Home » 1022 (17 a 23.02.2014), Cultura

Contribuições do Oriente para a cultura

Publicado por admin - Tuesday, 18 February 2014

LANÇAMENTO

Livros dos pensadores chineses Lao Tsé e Confúcio e dos filósofos árabes medievais Algazali e Averróes – traduzidos diretamente das línguas originais – estão entre os textos publicados na revista Notandum, da Faculdade de Educação, disponível gratuitamente na internet

Existem ainda muito preconceito e desinformação, no Ocidente, a respeito do mundo árabe. Traduzir para o português as grandes obras da literatura oriental é uma ótima maneira de combater esse problema e mostrar a grande contribuição dos povos de língua árabe para a civilização. Foi o que disse a professora Aida Hanania, docente aposentada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, no dia 11 passado, em São Paulo, durante o lançamento da nova edição da revista Notandum, publicada pelo Centro de Estudos Oriente & Ocidente (Cemoroc) da Faculdade de Educação da USP.
Com o dossiê “Clássicos do Oriente”, a revista traz textos de dois grandes pensadores árabes medievais, Algazali (1058-1111) e Averróes (1126-1198), traduzidos diretamente do árabe pela professora Aida, ex-chefe da Departamento de Letras Orientais da FFLCH. De Algazali – pensador místico nascido na Pérsia –, são publicadas cem máximas de sabedoria, que, como escreve Aida, representam uma autêntica expressão da alma islâmica. “Em vez de longos e articulados discursos, a língua árabe (o pensamento árabe) expressa-se de modo muito mais natural e autêntico por rápidas sentenças de caráter incisivo, que atingem o íntimo do interlocutor por condensarem séculos (ou milênios) de uma sabedoria mais do que humana”, assinala a professora.
Exemplo disso é esta máxima de Algazali contra a erudição vã, publicada em Notandum: “Disse o Profeta: ‘O pior suplício no dia da Ressurreição será o do estudioso que não aproveitou seu saber diante de Deus’”. Outra máxima de Algazali que preserva o profundo sentido da tradição árabe é esta: “Não reconheças a verdade na boca das pessoas; antes, reconhece a verdade. E assim poderás reconhecer quem diz a verdade”.
Além das máximas de sabedoria, Notandum publica outro texto de Algazali, também com tradução da professora Aida. Trata-se de trechos do Ayyuha al-Walad (Ó Filho), que o pensador árabe escreveu no fim da vida e resume suas conclusões sobre o sentido da religião.
Para Algazali, o sentido profundo da religião encontra-se na prática das boas obras, como ele mesmo afirma em Ó Filho: “Não sejas desprovido de atos virtuosos nem de graças espirituais. E podes estar certo de que a ciência, por si só, não é de nenhuma valia. Eis aqui um exemplo: suponha um homem no deserto, portando dez sabres indianos e ainda outras armas, que seja bravo e combativo e que um leão terrível venha atacá-lo. Acreditas que estas armas afastariam o perigo, se ele não se utilizasse delas para atingir o leão? E certamente o mesmo ocorre com o erudito que estuda cem mil problemas e os guarda de cor, sem tirar proveito em suas ações”.

Ciência e fé – Já de Averróes, Notandum publica a tradução feita por Aida do Discurso Decisivo (Fasl al-maqal). Nele, o filósofo expõe suas ideias a respeito das relações entre a ciência e a fé, entre a revelação e a filosofia. Composto na forma de uma fatwa – um parecer legal sobre uma questão ligada à religião –, o Discurso Decisivo busca demonstrar que, assim como não há contradição entre Deus e a razão, também não há contradição entre a religião e a filosofia. Para Averróes, filosofia e religião são duas dimensões do saber e, por isso, ambas necessitam uma da outra para o conhecimento da verdade.
Averróes recorre a vários trechos do Alcorão para justificar a atividade dos crentes que se dedicam à filosofia. Para ele, o versículo 185 do capítulo 7 – “E não olharam para o reino dos céus e da terra e para todas as coisas que Deus criou?” – “induz claramente ao exame racional de todos os seres existentes”. Entre os homens que o Altíssimo distinguiu com a capacidade de filosofar, diz Averróes, está o próprio
Abraão, como se depreende do seguinte versículo: “E assim fizemos ver a Abraão o reino dos céus e da terra” (capítulo 6, versículo 75). “E se está estabelecido que a lei torna obrigatório o exame dos seres existentes por meio da razão e da reflexão sobre eles e que a reflexão não é mais do que dedução, a extração do desconhecido a partir do que é conhecido – aquilo em que consiste o silogismo ou que se opera pelo silogismo –, então temos obrigação de recorrer ao silogismo racional para o exame dos entes”, defende Averróes – nome latino de Ibn Rushd, que nasceu em Córdoba, na Espanha muçulmana.

A professora Aida: traduções contra o preconceito e a desinformação

O autor do Discurso vai ainda mais longe. Ele pretende mostrar também a importância do estudo das obras dos pensadores “antigos” – numa clara referência à filosofia grega. Para ele, se homens do passado já investigaram a verdade, é claro que se deve recorrer a seus escritos, ainda que eles não sigam a religião muçulmana. “Se tudo aquilo de que se tem necessidade para o estudo dos silogismos racionais foi realizado da melhor maneira pelos antigos, então, por certo, é preciso que avidamente tomemos em mãos seus livros, a fim de verificar tudo o que disseram a respeito”, escreve Averróes. “Se tudo for justo, aceitaremos; e, se se encontra algo que não seja justo, nós o indicaremos.”

Humanismo chinês – Mas a nova revista Notandum – uma edição especial, de número 35/36 – não traz apenas textos da literatura árabe. Nela encontra-se também uma obra fundamental do pensamento chinês, o Livro do Tao, do filósofo Lao Tsé, que viveu no século 6 antes de Cristo. A tradução, feita diretamente do chinês, é do professor Mario Bruno Sproviero, docente aposentado da FFLCH, que verte desta forma o primeiro verso do Livro do Tao: “O curso que se pode discorrer/ não é o eterno curso/ O nome que se pode nomear/ não é o eterno nome”.
A professora de Língua e Literatura Chinesa da FFLCH Ho Yeh Chia publica em Notandum sua tradução do livro 4 dos Analectos de Confúcio, filósofo chinês nascido em 551 antes de Cristo. Na introdução, Chia comenta o conceito de ren, que por vezes traduz como “humanidade” e que, para estudiosos confucianos, representa a principal doutrina de Confúcio. Sobre ren, Chia anota: “Originalmente a palavra não tinha conotação moral. No uso arcaico, descrevia apenas o comportamento viril de um herói. Essa acepção primitiva, ainda pertencente a uma mentalidade épica, foi progressivamente substituída por uma noção ética: o homem considerado nas suas complexas relações morais com os outros e em suas obrigações para consigo mesmo. Confúcio desenvolveu plenamente essa nova acepção moral, colocando ren como a pedra angular do humanismo chinês”.
Outros artigos publicados na nova edição de Notandum são “Lições da Índia – Desapego, justiça, política, paideia”, de Paulo Ferreira da Cunha, “O ideograma como forma de expressão”, de Inty Scoss Mendoza, “Cem provérbios de tradição árabe”, de Jean Lauand, e “Animais nos provérbios chineses”, de Chie Hirose. A revista é publicada pelo Cemoroc em parceria com o Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo e com o Instituto Jurídico Interdisciplinar (IJI) da Universidade do Porto, em Portugal. Está disponível na íntegra, gratuitamente, na internet (www.hottopos.com/notand35).