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Caminhos vocais da criatividade

Publicado por admin - Monday, 10 March 2014

MÚSICA

Pesquisadores da USP e da Universidade de Cambridge fazem parceria para estudar as práticas e metodologias do ensino do canto coral no Brasil e no Reino Unido

IZABEL LEÃO

O Grupo de Estudos e Pesquisas Multidisciplinares nas Artes do Canto (Gepemac) e o Laboratório Coral Comunicantus – ambos do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP – promoveram a 1ª Semana de Estudos e Pesquisa. Realizado entre os dias 17 e 21 de fevereiro, o evento contou com ensaios, palestras, mesas-redondas e reuniões de pesquisa direcionadas ao público interessado em se especializar em canto, regência coral e performance musical. A semana compõe o projeto Perspectivas Transculturais para o Desenvolvimento Criativo de Coros e Regentes Corais e teve apoio da British Academy for the Humanities and Social Service (AHRC), dentro do Programa de Parceria e Mobilidade 2013.
Essa parceria trouxe para o Brasil o diretor do Centro AHRC de Pesquisa da Performance Musical como Prática Criativa, professor John Rink, e o regente Geoffrey Weber, diretor do Programa de Mestrado em Música, ambos da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Eles foram recepcionados pelo coordenador do Comunicantus, professor Marco Antonio da Silva Ramos, e pela coordenadora do Gepemac, professora Susana Cecilia Igayara.
As semelhanças e diferenças de perspectivas e de abordagem no desenvolvimento criativo de coros e regentes corais foi o que provocou curiosidade entre as duplas de pesquisadores. Eles pretendem analisar comparativamente as práticas corais nos respectivos contextos culturais, definir novas metodologias e processos para o canto coral e entender o desenvolvimento criativo dos indivíduos em conjuntos vocais, bem como a criatividade de grupo em tais contextos.

Interação – Embora a música coral tenha prosperado na Inglaterra e no Brasil, os músicos continuam desconhecendo a cultura coral uns dos outros, em função das distâncias geográficas e culturais que separam os países. Segundo Marco Antonio Ramos, o projeto pretende estimular oportunidades de interação, com vistas a uma colaboração futura em uma rede internacional de pesquisa. “Em ambos os países estão ocorrendo iniciativas para aprofundar a teoria e prática do canto coral. A comparação revelará o que cada tradição pode aprender com a outra e também como funciona a criatividade de grupo em contextos corais”, explica.
Em abril será a vez de a dupla de pesquisadores brasileiros desembarcar em Cambridge. Lá Ramos e Susana vão participar de ensaios abertos e entender como é a metodologia da regência coral na Inglaterra. “Temos diferenças muito grandes no sistema de ensino, no acesso à universidade, na questão dos cursos de graduação e pós-graduação. Eles têm estruturas bastante diferentes da nossa. Nós associamos a formação de profissionais com a prática ligada à música e à pesquisa em extensão universitária”, lembra Susana.
A professora conta que é a questão da prática que une as duplas de pesquisadores, um dos diferenciais marcantes desse projeto. Ela observa que é na hora do ensaio, de fazer música, que se faz a observação, que se realiza a pesquisa. “Juntos estamos desenvolvendo uma série de protocolos e métodos para poder analisar e obter o resultado comparativo da pesquisa.”

Tradição –
Outro ponto importante a ser estudado é a criatividade de grupo em música, especialidade de John Rink. O pesquisador inglês afirma que quase não há discussões e estudos sobre a criatividade do canto coral. “Criatividade em geral é pouco entendida, quase nada estudada. Não se dá muita atenção para essa questão. Em Cambridge, há cinco anos temos um centro estudando a performance da música como uma prática criativa.”
Rink diz ainda que suas pesquisas procuram responder de que maneira as performances são realmente criativas, e se essa criatividade pode ser respondida com uma performance singular ou em grupo. “A criatividade de grupo se dá no trabalho e na concepção da música conjunta, ou seja, uma pessoa influenciando a outra continuamente. Já a criatividade de grupo não se dá a partir de uma pessoa, tem que se dar no contexto do grupo, durante o processo.”
Definir criatividade, segundo Rink, é algo bem complexo. Para ele, a criatividade acontece em pequena ou larga escala, envolvendo habilidades humanas como a percepção, a memória e a colocação de ideias de diferentes e novas maneiras. O pesquisador inglês ressalta a importância de se entender que criatividade é um processo simples e que gera produtos. “A criatividade é um processo e não somente um produto.”

Geoffrey Weber na ECA: admiração pelo canto coral brasileiro

Para o regente Geoffrey Weber, que admira a performance brasileira no canto coral e que descobriu uma tradição nesse tipo de música no Brasil, contribuir para a pesquisa é um passo importante para entender como os dois países trabalham suas práticas musicais. “Há dez anos, quando assisti a uma apresentação coral brasileira, chamou minha atenção a presença descontraída do grupo no palco e a facilidade de se apresentar. Este projeto vai contribuir para que eu entenda melhor esse processo e possa aplicar no canto coral inglês”, explica.
Nos ensaios com o grupo coral brasileiro, Weber conta que foi muito interessante trabalhar com a música inglesa, quebrando um pouco a tradição. “Ao sairmos do tradicional, descobrimos o que é distinto do que você faz normalmente, e imediatamente percebemos o que é diferente.” Como exemplo, o regente inglês cita o trabalho com as vozes individuais e como elas acontecem na música. Seu trabalho com o coro é descobrir como é construída a sonoridade desse coro em relação à prática.
Para o professor Marco Antonio Ramos, essa via de mão dupla para a pesquisa brasileira e a inglesa é uma atividade especial, principalmente para o Departamento de Música da ECA. O grupo formado para trabalhar a questão da performance vai influenciar os resultados artísticos tanto no Brasil como na Inglaterra. Ele ressalta que os coros de Cambridge estão “no topo do mundo”. “O foco deles são as músicas religiosas, a música para as capelas. Estarem aqui conosco é ter acesso a uma musicalidade bem diferente, além de conhecer as músicas religiosas brasileiras, que são desconhecidas por não serem publicadas.”