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O Erasmos e sua história, agora recontada em cores

Publicado por admin - Wednesday, 18 December 2013

ARQUEOLOGIA

Projeto busca revitalizar patrimônios históricos na Baixada Santista – entre eles o Engenho de São Jorge dos Erasmos, do século 16 – riando “corredor cultural” e impulsionando atividades científicas e culturais na região


SYLVIA MIGUEL

Em Santos

Um engenho sem seu poderoso senhor e comandado por feitores assalariados. Escravidão autóctone, ou seja, trabalho cativo realizado por indígenas e não por estrangeiros da África. Não apenas por ser pioneiro no Brasil, o então Engenho do Senhor Governador, rebatizado Engenho de São Jorge dos Erasmos, constitui uma experiência histórica única no sistema colonial português da América. O modelo foge do típico engenho de açúcar nordestino e, junto com o sistema produtivo vicentino, coloca em xeque as interpretações relativas à inadaptabilidade dos indígenas quanto ao trabalho compulsório. Quando a grande metrópole açucareira (Lisboa) monopolizava a grande colônia produtora (Brasil), abastecendo quase todo o mercado mundial, existia no Brasil a monocultura, o monopólio e a escravidão. Mas a economia vicentina, simbolizada pelo Engenho dos Erasmos, junto aos engenhos santo-amarenses, constituiriam espécimes diferenciados do ponto de vista de sua estruturação funcional, fugindo à lógica monopolista e escravagista africana.

Torre de observação e passarelas previstas no projeto: espaço revitalizado

As capitanias de São Vicente e Santo Amaro representam nada menos que o epicentro da implantação da economia açucareira no Brasil, entre os anos de 1534 e 1570. Em 1546, a capitania vicentina já produzia 50% de todo o açúcar que chegava à Europa. Até 1570, um parque produtivo de 60 engenhos sustentou-se sobre o trabalho cativo da própria terra. A produção açucareira não evoluíra na região meridional no mesmo ritmo com que o fizera no Nordeste. Mas conseguiu se manter como principal riqueza dos paulistas até meados do século 17.
Um pouco dessa história ganhará cor e som e poderá ser vista também sob a perspectiva de uma torre de observação e de passarelas a serem instaladas em breve sobre as Ruínas Engenho São Jorge dos Erasmos, monumento nacional localizado em Santos, no litoral paulista, mantido pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU) da USP. Trata-se de mais um ambicioso projeto da Pró-Reitoria, idealizado para democratizar esse patrimônio e revitalizar espaços fundamentais da época da colonização: o Porto de Santos e os engenhos produtores de açúcar.
Em fase de liberação de recursos, o projeto patrocinado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) mobilizará algo como R$ 3,3 milhões para a construção de passarelas e torres de observação sobre o sítio arqueológico do Engenho dos Erasmos. Os investimentos também se direcionam para a infraestrutura de um programa de projeções audiovisuais mapeadas – que sincroniza trilhas musicais e paisagens projetadas sobre os remanescentes arquitetônicos do engenho –, além de bolsas para pesquisa e projetos de extensão e cultura.
“O projeto possibilitará à Universidade não apenas interagir com a comunidade, mas estabelecer um novo significado na relação com o entorno a partir da criação de um corredor cultural e educativo que buscará revalorizar e ressignificar espaços que hoje estão degradados, mas representam nossa história e nosso patrimônio”, afirma a pró-reitora de Cultura e Extensão Universitária, professora Maria Arminda do Nascimento Arruda.
Como parte das iniciativas de revitalização, o engenho sediou o 4º Seminário Internacional de História do Açúcar: Patrimônio, Economia e Sociedade, entre os dias 2 e 6 de dezembro. Promovido pela PRCEU, em parceira com a Cátedra Jaime Cortesão da USP e Instituto Camões, o evento reuniu especialistas de Portugal, Argentina, México, Cuba, Espanha, Estados Unidos e Bélgica (leia o texto na página ao lado).
Para a diretora das Ruínas do Engenho, Vera Lucia Amaral Ferlini, professora de História Econômica da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, o projeto impulsionará o desenvolvimento e a cultura na zona noroeste de Santos, região periférica e pouco assistida socialmente.
“A revitalização do entorno se dará por meio de projetos científicos e culturais e atividades educativas. O engenho recebe atualmente cerca de 10 mil pessoas por ano. Não seria possível aumentar esse número pelas próprias limitações do local, pois é um sítio arqueológico que precisa ser preservado. Sendo assim, as passarelas possibilitarão aumentar o volume de visitas sem comprometer o terreno, além de permitir que o trabalho arqueológico seja retomado”, afirma a professora Vera.

Ruínas incomparáveis – “Não há ruínas semelhantes em todo o País. O engenho ocupa lugar fundamental na compreensão da história colonial do Brasil e mostra a diferença de São Paulo no contexto açucareiro brasileiro. É um ícone que merece ser transformado em vórtice cultural, conforme propõe o projeto patrocinado pelo BNDES”, afirma o professor José Jobson de Andrade Arruda, da FFLCH, que também participou do 4º Seminário Internacional de História do Açúcar.
Doado à USP em 1958, o museu do engenho iniciou a partir de 2004 programas educacionais interdisciplinares. A programação de atividades e a agenda de visitas monitoradas podem ser encontradas no site, pelo link http://citrus.uspnet.usp.br/engenho/novo/?q=node/9.

As ruínas e o cemitério do Engenho: monumento é testemunha de uma experiência histórica única do sistema colonial português na América

Da construção erguida próxima ao canal do rio São Jorge, no Morro da Caneleira, atual Vila São Jorge, em Santos, sobraram paredes de alvenaria em pedra e cal, muros de contenção e alicerces. As primeiras prospecções arqueológicas foram realizadas em 1966 pela professora Margarida Andreatta, pesquisadora do Museu Paulista, que mapeou restos de louça, faiança, vidros e metais.
A pesquisa arqueológica prosseguiu com os trabalhos do professor José Luiz de Morais, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP. A escavação executada entre 2002 e 2003 revelou um cemitério destinado aos trabalhadores do engenho, no qual havia 19 esqueletos, sendo 18 com características indígenas e um deles com traços negroides.
Enterrados conforme diferentes ritos funerários, as ossadas revelam um sincretismo religioso e um hibridismo cultural forte que, de algum modo, representaram resistências culturais num conflituoso ambiente de contato social e cultural, segundo o historiador Victor Lordani Geampaulo, que acaba de realizar uma análise historiográfica a respeito do cemitério e seu contexto. Sua dissertação de mestrado, intitulada “Engenho dos Erasmos: aproximações acerca da morte e da vida no complexo açucareiro vicentino (séculos XVI e XVII)”, foi recém-apresentada na FFLCH e já está disponível na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP (www.teses.usp.br).
“O trabalho científico no sítio arqueológico do engenho e proximidades está apenas engatinhando. Ainda há muito por revelar e esperamos que o projeto financiado pelo BNDES dê novo fôlego às pesquisas no local”, afirma a diretora do engenho.
Diversas intervenções têm sido realizadas no terreno, visando à preservação do local. A mata adjacente às ruínas remete à importância das florestas tropicais e da mata atlântica. Com o objetivo de preservar também o patrimônio natural, a USP empreendeu um replantio de árvores por volta de 1966, o que resultou num repovoamento da fauna e flora nativas, segundo a professora Vera.  Exemplo disso são os saguis, gaviões e cobras que constantemente visitam o local, conta o educador da equipe do engenho, André Müller de Mello.

Ambiente: além de reconstituir a história do Brasil colonial, projeto contribui para recuperar a flora e a fauna típicas do litoral paulista

Forasteiros e indígenas – Martin Afonso de Souza, donatário da Capitania de São Vicente e um dos pioneiros na colonização do Brasil, fundou as bases da ocupação na Baixada ao criar uma infraestrutura voltada à fixação dos portugueses no território. Tal núcleo incluiu o engenho de açúcar, fundado por ele em 1534. Mais tarde, o então Engenho do Senhor Governador passou para a família Schetz, da Antuérpia, que adquiriu parte da sociedade. Esta se desfez quando Afonso de Souza viajou para as Índias, mas em 1540 toda a sociedade foi comprada por Erasmus Schetz, um alemão estabelecido em Flandres, comerciante e bancário na Europa, de onde vem o nome atual do engenho.
O caráter excepcional do engenho era justamente o fato de Erasmus Schetz ser um estrangeiro que adquiriu terras no Brasil e que, baseado na Bélgica, plantava e transformava a cana, transportando o produto para o refino na Antuérpia, conta o professor Andrade Arruda. “O local é hoje o único exemplar que restou na Baixada Santista, testemunho dos tempos em que a indústria açucareira era o produto essencial nos negócios e na economia da Capitania de São Vicente”, afirma o professor.

Um debate entre ruínas históricas

Patrimônio, economia e sociedade foram os eixos temáticos que nortearam os debates do 4º Seminário Internacional de História do Açúcar: Patrimônio, Economia e Sociedade. Realizado nas Ruínas Engenho São Jorge dos Erasmos pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP – em parceria com a Cátedra Jaime Cortesão da USP e o Instituto Camões –, entre os dias 2 e 6 de dezembro, o evento teve como objetivo mapear as dimensões plurais que o patrimônio açucareiro traduz.

O seminário realizado no Engenho, nos dias 2 a 6 passados: revelações sobre a economia e a sociedade no início da época colonial brasileira

Como exemplo das dimensões que buscou traduzir, o evento trouxe estudos curiosos. Uma das mesas de debates mostrou como se deu a “perpetuação das doçuras”, ou seja, a manutenção de patrimônios imateriais possibilitada por cadernos manuscritos de receitas da época, em trabalho apresentado por Eliane Morelli Abrahão, da Unicamp.
Alguns autores focaram a literatura colonial, como Francisco de Salles Gaudêncio, professor do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal da Paraíba, que apresentou o trabalho “Uma viagem ao mundo fantástico de José Lins do Rego”. A mesa da qual participou mostrou o entrecruzar da literatura com a história.
Estudos sobre a produção da cana-de-açúcar na Argentina, em Cuba, Estados Unidos e outros centros produtores foram apresentados por diversos professores estrangeiros que participaram do evento realizado na Base Avançada da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP na cidade de Santos.
A ideia do seminário era ser bienal, segundo a diretora do Monumento Nacional Ruínas Engenho São Jorge dos Erasmos, professora Vera Lucia Amaral Ferlini, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Mas, devido a ajustes físicos no engenho em 2012 e revisão dos cronogramas, o evento foi transferido para o final deste ano. Propriedade da terra e cultura material foram alguns dos temas já abordados no evento.
Neste ano, patrimônio foi escolhido como tema central em função das reflexões sobre uso, musealização e educação ligados ao engenho, afirma a diretora. “O evento foi uma oportunidade de mobilizar centros de pesquisa, institutos de ensino e programas de pós-graduação com o intuito de incentivar o diálogo e a interação de diversas áreas do conhecimento”, segundo a professora.