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Crise na educação, uma ameaça ao Brasil do futuro

Publicado por admin - Monday, 10 March 2014

LANÇAMENTO

A edição número 100 da Revista USP, que comemora os 25 anos da publicação, traz dossiê com o tema Educação. E abre espaço para a reflexão e o questionamento de um dos problemas mais graves do País, que inviabiliza o desenvolvimento econômico, social e cultural

LEILA KIYOMURA

O centésimo número da Revista USP, editado no momento em que completa 25 anos de atividades, traz o tema Educação abordado como um dos graves problemas que comprometem o desenvolvimento econômico, social e cultural do País. Especialistas e pesquisadores analisam a crise no sistema educacional brasileiro, observando a educação básica no Brasil, a questão da alfabetização, a formação de professores, o ensino de arte e as interfaces da educação a distância, entre outras questões prementes para a conscientização de que, sem educação de qualidade, o País não tem brio para trilhar novos caminhos. E que a educação é a política pública que deveria ter maior alcance aos brasileiros, apesar das limitações históricas que aliaram a sua trajetória aos interesses de mercado.

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“Trata-se de uma situação que nada tem de passageiro ou circunstancial, mas, sim, que se reveste de uma importância fundamental para os destinos da nação como um todo. Eis que o fracasso na formação das novas gerações ameaça inviabilizar o Brasil do futuro, que busca integrar, com sucesso, a era do conhecimento, e realizar, com plenitude, as suas aspirações nacionais, resumidas hoje em três vetores principais, a saber: democracia plena, desenvolvimento econômico e justiça social”, observa Paulo Nathanael Pereira de Souza, ex-secretário de Educação de São Paulo, integrante do Conselho Editorial da Revista USP e coordenador do dossiê.  “Sem educação de qualidade, em todos os níveis de escolaridade, isso tudo poderá converter-se de sonho em pesadelo, razão pela qual o tema da falta de eficácia da educação, sobretudo a popular, deveria ser a prioridade das políticas públicas em andamento.”
Souza aponta o exemplo dos países mais bem-sucedidos do mundo como um estímulo aos emergentes como o Brasil. “Sem educação de qualidade, ou pertinente, como quer a Unesco, ninguém compete com sucesso no alcance de suas metas. E educação pertinente quer dizer a formação eficaz das novas gerações em todos os graus de ensino, de modo a capacitar cada cidadão a participar plenamente das decisões que conduzem o País a seus propósitos maiores.”
O professor lembra que o País, ao longo de sua formação histórica, perdeu oportunidades preciosas para acelerar seu crescimento econômico e assegurar o bem-estar da população. “A curta visão dos governantes e a alienação de uma sociedade sempre privada de educação de qualidade, causa maior da ausência de um senso crítico mais apurado, precisam mudar radicalmente neste século 21, sob pena de o País perder irremediavelmente o bonde da história.”

Alfabetização – No artigo “Alfabetização no Brasil”, João Batista Araújo e Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto e autor de Aprender e Ensinar, da Editora Global, faz uma análise sobre as políticas e as práticas de alfabetização no País, que, ao ignorarem os avanços científicos na área, vêm contribuindo para os baixos níveis que caracterizam o desempenho dos alunos. “A escola brasileira – especialmente a escola pública – produz um novo tipo de aluno, o analfabeto escolarizado. O aluno se “analfabetiza” na escola, ao longo das séries iniciais, e alguns, com esforço próprio, conseguem se apropriar do código alfabético”, observa. “O preço a pagar é enorme, em termos de tempo perdido, reprovações e frustrações de toda ordem.”

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Oliveira defende que a “desalfabetização” dos alunos não se dá como erro de implementação. “Ela é fruto de uma política deliberada, compartilhada pelo MEC, pelas secretarias estaduais e municipais de Educação e pelas universidades federais, estaduais e particulares.”
Bernardete Gatti, diretora do Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas, analisa a questão da formação inicial de professores para a educação básica em cursos de graduação. “No Brasil, país de escolarização tardia, a necessidade de incluir nas redes de ensino as crianças e jovens de segmentos sociais que até poucas décadas atrás não eram atendidas pela educação básica colocou grandes desafios, um deles a formação de professores”, explica. “Com a grande expansão das redes de ensino em curto espaço de tempo e a ampliação consequente da necessidade de docentes, a formação destes não logrou, pelos estudos e avaliações disponíveis, prover o ensino com profissionais com qualificação adequada. Pesam nessa condição não só a urgência formativa, mas também nossa tradição bacharelesca, que leva a não considerar com o devido valor os aspectos didático-pedagógicos necessários ao desempenho do trabalho docente com crianças e jovens.”
Segundo Bernardete, é importante criar condições concretas para um novo tipo de formação inicial, no ensino superior, para a docência na educação básica. “Há necessidade de melhor estruturar, qualificar e avaliar o trabalho desenvolvido nas licenciaturas, na formação inicial de docentes para a educação básica. É tarefa de ontem, mas ousar mudar de fato não é uma questão simples nos contextos de nossas instituições e das normatizações. Os interesses são diversos e, sem uma política nacional firme, com foco na qualidade formativa de novos professores, continuamos patinando quanto às possibilidades de uma renovação educacional necessária ao País e seus cidadãos.”
Apesar dos investimentos em reformas educacionais, curriculares e tecnologias, não há a garantia de uma formação adequada para as novas gerações. “Reformas ou inovações na educação escolar básica não ganham fôlego, não se realizam, sem a participação qualificada de professores”, afirma Bernardete. “Avaliações sistêmicas, por si, não mudam o desempenho dos estudantes. Elas podem informar. Mas o que favorece aprendizagens mais ricas é o trabalho educacional qualificado dentro de cada escola, em cada sala de aula.”

Arte e sociedade – Rosa Iavelberg, professora do Departamento de Metodologia de Ensino da Faculdade de Educação da USP, discorre sobre o ensino de arte na educação brasileira, explicitando as relações entre as leis e os documentos de âmbito federal que dão as diretrizes para a educação em arte nas escolas de educação básica. “O ensino da arte está ligado à história da arte, da educação e da criança. As teorias e práticas em sala de aula são fruto de ideias, do contexto político e social de cada época. Portanto, ensinar aos professores a história do ensino da área de arte na educação escolar é importante para conscientizá-los sobre o valor da memória e da origem das propostas curriculares contemporâneas.”
A professora lembra que, nos anos 1980, em vários países ocorreu uma mudança paradigmática no ensino da arte. A proposta contemporânea sinalizou a arte como expressão e interação social e história da arte em sua diversidade, incluindo saberes sobre o sistema da arte situado no tempo e no espaço, na variedade de formas de significação, produção, documentação, difusão e acesso. “Essas novas proposições, que não observam apenas o desenvolvimento artístico espontâneo da criança e do jovem, como ocorreu na escola renovada, mas as relações entre aprendizagem e desenvolvimento que ocorrem mediante a interação do aluno com a arte presente no mundo, marcaram as escolas de orientação construtivista dos anos 1980, nas diversas áreas de conhecimento e também na área da arte, no Brasil e em outros países.”

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A partir dessa mudança, os museus e instituições culturais em geral passaram a ser parceiros das escolas, aproximando alunos e professores de educadores de museus e de outros espaços culturais, dos artistas e da arte nas cidades. “Essas ideias, presentes no ensino de arte, nas discussões e pesquisas contemporâneas, valorizam as trocas simbólicas entre os que fazem, pensam e aprendem arte nas escolas e na sociedade. O que se quer é que todos os alunos possam aprender, saber fazer e conhecer arte. É o que, assim, propomos àqueles que trabalham pela melhoria da qualidade da educação, da vida dos alunos, dos professores e da sociedade.”

A importância da EAD – As interfaces da educação a distância (EAD) são apresentadas por Fredric M. Litto, Professor Emérito da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Ele afirma que as críticas feitas no Brasil à EAD são resultado do desconhecimento das suas conquistas no exterior e dos mitos que impedem seu uso pleno para democratizar o acesso aos estudos avançados e à sua certificação. Defende a importância das novas ferramentas digitais como objetos de aprendizagem, lembrando que recursos educacionais abertos e cursos massivos on-line oferecem o caminho para dinamizar o ensino/aprendizagem em geral e possibilitar a aprendizagem independente.
“O Brasil cresce lenta, mas continuamente, na mira de uma posição de real destaque entre as nações”, observa. “Porém, cinco séculos de atraso no setor educacional no País dão evidências dos fatores que prejudicaram a criação de uma força de trabalho cuja qualificação plena poderia nos igualar aos países líderes.”
O professor Litto compara a formação dos jovens no Brasil com a de outros países. “Enquanto o Brasil registra apenas 13% dos seus jovens de     18 a 24 anos matriculados no ensino superior, Argentina, Chile e Bolívia gozam de porcentagem acima dos 30%. Países da Europa, América do Norte e Ásia ostentam taxas que vão de 60% a 85%, registrada na Coreia do Sul.” O educador atribui essa diferença ao ceticismo e interesse morno do governo, com a cumplicidade da mídia, além de nostalgia e conservadorismo por parte da comunidade acadêmica. Diante dessa postura, alerta que o Brasil não terá mão de obra qualificada para sustentar suas próprias necessidades internas na oferta de qualidade de vida social e de realização profissional para todos os seus cidadãos. “Por exemplo, faltam até caminhoneiros hoje porque um segmento significativo desses profissionais é incapaz de operar computadores, instrumentos necessários para receber e dar instruções e informação.”
Litto é um dos pioneiros no País a defender e provar a eficácia da educação a distância. “Criticar sem propor soluções alternativas equivalentes e viáveis é o calcanhar de aquiles daqueles que atacam a aprendizagem a distância. Se apenas a metade dos municípios brasileiros oferece ensino superior presencial, como dizer que tentativas de estender acesso aos estudos avançados através da EAD não sejam democráticas? Qual é a alternativa? Se mais de 23% da população brasileira, segundo o IBGE, inclui cidadãos com necessidades especiais, então como criticar, sem ser hipócrita, o emprego da tecnologia para levar escolas e universidades até as casas desses conterrâneos?”
O professor cita que entre os exemplos brasileiros que estudaram a distância estão o sociólogo Florestan Fernandes, que cursou o ensino médio na modalidade Madureza, a senadora Marina Silva e o senador Valdir Raupp, que fizeram o ensino médio através do Telecurso, entre outros. “Os críticos da aprendizagem a distância estão mentalmente engessados, presos a uma visão ultrapassada da educação, nostálgica e confusa.”
A observação de Litto é reforçada no texto de José Pastore, professor de Relações do Trabalho da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP. Ele aponta a velocidade das mudanças no mundo contemporâneo. “Vivemos em uma era em que a história corre muito depressa. Já houve outros tempos assim. Lembro aqui a entrada dos teares tocados à máquina a vapor, inventada por James Watt em 1763, e a entrada do motor elétrico, criado por Werner von Siemens em 1886.”
Nos dias atuais, segundo o professor, a história presencia uma velocidade irreconhecível com as novas tecnologias entrando no mundo do trabalho, abrindo inúmeras oportunidades e, ao mesmo tempo, colocando enormes incertezas para o sistema educacional. “A produção está se baseando cada vez mais em elementos intangíveis, ou seja, nas ideias, e cada vez menos na musculação ou força física. Na produção industrial moderna participa muito mais o abstrato do que o concreto. E o abstrato é o que se aprende na escola. Educação de boa qualidade tornou-se uma peça fundamental para a produção industrial.”
Pastore aponta o uso do bom senso como essencial. “O trabalhador que decide colocar as peças defeituosas ou as frutas apodrecidas no fundo da caixa, achando que o consumidor não vai perceber, rema contra o bom senso, prejudica a empresa e a si próprio.” O professor salienta que atitudes como essa não dependem de conhecimentos complexos, mas apenas de um bom senso, que vem com a educação geral. “A empresa moderna espera que os seus profissionais conheçam o seu ofício e sejam comprometidos com o seu trabalho, que tenham zelo naquilo que fazem. Isso também vem com a educação geral.”
No contexto da importância da educação e da formação dos profissionais brasileiros, a Revista USP traz a visão de três ilustres especialistas. Adib Jatene – professor da Faculdade de Medicina da USP, ex-secretário estadual e ex-ministro da Saúde – discute o ensino médico no Brasil, abordando a expansão e a distribuição das faculdades de Medicina brasileiras, o seguro-saúde, o papel do Sistema Único de Saúde (SUS) e o financiamento da saúde. Miguel Reale Júnior, professor da Faculdade de Direito da USP, discute a criação e degenerescência do ensino jurídico, analisando a trajetória das faculdades de Direito no País. E José Roberto Cardoso, professor da Escola Politécnica da USP, apresenta os desafios das escolas de Engenharia que devem ser superados ao final desta década. E apresenta as inovações na formação do engenheiro de 2020, que não deverá ser formado para buscar um emprego, mas para criar seu posto de trabalho.
A Revista USP, com esse dossiê “emblemático”, como define o editor Francisco Costa, reforça a meta do Conselho Editorial em destacar temas relevantes que propiciam a reflexão sobre as questões prioritárias da sociedade brasileira. “Desde aquele começo de 1989 até hoje, a Revista USP passou por um sem-número de experiências, viu suas páginas serem preenchidas com o pensamento dos maiores intelectuais do Brasil de todos os ramos do saber e, neste ano em que a Universidade completa 80 anos de existência, deu sua contribuição para o engrandecimento da instituição.”

Revista USP, número 100, dossiê Educação, edição comemorativa dos 25 anos da revista, publicação da Superintendência de Comunicação Social (SCS) da USP (telefone 11 3091-4403, site www.usp.br/revistausp), 180 páginas, R$ 20,00.