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A arte de pintar a ciência

Publicado por admin - Wednesday, 12 February 2014
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Lilly Ebstein Lowenstein: em livro, a história da artista alemã que estudou em Berlim e trabalhou na Faculdade de Medicina da USP

LANÇAMENTO

Conjugar o conhecimento técnico da fotografia e do desenho e registrar as pesquisas com arte foram os desafios da alemã Lilly Ebstein Lowenstein. Um trabalho que está sendo homenageado em livro escrito por Monica Musatti e Roney Cytrynowicz
LEILA KIYOMURA

“Este livro é um resgate. Resgate afetivo de uma avó com letras maiúsculas que foi uma pessoa tenaz, talentosa e sofisticadíssima intelectualmente. Com minha avó aprendi a cultuar o conhecimento e a criatividade. Com minha avó Lilly aprendi a desenhar. Seu traço firme nos encantava.” São as lembranças da neta Ester Silva Lowenstein que abrem o livro Ciência e Arte – A Trajetória de Lilly Ebstein Lowenstein entre Berlim e São Paulo (1910-1960), escrito por Monica Musatti Cytrynowicz e Roney Cytrynowicz.

ReproducãoA avó das mãos que encantavam com sua habilidade de desenhar, de dedilhar ao piano sonatas de Chopin e preparar biscoitos alemães deixou um legado singular para a evolução da ciência brasileira. A alemã Lilly Ebstein Lowenstein foi desenhista e fotomicrógrafa da Seção de Desenho e Fotografia na Faculdade de Medicina da USP, trabalhando em pesquisas e artigos de cientistas como Alfonso Bovero, Renato Locchi, Carmo Lordy e Ernesto de Souza Campos, entre muitos outros.

“A trajetória de Lilly pode ser narrada sob várias perspectivas que se integram e entrelaçam. A primeira delas é a de uma vida que sintetiza o percurso das mulheres nas primeiras décadas do século 20, período de consolidação da emancipação e do acesso ao estudo e às profissões técnicas em países como a Alemanha, onde Lilly realizou a sua formação na escola Lette-Verein, em Berlim, de 1911 a 1914”, contam os autores. A história de uma profissional entre a ciência e a arte, que emigrou para São Paulo, em 1925, com o marido e dois filhos, para trabalhar em um “mundo eminentemente masculino”, também tem uma abordagem social importante. “Na época em que Lilly começou a trabalhar na Faculdade de Medicina, diplomaram-se 37 médicos, dentre os quais apenas uma mulher.”

Os autores traçam também o cotidiano da desenhista no mundo da ciência e da pesquisa científica desde Berlim, onde foi aluna do anatomista Hans Virchow, até a sua contratação em São Paulo. “O trabalho de Lilly, com suas ilustrações e fotomicrografias, era imprescindível à pesquisa científica e sua divulgação, uma vez que apenas o texto nas publicações não era suficiente para consolidar e transmitir os novos conhecimentos.”

ReproducãoHistórias – O livro Ciência e Arte – A Trajetória de Lilly Ebstein Lowenstein entre Berlim e São Paulo (1910-1960) foi organizado em seis capítulos. O primeiro apresenta a desenhista na Alemanha e mostra o contexto em que estudou e a situação de seu país na história mundial. Do segundo ao quarto capítulo, os leitores observam as suas atividades profissionais, atuando com grandes pesquisadores, professores e cientistas. E, ao mesmo tempo, acompanha a história da Faculdade de Medicina, incorporada à USP em 1934, e do Instituto Biológico no contexto do processo de modernização e urbanização de São Paulo.

O capítulo 5 apresenta os desenhos do livro Anatomia Topográfica. Parte Especial. Membro Superior, publicado em 1955, assinado pelo anatomista Odorico Machado de Souza, professor da Faculdade de Medicina e discípulo de Alfonso Bovero, que pretendia realizar uma série completa. A edição foi ilustrada por Lilly e esse foi seu último trabalho.

Já o capítulo 6 se refere à fotomicrografia e ao olhar microscópico. “Foi com o Renascimento, no século 16, que o corpo humano começou a ser desenhado de forma desassombrada, fora dos limites da religião na Idade Média, quando o corpo era apenas a morada da alma e não tinha valor nem para o prazer nem para a ciência”, explicam Monica Musatti e Roney Cytrynowicz. “A invenção do microscópio, no século 17, o desenvolvimento do olhar microscópico e o estabelecimento da biologia celular, no século 19, foram outra frente significativa para a compreensão dos desenhos e fotomicrografias realizados por Lilly.”

ReproducãoVida e trabalho – Para realizar a pesquisa, Monica e Cytrynowicz observaram os acervos da família, publicações científicas, livros e revistas das bibliotecas da Faculdade de Saúde Pública, da Faculdade de Medicina – ambas da USP – e do Centro de Memória do Instituto Biológico, além das publicações do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. Também investigaram os arquivos da Escola Lette-Verein, em Berlim, instituição que, segundo os autores, acompanharam e apoiaram o projeto do livro desde o seu início.

Através das fotomicrografias e dos desenhos, os autores foram se aproximando da vida pessoal de Lilly. Uma face pública impressa em dezenas de publicações científicas. Através do olhar e da técnica com que ela desenhava, os autores foram descobrindo, nas imagens artísticas, delicadas e precisas, um retrato da personalidade e do espírito da artista. “Eram – o trabalho, a sua dedicação como funcionária e chefe, os desenhos, a trajetória profissional – o que ela quis legar como retrato de sua vida, exemplo para inspirar descendentes, netos e seguidores na profissão”, observam os autores. “Muitos dos desenhos e fotomicrografias estão assinados como ‘L. Ebstein’, o que indicava duplamente uma identidade profissional solidamente estabelecida ainda jovem, no campo da ilustração e da fotografia microscópica, e o reconhecimento de um trabalho que era também autoral.”

CapaOs desenhos feitos com bico de pena revelam a preocupação da artista em documentar a realidade tal como é. A série de ilustrações de Lilly realizadas para o Instituto Biológico são acompanhadas por fotografias que foram utilizadas como referência, e o observador precisa estar muito atento para identificar a gravura e a foto, tal a preocupação da desenhista com os detalhes.

Retrato delicado – “A ênfase nos registros da vida profissional reforça o valor que Lilly dava ao seu trabalho e o melhor retrato que temos dela é em sua mesa de trabalho, com um avental, em plena atividade, cercada de papéis, equipamentos, ferramentas e quadros”, ressaltam os autores. “Lilly olha para a câmera fotográfica com sua estatura média, rosto oval, olhos e cabelos escuros, enquanto continua a trabalhar. Ela não permite, no instante da fotografia, que a intenção do registro pessoal se sobreponha à do profissional. O que se retrata ali é seu trabalho, é ela como profissional, é a figura da desenhista e fotomicrógrafa chefe da Faculdade de Medicina, e não a sua intimidade ou silhueta como pessoa. A firmeza do seu olhar não deixa dúvida ou qualquer ambiguidade sobre isso.”

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A precisão da artista: nas imagens ao lado, os desenhos de Lilly (à direita) reproduzem fielmente as fotos da ave (à esquerda)

As imagens do livro propõem um olhar atento. É preciso ver os detalhes com que a desenhista registra a anatomia humana e também as imagens microscópicas. Os pesquisadores observam que o que poderia ser apenas um desenho artístico ganha notável caráter científico e o que poderia ser apenas um desenho informativo ganha admirável qualidade artística. “É possível encontrar Lilly, nesse sentido, em cada traço ou pincelada do seu olhar sobre o homem, os animais, as células e o conjunto da natureza, perscrutando os detalhes do corpo humano e dos animais, da vida, sondando os mistérios e os contornos da criação e da ciência. Recriando-os em desenhos que permanecem muito além da sua própria finitude”, revelam os autores.

As imagens da personalidade alegre e delicada da artista ficam por conta das lembranças da neta Ester Silva Lowenstein, idealizadora e mentora do projeto do livro. “Minha avó Lilly adorava dar festas. Sempre comemorou Natais memoráveis, seguindo a tradição alemã de se cantar canções ao redor de imensos pinheiros naturais ricamente decorados com velas vermelhas acesas”, lembra. “Os judeus alemães viviam esse dilema entre terem tido a cidadania plena alemã e o fato de terem sido usurpados desses valores. Minha avó se orgulhava e repetia sempre que na casa dela só se falava Hochdeutsch, o alemão digamos oficial e padrão.”

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A arte de Lilly Ebstein Lowenstein: legado de amor e dedicação à ciência

Lilly Ebstein Lowenstein nasceu em Breslau – hoje Wroclaw, cidade que pertence à Polônia desde 1945 –, em 7 de abril de 1897. Sua família mudou-se para Berlim, onde estudou de outubro de 1911 a abril de 1914. Começou a trabalhar na Faculdade de Medicina da USP meses depois de vir para o Brasil. Foi funcionária por 30 anos, de janeiro de 1926 a dezembro de 1955, quando se aposentou. Passou seus últimos dias de vida na cidade do Guarujá, onde faleceu em 5 de junho de 1966. “Minha avó Lilly, a única que conhecemos, minhas irmãs e eu, nos transmitiu a cultura alemã que admira contos de fadas, as Märchen como a da Frau Holle, tanto quanto preza a devoção ao fatiar um bolo chamado Baumkuchen”, recorda a neta Ester.