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Miró e a arte da leveza

Publicado por admin - Monday, 10 March 2014

Miró e suas obras: em cada desenho, uma lembrança

EXPOSIÇÃO

O gesto do artista devaneia e, em poucos traços, sintetiza a liberdade de ser, de sonhar. É essa poética que a Caixa Cultural revela na mostra “A Magia de Miró”, com 69 desenhos e gravuras

LEILA KIYOMURA

A mulher, o pássaro, o cachorro, a lua, a cascata. Com esses seres, a natureza de Miró brinca. E, num quase gesto, vai tocando o papel. Leve. O espectador atento pode observar o caminho do pincel. Perceber a escassez da tinta na última pincelada. Como no shodo (caligrafia originária da China, considerada expressão de arte), os desenhos e as gravuras de Miró não têm retoques. Os esboços, borrões, a tinta que escorre integram a paisagem.

O ateliê de Miró, em Palma de Mallorca: mostra traz cotidiano do artista

É a sutileza do artista catalão Joan Miró (1893-1983) que a Caixa Cultural destaca na mostra “A Magia de Miró”, com a curadoria de Alfredo Melgar. Ao lado das 69 gravuras e desenhos, estão as fotos que Melgar tirou do pintor, de quem era amigo. São cenas de seu cotidiano no ateliê de Son Abrines, em Mallorca, com os amigos e a família.
“Cada desenho traz uma história, uma lembrança”, conta Melgar. “Não é uma coleção detalhada e sequer cobre certo período ou determinado movimento da história da arte. É só um álbum de recordações desse meu privilegiado contato.”
Uma amizade de delicadezas. Quando Miró ficou sabendo de Melgar – ou conde Villamonte, que trocou sua profissão de médico pela arte da fotografia –, logo o convidou para conhecer o seu ateliê em Palma de Mallorca. “Estava fotografando para vários artistas, que muitas vezes me presenteavam com as suas obras em troca dos meus serviços. Miró me procurou falando que sabia do meu trabalho e que eu era um excelente fotógrafo”, explica. “Mas, na época, tinha menos de 30 anos, e estava apenas começando. Porém, quis fazer jus aos elogios.”
Além dos desenhos e gravuras que fazem parte da coleção de Melgar, há uma sala com uma seleção de 23 retratos em preto e branco que o fotógrafo registrou. Um espaço onde o público pode ver Miró nos últimos anos de sua vida, sempre sorrindo. Feliz ao ver o seu retrato de arame feito pelo amigo Alexander Calder, que, como Miró, buscou a leveza e o movimento na arte, criando esculturas em móbiles.
Melgar lembra a última vez que Joan Miró passeou pelo jardim de Son Abrines e contemplou o mar. “Seus olhos azuis, sonhadores e profundos como sempre, observavam as águas com expressão de assombro. Passamos vários minutos em silêncio até que Joan ergueu os braços e, apontando o mar, sussurrou para si mesmo um ‘Ah! Que pena!’. Tinha um ar de adeus.”

Um poeta – O poeta, escritor e crítico Raymond Queneau, ao realizar um estudo sobre Miró, definiu a sua obra como “uma escritura de um poeta pré-histórico”. Também o crítico pernambucano Mario Pedrosa observou os desenhos de Miró como uma poesia. Uma poesia cujas palavras se restringem ao título.
Na mostra, o visitante vai perceber o pintor que se transforma em poeta na imagem O cavalo ébrio, de 1964. No círculo vermelho sobre um quase quadrado preto, uma bolinha preta do lado direito, outra rosa no esquerdo e algumas manchas. Onde está o cavalo? Não se pergunte. O cavalo está ali, crina ao vento galopando. Longe da realidade de quem busca uma explicação para o universo do poeta pintor. Ou do pintor poeta.
Em Mulher diante da lua, crayon sobre papel de 1977, a lua também não é inteira. Uma meia-lua espiada por um quase olho. Tudo é sugestão, como nos ideogramas ou nos haicais, onde a realidade é a percepção flagrando o fragmento um instante.
Outro exercício para o olhar do visitante é Miró olhando a Miró I, de 1983. Nessa imagem, o pintor faz uma intervenção sobre uma foto de Melgar, que o fotografou de costas. Miró recortou a imagem com os cabelos brancos e a colocou diante da imagem que ele fez de si. Tons vermelhos, amarelos, verdes-azuis, com as formas contornadas de preto. Como Miró se vê? Um cachorro? Um gato? Um nariz? Um ser abstraído do seu próprio ser, da própria forma, do próprio tempo e lugar. Assina com grafite: Miró.

A exposição “A Magia de Miró”, com a curadoria de Alfredo Melgar, está em cartaz até 20 de abril, de terça-feira a domingo, das 9 às 19 horas, na Caixa Cultural São Paulo (Praça da Sé, 111, centro, São Paulo). Entrada grátis. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 3321-4400.