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Um mestre em busca de novos temas

Publicado por admin - Wednesday, 11 December 2013

PERFIL

O professor José Pastore, referência nas áreas de relações do trabalho e recursos humanos, recebe homenagem na FEA

LEILA KIYOMURA

Atentos, os três netos, Mariana, André e Guilhermo, ouviram as histórias do avô José. Não contadas por ele, mas pelos amigos que o acompanham na sua trajetória como professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP.  Também ouviram, orgulhosos, os elogios às suas ideias registradas em mais de 39 livros e artigos de jornais e revistas científicas de todo o mundo.
“José Pastore é um intelectual incansável, criativo e profícuo, que trabalha com uma diversidade enorme de temas e problemas. Quando escolhe um novo foco para dar atenção, e ele não se cansa de procurar novos temas, temos toda a certeza de que o resultado será sempre algo novo, diferente, surpreendente e relevante.” Com essas palavras, o professor Hélio Zylberstajn, do Departamento de Economia, abriu a cerimônia  da Congregação da FEA que reservou a tarde do último dia 27 para homenagear a trajetória de cinco décadas de José Pastore dedicadas à Universidade.
“Mas, antes de falar um pouco da sua obra, gostaria de olhar para o homem ou, antes ainda, para sua família. José Pastore é um grande homem que, por trás, como não poderia deixar de ser, tem uma grande mulher. Wilma, sua esposa, tem sido o apoio que sustenta seus voos largos. É um esposo exemplar, foi um filho dedicado, é um pai carinhoso e presente, mesmo estando longe muitas vezes e por muito tempo da Silvia, da Ana Cláudia e do Eduardo. E, o melhor de tudo, é um avô querido, que conspira com os netos, provocador e inspirador”, continuou Zylberstajn, dirigindo-se a André, Mariana e Guilhermo, que sorriram orgulhosos.

Pastore fala durante evento na FEA em que recebeu homenagem: intelectual criativo e incansável

A história do humanista que antes de entrar na academia lecionou viola e violino foi contada pelo amigo. “Como descrever a carreira e o trabalho de José Pastore? Sua obra é muito grande e muito diversificada, e fica difícil encontrar um roteiro. Penso que duas palavras podem ser um ponto de partida: inovador e empreendedor. José Pastore é um acadêmico inovador e um empreendedor institucional.”

Referência – A travessia do professor de violino que se tornou pesquisador, consultor, articulista, titular da FEA e um dos maiores especialistas brasileiros em relações do trabalho, emprego e recursos humanos e é uma referência no Brasil e no exterior foi reverenciada com os abraços dos professores, familiares e amigos. “Já se vão quase 50 anos que entrei como docente da USP”, contou Pastore. “O tempo passa muito depressa. Muitas coisas ficam para trás e escapam à nossa memória. Outras fixam-se de modo permanente. São lembranças que não se apagam.”
O professor contou que, em 1968, quando concluiu o seu doutorado na Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, voltou para o Brasil cheio de ideias e ideais. E se deparou com o Brasil em plena ditadura. Sua primeira experiência foi desafiadora. Foi contratado por Jarbas Passarinho, então Ministro da Educação, para desenvolver um estudo sobre demanda de profissionais especializados no mercado de trabalho. “Ele esperava resultados que sustentassem sua ideia de generalizar o ensino profissionalizante para toda a rede de escolas públicas. Pois bem. Os resultados saíram ao contrário.”
Pastore relatou que a demanda era irrisória. E lá foi ele para Brasília tentar argumentar para o ministro que o seu plano estava equivocado. “Foi uma desagradável surpresa que estourou como uma bomba. Ele agiu como um coronel e pediu que eu fizesse uma análise rigorosa e que só iria se curvar quando tivesse certeza absoluta dos resultados. Depois de tudo, a contragosto, aceitou as conclusões e reformulou seus planos.” Pastore lembrou que desse incidente nasceu uma grande amizade entre os dois que continua até hoje.
No início dos anos 1970, Pastore foi chamado por outro ministro. Cirne Lima, da Agricultura, queria dinamizar a pesquisa agrícola no Brasil, que apresentava resultados descolados das necessidades dos produtores e dos consumidores. “Ao trazer o desafio para o Instituto de Pesquisas Econômicas, discutimos o assunto em grupo. A FEA já estava internacionalizada, com muitos brasileiros recém- formados no exterior e muitos estrangeiros trabalhando aqui”, explicou.
Naquela época, o professor já projetou um amplo processo de internacionalização na USP. “Junto com Eliseu Alves e Irineu Cabral, propusemos ao ministro criar um arrojado programa para formar 500 mestres e 200 doutores nas melhores universidades do mundo. Formulamos o programa com justificativas sólidas e destacando as vantagens comparativas do Brasil na agropecuária.” Um sonho que custou dinheiro e muita articulação. “Trabalhamos intensamente para levantar recursos com o Banco Mundial, Banco Interamericano e diversas fundações. Houve imensas resistências. Mas a ideia pegou. E assim surgiu a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). O resultado está aí.”
Pastore relatou que os pesquisadores foram para o exterior e trouxeram novas ideias. “Muitos atraíram seus professores para trabalhar na Embrapa, ajudando a organizar e avançar os conhecimentos.”

O professor José Pastore entre a família: pilar de sustentação

Origem da Fipe – Do trabalho para a Embrapa, nasceu outro projeto. Pastore questionou: “Por que não criarmos uma fundação de pesquisas na própria FEA? Fizemos uma análise das fundações existentes na USP e fora dela. A da Politécnica foi a grande inspiradora. E assim surgiu a Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas)”.
Quando olha para a sua caminhada, José Pastore respira fundo. “Lá se vão 40 anos. Hoje, vejo com alegria que a Fipe é uma das mais respeitadas instituições do Brasil. Tenho orgulho de ter participado dos seus primórdios e ter assinado o seu estatuto de criação.”
As histórias do professor não param por aí. Como bem concordam os netos, “o avô sempre surpreende”. E, como bem definiu o professor Hélio Zylberstajn, é mesmo um homem à frente do seu tempo. “Seu lado inovador e empreendedor se manifesta a partir do final dos anos 1970 até hoje também nas questões institucionais ligadas ao mercado de trabalho.”
Zylberstajn destaca a atuação de Pastore ao formular a política salarial que garantia aos trabalhadores a reposição da inflação e abria espaço para a negociação de aumentos reais anuais, na época denominados aumentos pela produtividade. “No início dos anos 1980, ele se atreveu a falar em administração do conflito trabalhista, quando o tema era tratado ou como luta de classes ou como litígio jurídico. Foi Pastore que, nessa época, propôs o conceito de unidade de negociação, na qual sindicatos e empresas negociariam salários e condições de trabalho.”
Ideias polêmicas e arrojadas que pontuam a trajetória de José Pastore. Questões delicadas como a das pessoas com deficiência e políticas públicas adotadas no Brasil, como a lei de cotas, foram esclarecidas e analisadas pelo professor. “E, mais recentemente, abraçou uma causa mais difícil ainda, que é a inserção de ex-infratores no mercado de trabalho.”
Aos 78 anos, esse paulistano continua trabalhando, pesquisando, lecionando, sendo também consultor de órgãos internacionais. O fôlego, ele atribui ao incentivo dos amigos e ao afeto dos alunos. Faz questão de destacar: “Um pilar de sustentação importante é a minha esposa Wilma, os meus três filhos e os meus netos. Sem eles, nada seria possível”.