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Sob o sonho da liberdade, o desafio dos estudantes

Publicado por admin - Thursday, 27 February 2014

GRADUAÇÃO

Nos dias 17 a 21, durante a 16ª Semana de Recepção aos Calouros, os novos alunos da USP foram recebidos em todos os campi com uma programação especial. Debates, palestras, gincanas e filmes sobre os anos de rebeldia marcaram a chegada dos 11 mil calouros que, como acontece a cada ano, dão novo ritmo à Universidade

LEILA KIYOMURA

Segunda-feira, dia 17 de fevereiro de 2014. Uma data que vai ficar na memória dos calouros da USP. O dia mal amanheceu e a cidade já acompanhou a movimentação dos estudantes das Arcadas no Largo São Francisco. Ou dos de Medicina, Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional na Casa de Arnaldo. Em todos os campi, os veteranos se organizaram para recepcionar os 11.057 novos alunos com aulas inaugurais, palestras, saudações, visitas monitoradas nos departamentos e nos laboratórios. Também programaram festas com música e gincanas. Um dia que foi brindado pela chuva na Praça do Relógio, enquanto os estudantes de todas as áreas se reuniram para assistir ao “cinema na grama”, promovido pela Tenda Cultural Ortega y Gasset, na Cidade Universitária.
Ser um calouro das Arcadas era o desafio dos amigos João Pedro Leme, Thaís Stopp e Letícia Sanches, formados pelo Colégio Bandeirantes, e de Maria Júlia Pereira, do Dante Alighieri, todos com 17 anos. Fazem questão de vestir a camisa da Faculdade de Direito e já se sentem parte da história do Centro Acadêmico XI de Agôsto. Sabem a história da instituição de cor. “Os estudantes das Arcadas mudaram o Brasil”, conta João. “Os principais movimentos políticos, desde o Abolicionismo e o Movimento Republicano até o Diretas Já, têm a participação das Arcadas”, emenda Maria Júlia. “Daqui saíram nove presidentes da República, governadores, prefeitos e vários políticos e escritores”, completa Thaís.
Foi a sensação de um dia deixar a impressão digital no mundo que incentivou Fernanda Yumi, 18 anos, a entrar nas Arcadas. Estudou no Colégio Brasília, na Vila Formosa, e entrou sem fazer cursinho. “Estudei muito, mas valeu a pena. Desde os dez anos já tinha me decidido a seguir a profissão de minha tia. E, nessa decisão, estava o sonho de entrar na USP.”
Na Faculdade de Direito, a abertura da Semana de Recepção aos Calouros foi realizada no salão nobre, com palestra do diretor Antonio Magalhães Gomes Filho e com aula inaugural dada pelos professores Gilberto Bercovici e Giselda Maria Fernandes Hironaka, que falaram sobre “Reformas de base e superação do subdesenvolvimento” e “O contemporâneo perfil do direito da família brasileira e o seu ensino nos cursos jurídicos no século 21”.

Contra o machismo – O sonho de transformar o mundo e ver os brasileiros com o atendimento à saúde que merecem fez Guilherme Rodrigues Marta, 20 anos, dormir e acordar entre livros. “Nos últimos três anos só estudei. No ano passado, quando não vi o meu nome entre os aprovados, pensei em fazer outra coisa, desistir. Mas a vontade de ser um bom médico valia o sacrifício. Minha família deu a maior força. E a minha namorada também me incentivou e me ajudou nas redações.”
Guilherme custa a acreditar que está, enfim, participando da Semana de Recepção aos Calouros da Faculdade de Medicina. “Meu pai cursou Administração, mas trabalha como caminhoneiro. Está muito orgulhoso. E minha mãe, que é dentista, está tão feliz e realizada que eu já disse para ela que, assim que me formar, vou pagar um cursinho para ela entrar na Medicina da USP. E olha que ela tem muita capacidade.”
Leiliane Somoggi Chaves, 21 anos, também comemora a felicidade de entrar na Medicina. “A USP tem um curso que é dos melhores do mundo. E a minha meta é estudar bastante, aproveitar as oportunidades. Ser uma médica humana, que possa ajudar realmente os que precisam.” Leiliane conta que vai ser a primeira médica da família. “É uma grande responsabilidade. Quero cuidar de todos.”
Os calouros da Casa de Arnaldo acompanharam também a Semana de Recepção Livre de Machismo e Homofobia. “É um movimento para mudar a cultura machista da Medicina”, observa Gabriel Lima, 21 anos, estudante do segundo ano. “É importante que as pessoas passem a dialogar mais. Aqui há um machismo cultural por ser um curso tradicional e conservador”, completa Marina Pikman, 23 anos, do quarto ano. Gabriela Belei, 20 anos, do segundo ano e integrante do Coletivo Feminista Geni, defende a abertura aos novos tempos: “Tem gente contra, mas tem muita gente a favor. É importante a luta contra o preconceito, a homofobia, o racismo. Enfim, essa é uma realidade que não se pode ignorar”.

Cabo de guerra – Depois de ver o filho estudando dia e noite, Cristiane Antunes se divertiu ao torcer por Richard, 17 anos, no cabo de guerra. A gincana na Faculdade de Odontologia se estendeu por toda a tarde. “Eles merecem um pouco de descontração”, diz a mãe. “É muito gratificante entrar na USP. Quero aproveitar não só o curso, mas ver o que a Universidade tem a oferecer. Conhecer outras unidades e participar das atividades científicas e culturais.”
A veterana Luiza Andrés conta que o Centro Acadêmico dá apoio total aos calouros. “Nós orientamos em tudo, sobre as possibilidades que o curso e a Universidade oferecem, sobre os congressos universitários, sobre a importância do programa de internacionalização. Também ajudamos aqueles que não têm condições financeiras a conseguir moradia no Conjunto Residencial da USP e orientamos os estudantes até na divisão de caronas.”

Respeito: na Faculdade de Medicina, alunos propõem a reflexão sobre o reconhecimento das diferenças. Na foto abaixo, a alegria dos novos alunos da Faculdade de Odontologia

Na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), os veteranos prepararam a recepção dos calouros com música, palestras e o tradicional batismo no lago em frente ao prédio. “Este é um momento de descontração necessário. Daqui para frente, é muita responsabilidade”, diz Tatiana Schoelz, 18 anos. “Escolhi a FAU por unir arte, criação e intervenção social.”
Foi pensando em um curso que pudesse dar uma boa visão cultural, social e econômica do planeta que Isabella Beninca, 19 anos, decidiu por Relações Internacionais na USP. “Vim de Curitiba, mas tenho certeza de que vai valer a pena morar em São Paulo e ter um cotidiano completamente diferente. Esse curso, acredito, vai me dar uma compreensão maior das relações entre os países. O Brasil está crescendo muito e precisa de profissionais especializados para estreitar os laços internacionais.”
Praça de todos – Espalhados pela Praça do Relógio, na Cidade Universitária, os calouros e veteranos de diversas áreas se sentaram na grama para ver o filme Uma noite em 67 no telão da Tenda Cultural Ortega y Gasset. Em silêncio e sob a forte garoa que começou a cair, ouviram os depoimentos de Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil sobre os tempos da ditadura e o desafio da liberdade nas canções que integraram a final do 3º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record.

Em Bauru, Larry Taylor faz palestra: preocupação social

“É emocionante estar aqui na praça, com os calouros, revendo o sonho desses músicos perseguidos pela ditadura”, observa Sayuri Inoue, 21 anos, caloura do curso de Pedagogia. “Temos muito a aprender. Fico olhando este espaço e imagino que posso sugerir projetos de educação com crianças. Consigo imaginar aulas de arte nesta tenda. Acredito que, ao contrário dos jovens da década de 1960, temos toda a liberdade para criar.”
Os novos tempos dos jovens reunidos na Praça do Relógio, na opinião dos amigos Victor Chaves, do quarto ano de História, e Paulo Viel, do terceiro ano de Arquitetura, foram gestados na rebeldia dos anos 1960. “Eles sonharam com a liberdade que estamos procurando trilhar”, observam. “A Tenda Ortega y Gasset é o espaço da criatividade.”

Em Ribeirão Preto (à esquerd) e em São Carlos: alegria contagiante em todos os campi

Para Nicholas Ultramari, 17 anos, calouro do curso de Ciências Sociais, a tenda é um lugar que sugere a democracia. “Uma ideia genial de quem certamente passou pelos tempos duros da ditadura.” Nicholas tem razão. A tenda Ortega y Gasset é um projeto idealizado por Maria Arminda do Nascimento Arruda, cientista social formada pela USP nos anos de chumbo. À frente, pela segunda gestão consecutiva, da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária, ela defende: “Não existe cultura sem liberdade. Sem vanguarda”.
Quando a chuva começou a cair forte, os estudantes tiveram a opção de ver o documentário no auditório. E de cantar Alegria, alegria, de Caetano Veloso, Roda viva, de Chico Buarque, Domingo no parque, de Gilberto Gil, e Ponteio, de Edu Lobo e Capinam.
Melodias que estão na memória do reitor Marco Antonio Zago, formado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP em 1970. “É importante lembrar que a Universidade de São Paulo foi uma trincheira da resistência. Em seus 80 anos, tem uma presença na constituição da cultura brasileira e da democracia”, destacou o reitor num encontro com os calouros, realizado no dia 19, na Tenda Ortega y Gasset. “Os estudantes têm o papel da provocação. Daqui a dez, quinze anos todos estarão na sociedade assumindo funções à altura da sua qualificação na USP. Ficarão menos sonhadores. E mais realistas. Mas este novo tempo na USP será sempre uma referência” (leia entrevista com o reitor Marco Antonio Zago na página 20).

A festa dos calouros no interior

Não foi só na capital que os novos alunos da USP foram recebidos com muita festa, alegria e atividades culturais. Nos campi da USP espalhados pelo interior do Estado os calouros tiveram a mesma experiência.
Ações solidárias, palestras, torneios, apresentação do USP Recicla e eventos culturais foram algumas das atividades realizadas durante a Semana de Recepção aos Calouros na USP de Ribeirão Preto. Os alunos foram recebidos pelos diretores, veteranos e ex-alunos das oito unidades de ensino.
Os calouros do curso de Medicina participaram da tradicional cerimônia da boina. Trata-se de uma tradição que remonta à fundação da FMRP, nos anos 50. Naquela época, havia o costume de os estudantes de Medicina usarem boinas amarelas para serem reconhecidos na cidade. O costume foi interrompido em 1977. Em 1993, estudantes resolveram retomar a tradição, que persiste até hoje.
No campus da USP de Lorena, a Semana de Recepção aos Calouros começou com um Café na Floresta, oferecido pela coordenação do curso de Engenharia Ambiental aos calouros e convidados. O evento aconteceu na Floresta Nacional de Lorena (Flona) e teve o objetivo de incentivar a pesquisa sobre essa área de mata atlântica existente na cidade.

Em Lorena (à esquerda) e em Piracicaba: preservação do ambiente na pauta da recepção aos calouros

Na ocasião, o diretor da EEL, professor Antonio Marcos de Aguirra Massola, deu as boas-vindas aos calouros de Engenharia Ambiental e chamou a atenção para a responsabilidade dos aspirantes a engenheiros diante das mudanças climáticas. Para ele, a parceria da EEL com a Flona é um privilégio para os estudantes de Lorena. “A Flona é um grande laboratório para os alunos de Engenharia, especialmente para os do curso de Engenharia Ambiental. Com essa parceria, a USP oferece aos alunos uma grande oportunidade para o desenvolvimento de ações úteis à sociedade”, destacou o diretor.
Já no campus de Piracicaba, os 430 ingressantes dos sete cursos da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) se depararam, a cada dia, com atividades e temas diferentes. No dia 17, houve o Dia da Integração, que incluiu café da manhã e apresentação musical no ginásio de esportes da Esalq. Dia 20 foi o Dia do Compromisso Socioambiental, em que grupos de alunos fizeram a entrega de donativos às entidades assistenciais Lar Betel e Reciclador Solidário, além de plantarem mudas de árvores. No período da tarde ele ouviram a palestra “O papel do estudante na gestão socioambiental do campus”.
Em São Carlos a semana de recepção não se restringiu aos calouros nem se limitou ao campus universitário. A Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) e o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC), por exemplo, promoveram encontros e visitas monitoradas com os pais para tirar dúvidas e também falar um pouco dessa nova etapa da vida dos filhos, o que incluiu uma palestra sobre o comportamento das gerações.
Cada vez maior, a interação com a sociedade também fez parte da semana. Os veteranos do Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU) levaram os calouros para um passeio pela cidade, dentro de uma proposta de vivência estudantil. Já o Centro Acadêmico Armando de Salles Oliveira e o Instituto de Química de São Carlos (IQSC) buscaram uma interação voltada à solidariedade. Enquanto o Caaso arrecadou donativos e realizou serviços emergenciais em algumas instituições assistenciais, o IQSC fez campanhas de doação de sangue e de cadastramento de medula óssea.
Uma programação intensa, com atividades sociais, assistenciais e esportivas, marcou a 16ª Semana de Recepção aos Calouros no campus da USP de Bauru. Na Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB), um dos destaques foi a palestra motivacional de Larry Taylor, jogador do Paschoalotto Bauru Basket e da Seleção Brasileira de Basquete. Taylor encantou os calouros com sua simpatia e simplicidade. Taylor tem 33 anos, nasceu em Chicago, nos Estados Unidos, e se naturalizou brasileiro em 2012 para defender o Brasil nas Olimpíadas de Londres. Atualmente reside em Bauru. Na sua palestra, o esportista ressaltou a importância do seu envolvimento em projetos sociais que desenvolve em Bauru.

ALICIA NASCIMENTO AGUIAR, de Piracicaba

EDMILSON LUCHESI, de São Carlos

MARIANNE RAMALHO, de Bauru

ROSEMEIRE TALAMONE, de Ribeirão Preto

SIMONE COLOMBO, de Lorena