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Dar à luz sem complicações

Publicado por admin - Tuesday, 18 March 2014

SAÚDE

FMRP faz parceria com OMS para a redução da mortalidade materna e perinatal no mundo

BRENO BERLINGERI CAMPOS
De Ribeirão Preto

Reduzir a mortalidade materna e perinatal no mundo. Foi com esse objetivo que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Departamento de Medicina Social (DMS) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP firmaram parceria para o desenvolvimento e implementação do Projeto Bold (Better Outcomes in Labour Difficulty – Melhores resultados em dificuldades do trabalho de parto).

O projeto, liderado pela OMS, por meio dos Departamentos de Saúde Reprodutiva e Pesquisa (RHR) e de Saúde Materna, Neonatal, Saúde da Criança e do Adolescente, além do DMS da FMRP, conta com a participação de instituições da Finlândia, Nigéria e Uganda. O lançamento oficial ocorreu na sede da OMS, em Genebra, na Suíça, nos dias 11 e 12 de fevereiro. Financiado e apoiado pela Fundação Bill e Melinda Gates, a primeira fase do projeto já conta com US$ 3 milhões para o seu desenvolvimento.
Com mais de 160 mil mortes de mulheres relacionadas à gestação, das 287 mil que ocorrem no mundo anualmente, o continente africano será o primeiro a receber o Bold. “Para se ter uma ideia global, 99% das mortes maternas acontecem em países em desenvolvimento e 1% em países desenvolvidos. No Brasil, esse número gira em torno de 1,7 mil mortes por ano”, afirma o professor João Paulo Souza, da FMRP, um dos coordenadores do Projeto Bold, que terá duas fases.

Médico do Projeto Bold em atividade: países do continente africano serão os primeiros a receber assistência

Fases – A primeira fase será de coleta de dados em 12 hospitais, na Nigéria e em Uganda, países da África em que menos da metade das mulheres chegam a um hospital para o trabalho de parto. Ainda na primeira fase será desenvolvida uma nova ferramenta para auxiliar médicos, parteiras e até pessoas leigas, na tomada de decisão sobre os procedimentos durante o trabalho de parto. Batizada de Selma (Simplified, Effective, Labour Monitoring-to-Action tool), a ferramenta será um orientador, que vai guiar o manejo do trabalho de parto.
A Selma será desenvolvida e analisada pelos pesquisadores do DMS e virá como uma alternativa ao Partograma, outra ferramenta que existe desde 1970, mas que tem apresentado problemas fundamentais, segundo Souza. “Imaginamos esse sistema orientando, por exemplo, que o usuário rompa a bolsa da paciente ou que considere fazer uma cesárea”, diz o professor. A duração dessa fase será de dois anos.
Com expectativa de início para 2016, a segunda fase terá duração de cinco anos e será de implementação e expansão do projeto. A ideia é que ele seja desenvolvido em mais dez países do continente africano.

Desigualdade – Em um mundo em que as diferenças se mostram cada vez maiores, a esperança parece estar naquilo que é uma das principais manifestações da desigualdade, a tecnologia. E é utilizando-se dela que a OMS, juntamente com seus parceiros, pretende diminuir as mortes relacionadas à gestação.
A escolha da África como primeiro continente a receber as atividades do projeto vai além dos números, chegando a alguns problemas peculiares, como a baixa qualidade dos hospitais africanos e a dificuldade das mulheres em frequentá-los. “No Brasil, em 1940, as mulheres davam à luz em casa e, ao longo de duas décadas, elas passaram a dar à luz em hospitais, mas essa não é a realidade do continente africano hoje”, conta Souza.
Desenvolver o projeto de pesquisa, coordenar e supervisionar sua implantação em instituições e comunidades africanas, gerenciar e analisar os dados produzidos, realizar modelagem estatística e computacional, além de desenvolver a ferramenta Selma, serão as tarefas de que o DMS da USP estará encarregado. O projeto pode ser acompanhado pelo site boldinnovation.org.