Home » 1023 (24 a 02.03.2014), Ciência

Onze em campo pela cidadania

Publicado por admin - Thursday, 27 February 2014

SAÚDE

Curso da Fifa no Hospital das Clínicas treina educadores para jogar pelo bem-estar da população


BRUNA DE ALENCAR

USP Online

Sede da Copa do Mundo em 2014, o Brasil recebeu pela primeira vez o Cascade Course, um treinamento para professores da rede municipal com o objetivo de promover, com crianças, um programa de educação e prevenção em saúde aliado à prática do futebol. O curso foi ministrado no complexo do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP do dia 10 ao dia 14, para professores de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre.
O treinamento é uma iniciativa do Medical Assessment and Research Centre (Centro de Pesquisa e Avaliação Médica) da Fifa – a entidade que comanda o futebol mundial e organiza as Copas do Mundo –, criado um ano antes da Copa da África do Sul, em 2009. A organização mobilizou sua equipe devido aos dados alarmantes da Organização Mundial de Saúde (OMS), que apontavam as doenças mais prevalentes do continente africano, e criou o programa 11 pela Saúde. Desde então, o programa já atuou em 20 países.

André Pedrenelli: qualidade de vida

Segundo o médico oficial da Copa do Mundo em São Paulo, André Pedrenelli, o curso, inicialmente, tem por objetivo preparar os professores das 12 cidades-sede. “A ideia é que os profissionais que fizerem o curso possam atuar como multiplicadores de conhecimento”, diz. Para o médico, o grande mérito do projeto é promover a qualidade de vida das pessoas através da educação. “Educando essas crianças de forma correta, consequentemente se desenvolverão um adulto e um indivíduo da terceira idade mais saudáveis”, acredita.
De acordo com Pedrenelli, a Fifa avaliou que este era o momento de introduzir o curso no País, aproveitando o ensejo do campeonato mundial de futebol. O curso foi ministrado, simultaneamente, também em Brasília e Natal.
A partir do treinamento oferecido pelo Cascade Course, os professores podem, então, aplicar o programa 11 pela Saúde, que é baseado em 11 mensagens simples, visando à redução de doenças transmissíveis e não-transmissíveis, não só na África, mas em todo o mundo. Entre as mensagens, lições que estimulam o exercício físico, o respeito à mulher, a prevenção ao HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis e o controle do peso. O programa funciona como um disseminador de informação e prevenção em saúde a partir do trabalho que os professores exercem junto às crianças.

Neymar e Messi – O 11 pela Saúde envolve crianças entre 10 e 12 anos, faixa etária escolhida porque acredita-se que uma criança menor não tenha desenvolvido plenamente suas capacidades cognitivas. “Hoje sabemos que as crianças dessa faixa têm um poder muito grande de influenciar a região onde vivem”, conta André Pedrenelli. “Eles levam essas mensagens aos seus pais, aos seus tios, aos seus irmãos. Ou seja, a rede de disseminação desses conceitos de prevenção em saúde fica muito maior”, explica o médico.
Inicialmente, 11 escolas participam do programa. Elas são indicadas pelo Ministério da Educação e os professores, preferencialmente de Educação Física, são escolhidos pela escola indicada.
O programa tem duração de 11 semanas, e cada uma trabalha uma determinada informação de saúde. São, ao todo, 11 sessões de 90 minutos, cada uma com dois blocos de 45 minutos, organização semelhante à de um jogo de futebol. A primeira parte chama-se “Jogando Futebol” e está focada no ensino de habilidades relacionadas a um aspecto específico do futebol. A segunda parte se chama “Fair Play”, bloco em que uma questão particular em saúde é trabalhada com as crianças.
Para estimular maior adesão ao programa, a Fifa convidou alguns jogadores famosos – como Neymar, Marta, Messi e Cristiano Ronaldo – para passar as mensagens às crianças através de vídeos.
Após as 11 semanas do programa, a Fifa terá duas ou três semanas para avaliar os resultados iniciais e as escolas que desejarem poderão adotar o programa.
Uma das lições previstas no 11 pela Saúde – a mensagem número dois, que diz “Respeite as meninas e as mulheres” – aponta para uma mudança de pensamento da sociedade, mostrando que o espaço do futebol não é de uso exclusivo do sexo masculino.
Segundo a coordenadora internacional do programa na Colômbia, Erika Ruíz, essa mensagem foi elaborada porque, além de fazer parte das recomendações da OMS, trata de um problema gritante, tanto na África (onde o programa foi concebido) como nos demais países. “A mulher, todo dia, é vítima de abuso, de estupro, de violência familiar, de violência doméstica. Uma mensagem fundamental para se ensinar às crianças, principalmente aos meninos, é a importância de respeitar meninas e mulheres, assim como as demais pessoas com as quais eles convivem todos os dias”, conta.
Atualmente, Erika é a única mulher a integrar a coordenadoria internacional do programa. Ela afirma que a inserção da igualdade de gêneros é de extrema importância. Ela mesma, em trabalhos anteriores, conta que já foi vítima de preconceito por ser mulher e trabalhar em uma área predominantemente masculina.