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Relatos de um massacre

Publicado por admin - Wednesday, 5 February 2014

LIVROS

Jornalista conta a história do genocídio de Ruanda e faz um retrato da vida no país 20 anos depois dos confrontos que mataram mais de 1 milhão de pessoas


GABRIELA MALTA FELIX

USP Online

Em 2014 completam-se duas décadas dos assassinatos em massa cometidos em Ruanda – um genocídio que não precisou de mais do que três meses para deixar 1 milhão de mortos. O livro O País das Mil Colinas, da jornalista Andréia Terzariol Couto, retrata o extermínio a partir de pesquisa bibliográfica e dos relatos de sobreviventes.
Pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Popular e Alternativo (Alterjor) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, Andréia conta que fez duas viagens ao país e mais de 40 entrevistas para escrever o livro. “Sempre me interessei pelo tema e, em 2002, comecei minha pesquisa na Biblioteca de Estudos da Linguagem da Unicamp. Dois anos depois, já tinha esgotado todo o material disponível. Comecei, então, a tentar contatos em Ruanda”, diz.
O livro é uma colcha de retalhos que resgata fatos da história, junto a relatos do que a autora ouviu sobre o massacre e à sua percepção de como está a vida no país depois da tragédia. “O genocídio tem raízes no século 19, na época da colonização, e por isso é importante retratar o que acontecia antes da chegada do colonizador”, disse.
Os relatos foram obtidos nas duas viagens que a jornalista fez ao país, especificamente para a pesquisa, entre 2004 e 2006, em temporadas que duraram dois meses cada e nas quais ela ficou hospedada em casas de famílias, igrejas e alojamentos. “Enviei uma carta de apresentação para o cônsul do país africano na Escócia. Ele me colocou em contato com pessoas que tinham acesso aos arquivos da Universidade Nacional de Ruanda”, conta. Como o país não tem representação diplomática no Brasil, o embaixador ajudou Andréia com o visto para a viagem.
A autora optou por realizar entrevistas informais, em tom de conversa. Quando foi a Ruanda pela primeira vez, em 2004, nem todos aceitavam com facilidade falar sobre as marcas doloridas de uma década antes. “O clima de conversa amenizava as lembranças”, explica.
Andréia conversou com pessoas que eram crianças durante o genocídio e cresceram no exílio. Além do contato com a população, a jornalista pesquisou os acervos da universidade local.

Facões –
Dois grupos étnicos habitam Ruanda: a maioria hutu e a minoria tutsi. O estopim do massacre aconteceu quando o avião que levava o presidente Juvenal Habyarimana, um hutu, foi derrubado ao sobrevoar a capital Kigali, em abril de 1994. Os tutsis foram considerados culpados pelo ataque. O incidente deu origem a uma onda de violência que se espalhou pelo país. A maioria dos mortos era da etnia tutsi, e a maioria dos executores era hutu.
Ruanda convivia com a tensão étnica desde o período colonial. Os colonizadores belgas acreditavam que os tutsis eram superiores aos hutus, e esse cenário de desigualdade se manteve ao longo dos anos.
O governo hutu armou com facões grupos da população que apoiavam o governo e o exército e incitou a violência dos hutus contra os tutsis. Em pouco menos de três meses, mais de 1 milhão de pessoas foram mortas.
Mas a ação do governo foi além da distribuição de armas. Segundo Andréia, a mídia – o rádio, principalmente – teve papel preponderante na disseminação da campanha racista iniciada pelas autoridades hutus. “O genocídio foi o ápice de outras agressões que já haviam acontecido antes”, diz a jornalista. “As pessoas estavam de sobreaviso, mas ninguém esperava um ataque na proporção do que aconteceu.”
De maneira geral, não houve intervenção internacional durante os ataques. A França mandou aviões para Ruanda, mas para resgatar apenas cidadãos franceses que estavam no país. Andréia acredita que, se países da Europa como França ou Bélgica tivessem interferido, a violência não teria sido tão desenfreada.
A situação de Ruanda quando Andréia visitou o país, porém, já era outra. Funcionários do alto escalão do governo foram julgados e condenados num tribunal internacional da Organização das Nações Unidas (ONU). Cidadãos comuns foram enviados para as cadeias locais e ocorreram também julgamentos em tribunais comunitários, seguindo a tradição local. Apenas depois do massacre o governo assumiu oficialmente que o país era composto por tustis e hutus.
Foi então adotada uma política para combater a segregação entre as etnias. “Enxergo um esforço de reconstrução nacional. Parece que não há rancor. Eles querem seguir em frente”, diz Andréia.
A pesquisadora atribui à religião um papel importante no discurso conciliatório entre as etnias. “O povo ruandês é muito religioso, e após o genocídio eles se voltaram para a religião como forma de apaziguar seus corações. O discurso religioso do perdão foi muito importante”, considera.
Além do lançamento do livro, faz parte dos planos do Grupo Alterjor – cujo site pode ser visitado na internet no endereço www.usp.br/alterjor – realizar um evento para lembrar os 20 anos do genocídio.

O País das Mil Colinas, de Andréia Terzariol Couto. Editora Appris (www.editoraappris.com.br), 263 págs., R$ 56,00