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De Homero a Goethe

Publicado por admin - Friday, 20 September 2013

Homero, educador da Grécia (acima), Cristo, o único Deus representado pela arte antiga com um livro nas mãos, e Goethe (abaixo): séculos de cultura

LIVRO

Edusp reedita o monumental Literatura Europeia e Idade Média Latina, de Ernst Robert Curtius, que analisa as principais obras literárias produzidas na Europa ao longo de 26 séculos

Uma das dez epígrafes de Literatura Europeia e Idade Média Latina é emprestada de José Ortega y Gasset e ensina: “Un libro de ciencia tiene que ser de ciencia; pero también tiene que ser un libro”. O monumental volume escrito por Ernst Robert Curtius – por sinal, interlocutor e amigo de Ortega y Gasset –, que a Editora da USP (Edusp) lança em terceira edição brasileira (as duas anteriores são do Instituto Nacional do Livro, de 1957, e da própria Edusp, em coedição com a Hucitec, de 1996), é sim um alentado estudo científico, abundante em fontes, referências e erudição – mas é também um livro que reúne a cultura que por séculos e séculos a Europa preservou e transmitiu em livros e nos suportes que os precederam.
“A literatura europeia é tão antiga quanto a cultura europeia: abrange, pois, um período de cerca de 26 séculos (contados de Homero a Goethe)”, escreve Curtius. Para ele, o “herói fundador” (heros ktistes) dessa literatura é Homero, e seu “último autor universal” é Goethe. “Não vemos a Europa em sentido espacial, mas em sentido histórico. A ‘europeização do panorama histórico’, que hoje se reclama, deve também aplicar-se à literatura. Se a Europa é o produto de dois complexos culturais, o antigo-mediterrâneo e o moderno-ocidental, o mesmo se pode dizer de sua literatura, que só se compreenderá como um todo se se abarcarem com uma visão seus dois elementos”, continua.
Curtius pondera que, segundo a história da literatura consagrada pelo uso, a Europa moderna só começa em 1500. “Naturalmente há também uma história da literatura ‘medieval’; começa por volta do ano 1000, ou seja, para conservar nossa imagem, já em Estrasburgo. Onde fica, porém, o período de 400 a 1000?” Se a literatura europeia só pode ser vista como conjunto, “só historicamente é possível proceder a seu estudo, e não sob forma de história da literatura”, argumenta. “Meu livro não é o resultado de objetivos meramente científicos, mas da preocupação relativa à preservação da cultura ocidental. Ele busca elucidar, com métodos novos, o conjunto dessa tradição, no espaço e no tempo.”

Vida espiritual – E. R. Curtius nasceu na Alsácia em 1886 e morreu em Roma em 1956. Foi professor das universidades alemãs de Marburgo, Heidelberg e Bonn. Seu livro Espírito Alemão em Perigo, de 1932 – ano anterior ao da tomada de poder pelos nazistas na Alemanha –, marca o início de seus trabalhos em filologia e estudos literários. Durante o domínio nazista, retirou-se da vida pública, e sua dedicação aos estudos clássicos é vista como uma resposta ao totalitarismo da época. Literatura Europeia e Idade Média Latina foi publicado pela Editora Francke, de Berna, na Suíça, em 1948, três anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. O livro é a um só tempo “um compêndio filológico e metodológico, uma história da literatura e uma profissão de fé humanista – o que uma mera resenha não pode absolutamente abarcar”, registrava o escritor e tradutor Modesto Carone na Folha de S. Paulo quando do lançamento da coedição Edusp/Hucitec.
No texto de apresentação do volume, o Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP Segismundo Spina, falecido em 2012, cita o livro de Curtius ao lado de O Outono da Idade Média, de Johan Huizinga; La Realidad Histórica de España, de Américo Castro; e ainda Mimesis, de Erich Auerbach, como obras que têm por instrumentos fundamentais os textos literários, e como método a filologia. O trabalho, considera, está entre “os maiores monumentos da filologia neste século, da filologia em sua função transcendente, isto é, quando o texto deixa de ser um fim em si mesmo da tarefa filológica, um objeto de exegese gramatical, para se transformar num instrumento que permite ao filólogo interpretar a vida espiritual de um povo (como é a obra de Américo Castro), de uma comunidade (como é a de Huizinga) ou até mesmo de uma civilização – como é o caso da obra de Curtius”.
Para Spina, o autor parte do princípio de que até o seu tempo a literatura medieval permanecia mal estudada e, consequentemente, mal-entendida, “porque se podiam contar nos dedos os filólogos da latinidade medieval e os praticantes da ciência literária”. “Curtius liberta-se das visões puramente nacionais e seccionadas por uma periodologia de caráter exclusivamente pedagógico para uma interpretação da cultura literária da Europa latina em seu conjunto”, afirma. “Sua obra revela o amplo domínio que atingiu da história e da ciência da literatura, da filosofia, da técnica filológica e das diferentes formas de vida do mundo medieval. Sim, porque a literatura europeia é uma ‘unidade de sentido’ que escapa à nossa compreensão quando subdividida.”
Spina chama a atenção para o fato de que Curtius não leva em conta a arte, porque esta, “ao contrário da literatura, não é portadora de pensamentos; não significa o ‘presente eterno’, que é privilégio das letras, pois só estas possuem o condão de estabelecer a presença de Homero em Virgílio, de Virgílio em Dante, de Sêneca e Plutarco em Shakespeare, de Eurípedes em Racine e Goethe, da própria Odisseia em James Joyce”. “É essa visão diacrônica, dinâmica e ecumênica que norteia a obra do grande romanista. Não se trata de uma nova e original história da literatura medieval europeia, mas de uma fenomenologia dessa literatura”, continua.
O escritor Herberto Sales, que foi diretor do Instituto Nacional do Livro, registrou no prefácio da primeira edição brasileira que um dos grandes méritos do trabalho “é o de mostrar que a Idade Média não foi, como se ensinou durante tanto tempo, um período uniforme, mas uma época contraditória em que couberam sistemas tão diferentes como o de Santo Tomás de Aquino e o de São Boaventura” – é, em resumo, “a história do Espírito Ocidental”. Para Sales, Curtius via na Idade Média latina “o grande crisol do qual surgiram as literaturas ocidentais modernas”. “Revelar a unidade das tradições culturais do Ocidente, vindas da Antiguidade greco-romana e dos séculos 16 e 17, pareceu a Curtius uma forma de resistir ao caos espiritual instalado em nossa época”, afirma.

Antigo e moderno – Curtius cita o teólogo e escritor Ernst Troeltsch para dizer que a relação entre o mundo antigo e o moderno já não pode ser concebida como “sobrevivência”, “continuidade” ou “herança” da Antiguidade. O autor endossa a visão de Troeltsch de que “nosso mundo europeu não repousa na aceitação nem na superação da Antiguidade, mas numa ligação geral e ao mesmo tempo consciente com ela”. O mundo europeu, portanto, compõe-se de antigo e moderno – do mundo antigo, que percorreu todos os estágios desde o primitivismo até a cultura superior e sua própria dissolução, e do mundo moderno, a contar de Carlos Magno e da contribuição dos povos romano-germânicos. E România, vale dizer, é o conjunto de países em que são faladas línguas românicas, que se originaram no solo do Império Romano, do Mar Negro ao Atlântico.
O que busca a Idade Média nos autores? – pergunta Curtius. “A resposta a esta pergunta”, diz, “é o requisito de tudo o que se segue”. “Os autores são, em primeiro lugar, para toda a Idade Média, e ainda para o século 16, autoridades científicas.” Ainda não há ciência moderna, mas os auctores não são somente fontes de saber: “são um tesouro da ciência e filosofia da vida”.
Ao longo dos 18 capítulos da primeira parte do livro, Curtius apresenta descrições, autores, sistemas, formas, gêneros e estilos, sempre incluindo muitas citações nas línguas originais (com as devidas traduções nas notas de pé de página). Jerônimo, Agostinho (dono de “sede de conhecimento essencial, que transcende toda a ciência dos fatos”), Dante, Virgílio, Goethe e muitos outros figuram entre os nomes citados e analisados. O romanista alemão fala, por exemplo, de O Romance da Rosa, cuja primeira parte foi composta em 1235 por Guilherme de Lorris, obra representativa da época, o século 13, que classifica como  “período áureo da arte gótica e da escolástica” e “o mais importante da Idade Média”.
Culto aos heróis e às Musas, metaforismo, retórica, poesia, filosofia, formação do cânon da Igreja (“foi o cristianismo que deu a consagração máxima ao livro”, por ser uma “religião do livro sagrado” – “Cristo é o único Deus que a arte antiga representa com um rolo de papel na mão”, escreve) e do cânon moderno e os primórdios das literaturas em língua vulgar estão entre os temas da obra.
“O fascínio que desperta a defesa de sua tese – a indestrutível organicidade espiritual da cultura do Ocidente, expressa em sua literatura – só se consegue mediante a leitura integral da obra, complementada como os ‘excursos’ finais”, aponta Segismundo Spina. Nos excursos – ensaios que ocupam praticamente toda a segunda metade das mais de 800 páginas de Literatura Europeia e Idade Média Latina –, Curtius trata de temas como os equívocos da Antiguidade na Idade Média, a ciência da Literatura na Antiguidade tardia, no cristianismo antigo e na Idade Média e a poesia como entretenimento, entre outros.
Os últimos excursos abordam as influências de Virgílio em Montesquieu e de Horário em Diderot, tratando do que o autor chama da “relação da literatura europeia com a latinidade de todas as épocas”. “Incluí entre os excursos os trabalhos sobre Montesquieu e Diderot porque mostram que a história da literatura moderna corre o perigo de transviar-se, se seus pés perderem o contato com o solo da cultura humanística”, escreve Curtius no volume que Segismundo Spina qualifica, adequadamente, de “portentoso monumento da inteligência ocidental”.

Literatura Europeia e Idade Média Latina, de Ernst Robert Curtius, Edusp, 816 páginas, R$ 160,00.

O conceito de “clássico”

Ernst Curtius: uma história do espírito ocidental

Leia a seguir trecho de Literatura Europeia e Idade Média Latina, de Ernst Robert Curtius:

“Comprovamos que o conceito de ‘clássico’ tem origem muito modesta e prosaica. Nos últimos 200 anos ele se tornou impróprio e desmedidamente inflado. Foi um passo cheio de consequências, mas também duvidoso, quando, por volta de 1800, a Antiguidade greco-romana en bloc declarou-se ‘clássica’, pois impediu por um século a apreciação histórica e esteticamente imparcial da Antiguidade. Quem ama a Antiguidade em todas as suas épocas e em todos os seus estilos (um amor decerto mais raro do que se possa pensar) é que sentirá exatamente sua elevação a ‘clássica’ como vão e falso pedantismo escolar. O glorificado e glorificante humanismo ginasial, que ainda hoje costuma galgar a instrução, é o antípoda do genuíno e audaz humanismo dos espíritos livres. Desejamos um humanismo expurgado de toda pedagogia (e política!) e que saiba gozar a beleza. Nele haverá também lugar para uma crítica estética que, por exemplo, chegue a descobrir em que sentido Virgílio é um clássico.”