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De Hans Staden a Stefan Zweig

Publicado por admin - Tuesday, 1 October 2013

LIVRO

Cinco Séculos de Relações Brasileiras e Alemãs mostra a longa história de intercâmbio científico e cultural entre o Brasil e a Alemanha

PAULO HEBMÜLLER

Cultura, economia, artes, religião, pesquisa, relatos de viagem e, claro, política são alguns dos temas abordados em Cinco Séculos de Relações Brasileiras e Alemãs, belo volume em edição bilíngue que a Editora Brasileira de Arte e Cultura lançou em evento no dia 18 de setembro no Instituto Goethe de São Paulo. O livro é organizado pelo professor Willi Bolle, docente de Língua e Literatura Alemã da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e Eckhard E. Kupfer, diretor do Instituto Martius-Staden, que se dedica a preservar a história dos alemães que chegaram ao Brasil e de seus descendentes. É um objetivo que se encaixa à perfeição com a proposta do livro: uma reunião de artigos de pesquisadores e especialistas que apresenta diferentes faces das relações entre os dois países.

Eckhard Kupfer e Willi Bolle, organizadores: relações antigas entre os países

De início, vale chamar a atenção para dois aspectos: de um lado, as denominações “brasileiro” e “alemão”, no que se refere aos três primeiros séculos abordados no volume, são utilizadas “apenas como etiquetas didáticas, uma vez que os atores sociais daquela época não se autodefiniam nesses termos”, como explicam Bolle e Kupfer. De outro, os nomes das duas figuras homenageadas no batismo do instituto – Carl Friedrich Phillip von Martius e Hans Staden – são emblemáticos dessas relações, como se verá adiante.
Os organizadores dividiram sua abordagem em três períodos históricos: os séculos 16 a 18, “que foram uma época em que Portugal protegia rigorosamente a sua colônia no Brasil contra qualquer outra influência de fora”; o século 19, sobretudo o seu começo, “quando se deu a abertura internacional no Brasil e se preparou a independência”; e “o período entre o início da República (1898) e a Segunda Guerra Mundial, ou seja, a ‘Era dos Impérios’, quando a realidade entre as grandes potências resultou em conflitos bélicos”. Um segundo volume está em preparação, enfocando as relações de meados do século 20 até a atualidade.

Desconhecimento – Um dos grandes atrativos do livro é oferecer informações sobre os mais importantes relatos de viajantes que, com suas crônicas e produção de imagens, retrataram a fauna, a flora, as paisagens e os tipos humanos de um “novo mundo” sobre o qual espalhavam-se as mais incríveis histórias pela Europa. No artigo em que apresentam a contribuição dos naturalistas alemães para as ciências naturais no Brasil, Miguel Trefaut Rodrigues, Luís Fábio Silveira e José Rubens Pirani, professores do Instituto de Biociências da USP, lembram que, nos três primeiros séculos após a chegada dos portugueses, as riquezas naturais do Brasil permaneceram praticamente desconhecidas, porque a metrópole “impedia a entrada de naturalistas estrangeiros no País com receio de estimular a cobiça por produtos ainda desconhecidos da Casa Real”.
Durante esse período, muitas informações da fauna e da flora foram acumuladas de modo desorganizado e enviadas a Lisboa, onde eram mantidas em sigilo “em forma manuscrita ou como espécimes que jamais seriam estudados criticamente pelos portugueses”. “Jamais conheceremos parte dessa informação crucial sobre esse período de nossa história, pois a maioria desapareceu com o incêndio da biblioteca do Palácio Real, provocado pelo terremoto de 1755 que arrasou Lisboa”, continuam os professores. Os trabalhos de Georg Marcgraf (1648) e de Willem Piso (1658), astrônomo e médico da corte de Maurício de Nassau, são as referências mais importantes sobre a história natural brasileira na época.

Escola alemã no Sul do Brasil (à esquerda) e o encontro de nativos com viajantes europeus (à direita): contribuições recíprocas para as culturas brasileiras e alemãs

A primeira vez que o nome Brasil foi mencionado numa publicação alemã foi em 1514, num relatório publicado em Nuremberg. O País seria cenário de viagens e relatos de Hans Staden, nascido na década de 1520 no Estado de Hesse, que viajou duas vezes ao Brasil entre 1548 e 1555: na primeira, esteve no Recife, e na segunda deveria ir para a região do Rio da Prata, mas a expedição ficou no Sul do Brasil. Depois de vários anos, Staden e seus colegas viajantes chegaram a São Vicente, onde ele assumiu o cargo de comandante de uma fortaleza na baía de Santos, foi capturado por índios tupinambás e levado para a sua aldeia em 1554. “A descrição de seu tempo entre os índios é uma obra-prima do início da etnografia e da história das mentalidades”, escreve Franz Obermeier, bibliotecário da Universidade alemã de Kiel, ao falar da História Verídica (1557) escrita pelo viajante.
Já Carl Phillip von Martius e Johann Baptist von Spix percorreram mais de 10 mil quilômetros pelo Brasil. Aportaram em 1817 no Rio de Janeiro, integrando o séquito de estudiosos que acompanhavam Dona Leopoldina, e a mando da Real Academia de Ciências de Munique e dos imperadores Maximiliano I da Baviera e Francisco I da Áustria. Procurando não se fixar no litoral, que já consideravam bastante conhecido, partiram do Rio a São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Piauí e Maranhão. Chegaram a São Luís, em 1819, bastante doentes e enfraquecidos, e lá se recuperaram. De Belém, lançaram-se a uma longa excursão pela bacia do rio Amazonas. “Dentre os naturalistas alemães que estiveram no Brasil imperial, nenhum deles conseguiu transformar a experiência da viagem em obra tão extensa como Martius”, registra a professora de História da USP Karen Lisboa. “Spix morreu seis anos após o retorno, deixando seu trabalho inconcluso. Já o botânico Martius viveu mais quatro décadas, nas quais se dedicou aos assuntos brasileiros. Do relato de viagem aos estudos da flora e da fitogeografia, passando pela etnografia e chegando a fazer incursões pela literatura ficcional e historiografia, tudo versa sobre o Brasil.”
Cinco Séculos de Relações Brasileiras e Alemãs apresenta vários outros viajantes, como o príncipe Maximiliam zu Wied-Neuwied (1782-1867), Georg Heinrich von Langsdorff (1774-1852), o pintor Johann Moritz Rugendas (1802-1858) e Theodor Koch-Grünberg (1872-1924), autor de De Roraima ao Orinoco. Mais um mérito do trabalho é a rica iconografia do volume, que reproduz quadros, frontispícios, gravuras, fotografias e ilustrações diversas sobre os temas tratados.

Colonos-soldados – Esses temas, por sinal, se espraiam por outros campos, como o encontro de dois mundos representado pela chegada da Corte Portuguesa ao Brasil, em 1808 – quando “o Brasil era um imenso território virgem e escassamente povoado, com pouco mais de 3 milhões de habitantes”, dos quais um em cada três era escravo, relata em seu artigo o jornalista Laurentino Gomes, autor dos best sellers 1808, 1822 e do recém-lançado 1889 –, e as transformações trazidas por ela, como a abertura dos portos ao comércio estrangeiro.
Entre os autores que abordam a chegada dos imigrantes ao Sul do Brasil está o pastor luterano e professor de História da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) Martin N. Dreher. Essas relações, por sinal, nem sempre foram pacíficas, como conta o livro Memórias de um Colono no Brasil (de 1858), do suíço Thomas Davatz, relato da revolta dos colonos da Fazenda Ibicaba, atual região de Limeira, no interior de São Paulo, contra as condições de vida e de trabalho na propriedade do senador Nicolau de Campos Vergueiro. Martin Dreher chama a atenção para o fato de que o ajudante de ordens da princesa Leopoldina, o major Georg Anton von Schaeffer, insistiu para que os colonos a serem trazidos ao Brasil após a independência não fossem apenas soldados, mas também agricultores e artesãos.
Assim, “com os soldados, Dom Pedro criaria regimentos de estrangeiros, com os agricultores e artesãos seriam fundadas colônias agrícolas, tendo como modelo as colônias de cossacos na Rússia: em tempos de paz seriam agricultores, em tempo de guerra seriam recrutados como soldados”, escreve Dreher. “De fato, foi isso que aconteceu. Os agricultores e artesãos instalados no Rio Grande do Sul e, posteriormente, em Santa Catarina, tiveram participação ativa na Guerra Cisplatina, na Revolução Farroupilha e na Guerra do Paraguai.”
O pesquisador também descreve a organização social, comunitária e econômica dos grupos imigrantes em função das picadas ou linhas – vias abertas como forma básica de penetração na floresta subtropical, ao longo das quais iam sendo instalados os lotes designados aos colonos, referência para as áreas mais tarde ocupadas por italianos, poloneses e outros imigrantes (leia o texto ao lado).
As tensões dos períodos das grandes guerras, especialmente a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), e as novas levas de imigrantes que procuraram o País para fugir do regime nazista também são abordados em artigos do livro. Cabe um destaque para os textos que apresentam a contribuição de intelectuais que construíram ou reconstruíram sua carreira no Brasil, como Alfred Döblin (1878-1957), Otto Maria Carpeaux (1900-1978) e Anatol Rosenfeld (1912-1973).
Outro nome importante é o de Stefan Zweig (1881-1942), que, para o jornalista Alberto Dines, abriu com seu Brasil, País do Futuro, publicado em 1941, um debate de sete décadas ainda não concluído.

“O que Zweig batizou logo nas primeiras páginas como ‘Experimento Brasil’ foi, na realidade, uma fascinação pela miscigenação racial. Em meio ao ódio racial que dominava a Europa e tanto o apavorava, o Brasil oferecia com bonomia e sem alarde um projeto multicolorido de convivência entre os diferentes com a indispensável carga de tolerância”, escreve Dines. Para o jornalista, Zweig encontrou no Brasil o que buscava. O legado que seu livro expressa, completa, talvez esteja agora “em condições de ser serenamente avaliado”, ou “arquivado junto com o cesto de desafios indevidos e promessas inoportunas”.

Cinco Séculos de Relações Brasileiras e Alemãs, de Willi Bolle e Eckhard E. Kupfer (organizadores), Editora Brasileira de Arte e Cultura, 224 páginas, R$ 80,00.

“Sem postura romântica e idealista”

Leia a seguir trecho do artigo “Primeiros imigrantes alemães no campo”, de Martin N. Dreher, publicado em Cinco Séculos de Relações Brasileiras e Alemãs:

“É dentro desta situação geral da picada que devemos colocar os primórdios do ensino privado no Brasil Meridional, no Espírito Santo, São Paulo e no Rio de Janeiro. Ele vai acompanhando o desenvolvimento da vida cultural nas picadas. Aqui é importante não se assumir postura romântica e idealista. Muitas vezes se louvou nos imigrantes sua persistência, sua dedicação ao trabalho, à transformação realizada nas áreas antes cobertas por matas. Com seu esforço surgiram áreas cultivadas, indústria, estradas, movimentação em vias fluviais e terrestres. Do artesanato, aliado ao capital acumulado na venda, surgiram a indústria e o comércio.
Todo esse investimento não foi acompanhado, nas primeiras décadas, por um crescimento cultural e intelectual. Poucos foram os livros trazidos pelos imigrantes. Houve Bíblias, vidas de santos, hinários católicos e luteranos, livros de oração, catecismos. A vida eclesial era fraca, os primeiros prédios construídos para os cultos divinos eram muito pobres, não raramente descritos por viajantes como similares a chiqueiros ou galpões. Foram poucas as localidades em que tais prédios apresentaram condições melhores. A luta pela sobrevivência fez com que as crianças, não raramente a partir do sexto ano de vida, logo fossem incorporadas à atividade produtiva. O número de crianças também não era pequeno, pois muitos filhos significavam maior quantidade de mão de obra.
Viajantes nos dão conta de que cedo as crianças aprendiam a cavalgar e que desde os cinco anos já faziam pequenas compras e entregas, montadas a cavalo. Permaneciam, contudo, analfabetas. Em Rio Claro/SP, um pastor luterano fundou uma escola com internato para reunir crianças, cujos pais colhiam café nos latifúndios. Apesar da precariedade de muitas das escolas de imigrantes, um aspecto é incontestável: impediram a propagação do analfabetismo. Mais tarde, pastores e sacerdotes se valeriam da persistência dos imigrantes, ampliando suas escolas.”