes de verdade da disciplina histórica, ou no seu inevitável trânsito nas fronteiras de outras disciplinas e formas de conhecimento, face às suas responsabilidades com a contemporaneidade.”
O dossiê Memória é completado com o artigo de Paulo de Salles Oliveira, professor do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho no Instituto de Psicologia da USP, que faz uma reflexão sobre o livro Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos, de Ecléa Bosi. “É uma obra que supera em muito os limites da psicologia social e se coloca com destaque na literatura das humanidades”, explica. “Com Memória e Sociedade ficamos conhecendo o que outros livros não contam.”
Oliveira ressalta que esse é um livro para ler e reler. “Difícil será não se emocionar e não se surpreender. Há algo sempre algo a descobrir. Pois, como dizia Calvino, ‘um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para ser dito.’ ”

Revista USP, dossiê Memória, edição 98, publicação da Superintendência de Comunicação Social (SCS) da USP (telefone 11 3091-4403), 168 páginas, R$ 20,00.