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Páginas de um mesmo livro

Publicado por admin - Wednesday, 18 December 2013

EVENTO

Evento na Tenda Ortega y Gasset discute as ricas contribuições de árabes, judeus e cristãos para a formação da cultura ocidental

IZABEL LEÃO

Para refletir sobre o Oriente e o Ocidente no espírito das grandes escolas de tradução, a de Alexandria, sob Alexandre Magno, e a de Toledo, sob Afonso X, o Sábio, a Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP – em parceria com a Secretaria de Cultura da Prefeitura de São Paulo – realizou o seminário Diálogo das Civilizações, coordenado e organizado pela artista plástica Denise Milan e a professora Olgária Matos, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. O seminário ocorreu nos dias 9 e 10 na Biblioteca Mário de Andrade e na Tenda Ortega y Gasset, na Cidade Universitária.
O evento contou com a presença de palestrantes internacionais e nacionais das áreas de literatura, história, filosofia e artes, que buscaram – a partir do encontro das tradições cristã, árabe e judaica da Idade Média com o mundo contemporâneo – refletir sobre o cosmopolitismo do espírito como um bem coletivo e direito de todos. “Essas culturas, ao se traduzirem umas nas outras, criaram para o Ocidente a forma por excelência da convivialidade, da confiança e da hospitalidade. O seminário visa a reaver essa herança, que é a memória viva de todas as culturas e civilizações”, reflete Olgária Matos.
Para Denise Milan, artista plástica que usa o quartzo como essência do seu trabalho, não se trata de dois povos, e sim de todos os povos da terra. “A ideia é falarmos da coexistência possível entre os diferentes, porque a partir dessa coexistência podemos entender que ela pode ser amplificada e expandida. São Paulo é um lugar por excelência de várias civilizações que convivem pacificamente. Temos nela italianos, espanhóis, japoneses, russos, poloneses, árabes, libaneses, judeus. Essa conjugação é que traz a força”, afirma.
Denise diz ainda que essa proposta de diálogo tenta compreender o que é comum a todos os povos e o que os une, que seria a “língua da terra”, por isso o quartzo, uma pedra comum no mundo todo. “Essa língua, na hora de se conectar com os processos de criação da terra, mostra como eles se repetem em nossas vidas. A coexistência já aparece na natureza e antecede a qualquer criação, fazendo parte dos primórdios, das nossas origens e nas origens da espécie humana, parte de um ponto comum. A diversificação não é para criar a retaliação, e sim a adequação possível de cada povo num determinado ambiente.”
O Diálogo das Civilizações traz um recorte do século 12, em Toledo e Andaluzia, onde há o encontro pacífico de três civilizações – a hebraica, a árabe e a cristã –, o que, para Denise, é um modelo em que deveríamos nos inspirar, já que somos herdeiros dos povos do Mediterrâneo. “É nesse alinhamento e com essas heranças que podemos amplificar as várias vozes, já que vejo o Brasil como o ponto onde pode brotar uma lucidez para o mundo, porque conseguimos abrigar e acolher hospitaleiramente tantos diferentes”, explica.

O evento na Tenda Cultural: exemplo histórico de convívio entre civilizações

Para a pró-reitora de Cultura e Extensão Universitária da USP, professora Maria Arminda do Nascimento Arruda, o debate contempla civilizações antigas que nasceram de um tronco comum e hoje protagonizam os principais questionamentos e conflitos existentes no mundo. “Só desenvolvendo um diálogo desse gênero é possível compreender melhor e buscar caminhos para algum tipo de equacionamento, e a cultura tem um papel central neste processo.”

Arquétipo – Olgária Matos afirma que a civilização mediterrânea, o Oriente Médio, é o arquétipo do encontro de culturas e temporalidades, realizando o ideal do homem como cidadão do mundo. “Todos nós somos páginas de um mesmo livro espalhadas pelo mundo.”
O rabino e professor em cursos de extensão de Filosofia e Pensamento Judaico na USP Alexandre Leone apresentou o tema “Tensões e Encontros no Pensamento de Maimônides entre o Aristotelismo Medieval e a Tradição Rabínica”, mostrando a posição do filósofo Maimônides, entre os anos de 1138 e 1204 na história do pensamento judaico.
A obra de Maimônides marca a passagem entre o primeiro período da filosofia judaica medieval, que vai do século 10 até o final do século 12, e o segundo momento, que vai do século 13 até o século 15. Leone explica que no primeiro período a filosofia judaica esteve fortemente associada à cultura árabe islâmica. Os judeus viviam no Oriente Médio, no norte da África e na Península Ibérica, falavam, liam e escreviam em árabe e estavam bastante integrados às sociedades em seu entorno, participando ativamente da vida cultural daquele momento. “Embora a língua de expressão filosófica judaica fosse o árabe, a maior parte dos escritos filosóficos daquele período não sobreviveu ao árabe, mas nas traduções para o hebraico, que foram feitas ainda durante a Idade Média. Por isso o filósofo Maimônides foi quem mais influenciou a filosofia judaica e a ocidental posterior”, reflete o rabino. “Sua obra marca o auge e também o final do primeiro período da filosofia judaica medieval. É o ápice e o divisor de águas.”
O diplomata francês Anis Nacrour, a serviço da Ação Europeia Externa baseada na Síria, mostrou que, desde o início da década, os Estados Árabes atravessam uma grave crise, que não apenas perturba profundamente a ordem precedente, mas provoca ondas de choque em seus vizinhos imediatos, repercutindo internacionalmente. Ele acredita que, embora em gestação, essa crise terá consequências importantes não somente nas relações entre os Estados, mas também sobre o comportamento individual. Destacou que seu papel como diplomata é escutar, com tolerância e sem engajamento, o diálogo aberto, desempenhando o papel de interceder e mediar para transformar “as identidades assassinas”, descritas pelo escritor libanês Amin Maalouf, em identidades conciliadoras, co-habitantes e pacificadoras como a missão de Sísifo, tema da sua fala. Ele lembrou ser uma tarefa sem fim, mas que deve empreender com tenacidade, tendo em mente um “Sísifo feliz”.
O professor de Direito Internacional da Faculdade Getúlio Vargas e presidente do Instituto de Cultura Árabe Salem H. Nasser falou sobre o que é ser árabe no Brasil. Para ele, identidade e pertencimento não são apenas temas fundamentais da reflexão sobre as civilizações, mas também constitutivos da experiência e do drama do imigrante. “Não se trata somente de um ou de outro contexto, de definição da identidade, já que se impõem as possibilidades da multiplicidade identitária e do apagamento da identidade.”
Nasser afirmou ainda que essa reflexão é o que orienta o que é ser árabe no Brasil. “Tanto o drama do pertencimento quanto a percepção são fatores a afetar o diálogo, tão necessário como exercício de reconhecimento de si e do outro.”
Para Edward Alam, professor da Faculdade de Humanidades da Universidade de Notre Dame – Louaize, no Líbano, é importante, para a sobrevivência da genuína filosofia, que os pensadores contemporâneos retornem com frequência às fontes perenes de sabedoria.
Citou como um dos resultados filosóficos mais significativos da história a experiência de Toledo e seus antecedentes no oeste da Ásia, durante a era abássida (entre os séculos 8 e 13), quando judeus, cristãos e muçulmanos cooperavam, transmitindo, desenvolvendo e apropriando suas culturas, para seu próprio amadurecimento. “O passado e o presente paradoxais do Líbano fazem dele um lugar ideal para cultivar tal fonte da filosofia. Em particular, os modos como as filosofias islâmica e cristã podem se encontrar hoje no Líbano.”

O novo espaço cultural da USP

Para ampliar o diálogo entre a USP e a sociedade, a Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária inaugurou em outubro a Tenda Cultural Ortega y Gasset, instalada na Praça do Relógio, coração da Cidade Universitária.
Segundo a pró-reitora Maria Arminda do Nascimento Arruda, a tenda é um equipamento cultural que permite o desenvolvimento de várias atividades culturais e debates científicos, servindo como difusora da cultura e da ciência. “Ao mesmo tempo em que comporta concertos, peças de teatro e sessões de cinema, abriga seminários e performances, abarcando um leque infinito de possibilidades”, ressalta. “A tenda simboliza uma forte presença da cultura no campus. Queríamos algo arrojado, porque não existe cultura sem autonomia, liberdade, vanguarda e ousadia.”

A Tenda Cultural Ortega y Gasset, na Cidade Universitária: espaço de vanguarda

Maria Arminda destaca que a Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária quer oferecer à comunidade uspiana e à cidade de São Paulo um espaço de vanguarda, fruto de uma política de valorização e requalificação das atividades culturais da Universidade, que resulta em um maior volume de recursos aplicados em cultura em toda a história da USP.
A escolha do nome Ortega y Gasset presta homenagem ao grande pensador espanhol do século 20, que morou na Argentina, fugindo do franquismo na Espanha, e que vinha frequentemente ao Brasil, deixando grandes contribuições. “Roberto Freire, que construiu uma interpretação rigorosa sobre o Brasil, teve um profundo diálogo com Gasset”, explica Maria Arminda.
A tenda possui 2.300 m2, que se distribuem entre o foyer, dotado de café com varanda, passarela suspensa e espaço de exposições – painel de projeções ao ar livre e auditório com 565 lugares e palco multifuncional com 112 m2, estrutura e cenografia versáteis capazes de proporcionar infraestrutura básica para diferentes usos culturais. Ao lado da varanda do café, um gramado funciona como plateia ao ar livre para um painel de Led de 30 m2, onde serão programadas exibições audiovisuais para o grande público.
O projeto arquitetônico da Tenda foi desenvolvido pela Associação Casa Azul, que há onze anos realiza a Festa Literária Internacional de Parati (Flip). A sua realização recebeu apoio de diversos órgãos da Universidade e do Banco Santander.

Osusp e Roberta Sá – A Tenda Ortega y Gasset encerra a programação de 2013 em grande estilo. Nesta terça-feira, dia 17, às 18 horas, a Orquestra Sinfônica da USP (Osusp) se apresenta ao lado da convidada especial Roberta Sá. A regência é do maestro Ricardo Bologna. É preciso retirar ingressos com antecedência.

Tenda Cultural Ortega y Gasset, rua do Anfiteatro, s/nº, Praça do Relógio, Cidade Universitária. Mais informações: telefones (11) 3091-1933 e 3091-1778, e-mail tenda.contato@usp.br, facebook.com/tendaculturalortegaygasset, twitter @tendausp.